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Curta "Intolerâncias da Fé"

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 09/07/2016 às 20h30

Intolerâncias da Fé - um filme necessário!

 
Sinopse: A partir do depoimento de pesquisadores, lideranças religiosas e praticantes de religiões afro brasileiras, Intolerâncias da Fé pretende retratar os conflitos religiosos ocorridos no espaço público e problematizar o tratamento conferido a estes conflitos pela sociedade e por instituições como a escola e a polícia. Os episódios de intolerância religiosa e a exposição de aspectos da luta histórica dos adeptos das religiões de matriz africana e brasileira por legitimação e reconhecimento mostram que “ninguém quer ser tolerado”, e sim respeitado.
 
Direção: Alexandre B. Borges, Fernando de Sousa e Taís Capelini
 
 
O curta é muito bom, o projeto parte de fatos de intolerância religiosa ocorridos e com grande repercussão para expor análises de comportamentos e explanações históricas.
 
É muito importante que não só assistamos como, compartilhemos com nossos "amigos" das redes sociais, principalmente para que aqueles que não são adeptos de religiões afro-brasileiras possam ter uma pequena noção do quão grande é a perseguição contra nós.
 
A Ìwé Ìmọ̀ - Candomblé sem Segredos apenas não corrobora a ideia de que tolerar seja suportar ou carregar um fardo como diz o historiador no curta. A palavra "tolerância" vem do latim - tolerare - que significa "acolher alguém", "ser suporte", "ser indulgente para com os outros". Seu sentido ao londo da história foi se modificando e sendo deturpado à semântica de "suportar". Fora isso, o curta é excelente e merece todo nosso apoio, nossa tolerância.
 
O curta foi selecionado para integrar a Mostra de Vídeos e Ensaios Fotográficos do 40º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS). O evento acontecerá entre os dias 24 e 28 de outubro, em Caxambu - MG.
 
Assistam>> 
 
 
Categoria: Cinema e arte, Cultura, História, Recomendamos, Transmissão de Conhecimento
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A Nação Ìjẹ̀ṣà no Brasil perde sua matriarca.

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 12/06/2016 às 12h48

Mãe Estelita

 

Mãe Estelita nos deixou ontem, 11 de junho, após uma vida de dedicação aos òrìṣà.

 

Estelita Lima Calmon nasceu em 1919 e foi consagrada aos òrìṣà por Pai Severiano de Logùn Ẹ̀dẹ em 1951. Ela era de Ọya.

 

Siví, como era conhecido o bàbálòrìṣà Severiano Santana, foi iniciado em um terreiro que ficava próximo ao bairro da Ribeira em Salvador – BA. Mais tarde, passou a cultuar os òrìṣà em Bate-estaca, subúrbio de Salvador. Era o início do Ilé Àṣẹ Kalè Bokun, dedicado ao culto de Logùn Ẹ̀dẹ, no ano de 1933.

 

Mãe Estelita era descrita como mulher forte e foi responsável pela consolidação e configuração da casa. Aos 97 anos de idade e à frente do Àṣẹ como uma rainha desde 1994.

 

O bàbálòrìṣà Severiano faleceu em 1970, sendo sucedido, em 1972, pelo seu no àṣẹ, Claudionor dos Santos Pereira, pai Nozinho de Ọ̀ṣun.

 

Com o seu falecimento em 1994, quem assume o Kalè Bokun é outra filha sua, a ìyálàṣẹ Estelita de Ọya. 

 

O Ilé Àṣẹ Kalè Bokun encontra-se em processo de tombamento com base na Lei de Preservação do Patrimônio Cultural do Município de Salvador.

 

A Ìwé Ìmọ̀ – Candomblé sem Segredos, se solidariza com as famílias biológica e espiritual de Mãe Estelita e presta esta singela homenagem a quem merece uma eternidade de reconhecimentos.

 

 

Categoria: Antropologia, Àṣẹ, Ìyáloriṣà, Candomblés Antigos, Cultura, Família de Àṣẹ, História, Transmissão de Conhecimento
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Dia de África

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 25/05/2016 às 08h00

 

25 de maio no Brasil é a celebração do Dia de África. Um dia especificamente para reconhecer e celebrar a libertação dos países africanos da colonização, bem como as nações descendentes do continente. Este dia especial comemorado em todo o  Brasil é um grande exemplo  do  reconhecimento consistente  brasileiro  de sua  forte ligação com África  através da sua população descendente.

 

História

 

Chefes de Estado africanos se reuniram na cidade de Adis Abeba, na Etiópia, em 25 de maio de 1963 para enfrentar a subordinação que o continente vinha sofrendo. A tal subordinação chamou-se colonialismo, neocolonialismo ou partilha da África, que até a data da reunião ainda sofria de apropriação forçada das suas riquezas humanas e naturais.

 

Na ocasião, fundou-se a Organização da Unidade Africana (OUA), sendo conhecida hoje como União Africana. A ONU, em 1972 reconheceu a importância desse encontro e instituiu o dia 25 de maio como o Dia da África, que simboliza a luta dos povos do continente africano pela sua independência.

 

 

Categoria: Antropologia, Cultura, História, Transmissão de Conhecimento
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Equede - a Mãe de todos

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 04/05/2016 às 18h35

Na semana do dia das mães, livro sobre as Mães-Equedes do Candomblé é lançado em São Paulo.

 

 


Na próxima sexta-feira, 06 de maio, a tradicional Biblioteca Mário de Andrade recebe o Lançamento do livro "Equede - a Mãe de todos".


Publicado pela Editora Barabô, o livro é um testemunho de Gersonice Azevedo Brandão, nacionalmente conhecida como Equede Sinha, uma das principais sacerdotisas do Ilé Àṣẹ Ìyá Nasò Oká, a venerável Casa Branca do Engenho Velho, Salvador - BA, fundada em 1830, sendo a primeira casa de Candomblé oficial no Brasil.

 

 

Eu sou uma equede. E uma equede é uma mãe. Então, não me vejo em outra função dentro do axé. Porque eu sou mãe. E não sei mais separar a mãe genética da mãe religiosa

 

Diz Equede Sinha, no livro organizado por Alexandre Lyrio e Dadá Jaques, que traz histórias inéditas em 172 páginas, além de mais de 200 fotos, tanto do acervo pessoal da autora e da Casa Branca, quanto dos fotógrafos Dadá Jaques, Flávio Damm e da Fundação Pierre Verger.


"Equede" é um cargo, uma função na hierarquia do candomblé, o qual concentra os poderes maternais do acolhimento, do zelo e da educação. Do yorubá “èkejì”, equede é o braço direito da Ìyálòrìṣà e zela tanto pelos òrìà quanto pelos filhos de òrìṣà de uma casa, um templo, perfazendo, assim, seu perfil inequívoco de Mãe. A partir do relato de Equede Sinha é possível mergulhar no universo de um dos mais famosos terreiros de candomblé nagô no país, na trajetória de mães e mulheres negras na formação da cultura e identidade afro-brasileiras, assim como a sua própria resistência.

 

 

O lançamento de "Equede - a Mãe de Todos" contará com a presença da escritora, apresentação cultural do Afoxé Ilú Egbá e é organizado pelo Grupo Ìkórítá, formado por professores, jornalistas, comunicadores, artistas plásticos, dentre outros; todos adeptos do Candomblé que se unem para o enfrentamento e combate à intolerância religiosa contra as religiões afro-brasileiras e de matriz africana e é o mobilizador da Marcha do Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa

 

Serviço:

Biblioteca Mário de Andrade

Endereço: Rua da Consolação, 94, Centro, São Paulo - SP

Data: 6 de maio, sexta-feira

Horário: 19:30h

Valor do livro: R$ 150,00 

Realização: Grupo Ìkórítá

Apoios: Prefeitura Municipal de São Paulo, Deputada Leci Brandão, Biblioteca Mário de Andrade, B.L Produções e Ìwé Ìmọ̀ - Candomblé sem Segredos.

 

 

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Um projeto social no Terreiro do Gantois

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 18/04/2016 às 19h20

 

 

Por Gill Sampaio Ominirò

 

Sábado ensolarado em Salvador, Bahia. Subo ao Alto do Gantois e, mesmo antes de chegar ao destino, ouço e reconheço o estalar dos àtòrì¹ nos couros dos atabaques.

 

Entro no Terreiro do Gantois, o venerável Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase, e em meio aos quartos dos òrìṣà e às folhas sagradas do quintal da casa me deparo com um círculo de sons liderado por um moço.

 

Pés descalços, olhar acanhado e sorriso fácil. É Iuri Passos. Arregimentador do projeto Rum Alabê, cuja intenção maior é a transmissão de conhecimentos, de informações culturais, não só para perpetuar a cultura negra, mas também para, nesta perspectiva, combater a intolerância religiosa muito alicerçada na ignorância coletiva.

 

 

 

Iuri é rapaz de fino trato e de fácil trato. Um digno ọmọrìṣà, filho de Ọ̀ṣọ́ọ̀sí e Òṣàgiyọ́n. Um orgulho da casa, da raça, da nação. Formado em música em nível superior, é um acadêmico educador. Eu já havia entrevistado Iuri há exatamente um ano atrás, em razão do seu trabalho de arranjador para o CD “Pèrègún e Outras Fabulações da Minha Terra”, de Félix Ayoh’OMIDIRE. Um extraordinário trabalho que rendeu uma matéria de imenso alcance na Ìwé Ìmọ̀ (link no rodapé desta matéria em “Relacionados”).

 

 

Pois bem. É fato que de forma pioneira, há cerca de 20 anos, Iuri, influenciado pelos conselhos de Gamo da Paz, outro filho ilustre do Gantois, desenvolveu uma didática específica para o ensino do toque de atabaques com ritmos do candomblé. “...fui aperfeiçoando essa técnica e nunca vi ninguém dar aula assim”, relata. Trata-se, então, de um ensino sistemático, cuja didática foi desenvolvida pelo próprio Iuri. Foi possível notar que, além de ensinar os toques, Iuri associa determinado toque ao òrìṣà corresponde e, mais além, à nação² deste toque. Esta didática, assim, não só facilita a memorização das frases musicais, como contribui para o não esvaziamento do significado de cada toque, fortalecendo a cultura e demostrando que os toques não são aleatórios.

 

Assistir ao ensaio dá a possibilidade do expectador perceber muito claramente que tocar atabaque não é mesmo que bater tambor. É imprescindível, então, o entendimento de cada toque associado ao òrìṣà correspondente e à nação de origem.

 

É nítido que Iuri aperfeiçoa o toque herdado na tradição, de forma não só a conservá-lo como aperfeiçoá-lo. Assistir à aula deixa muito claro também que o ritmo não pode ser engessado. É como no jazz, no qual há o improviso, mas não é aleatório, gratuito. A variação ocorre dentro de um sistema, uma métrica musical.

 

 

Daí, observando os alunos e vendo homens, mulheres, adolescentes, crianças, idosos, deficientes físicos, negros, brancos e estrangeiros; não resisto não parafrasear Gerônimo e digo que “o mestre que ensina o dom do atabaque não faz distinção de cor e toda a aula é do som.” E ele explica este meu gracejo dizendo:

 

...as mulheres aprendem mais rápido. É incrível como elas fazem frases que para um músico profissional, depende de ele ter um conhecimento muito avançado. Já os meninos, como este é o universo deles, em tese, eles acham que podem fazer as coisas a qualquer hora. Já as crianças eu prefiro deixar para elas o momento da escolha de tocar o atabaque e quando estiverem com vontade, pois elas não são obrigadas a nada, elas têm que se sentir bem em primeiro lugar e, em segundo lugar, têm que ser divertido. A terceira idade é fundamental porque nos traz a consciência de que estamos sempre aprendendo. É claro que tem um limite pra eles, embora essa dificuldade atue como motivação para todos nós.

 

Nesta perspectiva plural, pessoas de várias partes do Brasil e do mundo vêm ao encontro deste dom, vem querendo saber como também reproduzir este som. As redes sociais desempenham um papel fundamental na divulgação do projeto: “sempre tem alguém que viu nossa aula no Facebook e veio de longe só para participar, como agora mesmo tinha uma senhora que é da Suíça e viu nossa aula nas redes sociais e veio pra conhecer de perto.” Relata.

 

 

 

 

Rum Alabê internacional

 

Não há dificuldade em ensinar para pessoas que falem outra língua. Na verdade, eu preciso melhorar meu inglês, mas uma semana antes de você conhecer nossa aula tinha um japonês na turma e foi tudo muito tranquilo.”

 

Ou seja, a linguagem da música atravessa fronteiras culturais e a comunicação não deixa de ser feita, o aprendizado não é prejudicado. Isso porque a música representa atualmente umas das maiores expressões da sociedade moderna, na qual diferentes significantes e significados são demonstrados nos mais diversos setores do cotidiano. Desta forma, também se caracteriza a música por ser uma forma de linguagem.

 

Isto porque o indivíduo desta sociedade é cada vez mais sistematizado e categorizado conforme o ritmo ou estilo musical que aprecia, conforme o histórico-cultural que se estruturou a psique nos símbolos musicais da música que lhe acompanha.

 

Assim, a representação mental é mediada através do uso dos símbolos que têm origem no social através das interações com o meio, sendo, portanto, construídas de fora para dentro.

 

Segundo Dinah Martins de Souza Campos, através da música o homem não apenas codifica ou decodifica a mensagem, mas também busca por ela um próprio direcionamento para seu comportamento, refletindo acerca da realidade (Campos, 2001).

 

Para Noam Chomsky, não apenas o léxico e a gramática exercem influência sobre a língua, mas os signos linguísticos têm forte representação nas estruturas mentais e na visão de mundo do indivíduo (Chomsky, 1998). Ou seja, a música, que é uma representação de símbolos, significados e significantes, exerce forte influência na linguagem do indivíduo que, por sua vez, irá influenciar o seu meio, a sociedade em que vive.

 

 

Pluralidade do projeto

 

Por que ensinar o toque do atabaque dos ritmos do candomblé para qualquer pessoa, incluindo mulheres e estrangeiros? Sabe-se que este "tocar" na religião dos òrìṣà é de exclusividade masculina, por tradição. Não estaria Iuri ferindo uma tradição centenária? Crê-se que não, pois ele não tem a pretensão de formar ọ̀³. Forma pela cultura do atabaque que é muito mais ampla do que tocar: “...sou muito criticado por essa minha atitude de ensinar para quem chegar à minha aula. É como se eu fosse dono de tudo isso. Meu irmão, não somos dono de nada, nem de nossas vidas. Pelo contrário, temos responsabilidades com a perpetuação da nossa cultura. E sei que muitos que aparecem não têm compromisso com nossa religião e muitos nem conhecem, mas veja bem, eu acho que a pergunta é: por que não ensinar?”. Questiona.

 

A pergunta de Iuri é mais que pertinente. A dúvida se dá na possibilidade de uma apropriação cultural. Se observarmos com pragmatismo e dada as experiências históricas, há sim um risco desta apropriação ser levada a cabo. A História demonstra ocorrências graves de apropriação cultural, nas quais, não se absorveu a modalidade cultural original para somá-la à cultura de destino a fim de melhorá-la. Ao contrário, perverteu-se a cultura original dando origem a outra; identificada, então com a cultura de destino e perdendo o statu quo da cultura de origem. Exemplo claro disso é o que os americanos fizeram com o rock, música negra com origens no blues, pervertida e transformada em música de branco.

 

Por outro lado, é fato que a música é um bem universal e não uma propriedade exclusiva de uma cultura ou etnia, ainda que lhe seja referência. Podemos ainda inferir que a música é uma função referencial, pois há predomínio de fatores imbricados de emoções. Sendo que para qualquer comunicação ocorrer é necessário que haja uma primeira pessoa que emita sentires, lembranças, expressões e confissões a uma segunda pessoa a qual será a pessoa apontada como receptor.

 

Samira Chalhub destaca que as canções populares provocam emoção pelo fato de exprimir-se através da subjetividade do indivíduo, através do modo como se fala (Chalhub, 1995).

 

 

Um projeto social filantrópico

 

O Rum Alabê é um projeto social sem custos para os alunos, ou seja, não há nenhum tipo de cobrança pelas aulas. Segundo Iuri: “...Temos a ajuda da nossa Ìyálòrìṣà, Mãe Carmen que, junto com suas duas filhas, nos dão total apoio para o projeto continuar. E desde 2001 estou nessa luta, embora a parte mais difícil seja a de convencer as pessoas de que a educação é importante, então todo dia é uma nova batalha meu irmão.

 

Sabe-se, e não somente através de Iuri, que o Gantois dá total apoio ao projeto. Para saber mais, conversei, via whatsapp,  com a Ìyá Kékeré da casa, Ângela Ferreira que, ao ser questionada sobre o apoio do Terreiro ao projeto e sobre de que maneira poderia ele fomentar a difusão da cultura dos òrìṣà na comunidade em torno do Gantois, me disse: “O Ilé Àṣẹ Gantois sempre foi favorável a projetos que incentivem e promovam a manutenção da cultura. Sempre apoiou as diversas formas de atividades culturais que trouxeram e continuam trazendo um conhecimento cultural a mais para a nossa população específica como a de entorno. O desenvolvimento do projeto de percussão dirigido por Iuri Passos, filho da nossa casa,  difunde entre seus alunos a importância do SOM na religiosidade dos òrìṣà, conhecimento musical; impondo noções de disciplina, compromisso e responsabilidade às crianças, jovens e adultos da nossa casa como da circunvizinhança, além de reforçar nelas o respeito e devoção pela religião dos òrìṣà - o Candomblé.

 

 

Tocar atabaque não é bater tambor

 

É importante ressaltar que o cerne do projeto nasce de algumas características do seu próprio autor ante a música como, por exemplo, o respeito e o amor pelo instrumento musical, pela música afro-brasileira e pela reverência aos ancestrais. Nas palavras de Iuri:

 

“...às avezes me pego tocando no salão e (...) vejo ‘antigos’ dançando junto com os que estão presentes fisicamente. Nem sei como te explicar isso, mas são essas coisas que me deixam cheio de amor. Quando eu toco os atabaques sinto sempre a presença dos nossos Alabês que já se foram, é como se eles estivessem ali para observar como é que está a festa ou quem é que está tocando hoje o rum⁴ para aquele òrìṣà. Enfim, é uma corrente infinita de energia que está em constante rotação.

 

A paixão e dedicação de Iuri são nítidas. Vê-se o brilho nos seus olhos quando fala da música do candomblé. Sua simplicidade e humildade não têm limites quando diz, acanhadamente, após eu perguntar se um ọ̀gá deve se considerar um músico: “meu amigo, acho até engraçada essa pergunta por que, na verdade, eu nem me acho músico.” Para quem não sabe, Iuri tem formação superior em música, toca atabaque no Gantois a vida toda e é percussionista da banda que acompanhada Mariene de Castro há mais de 10 anos. Não se achar músico é de uma humildade rara no meio artístico.

 

Continuando a conversa, o músico volta a falar de seus ancestrais e das referências que alicerçaram seus conhecimentos:

 

Tocar atabaque no terreiro do Gantois, é sim uma grande pressão, pela perfeição. Imagine você que nesses atabaques tocam e já tocaram mestres como Vadinho Boca de Ferramenta, Dudu, Hélio, Ubaldo, Nadinho, Gamo e Gabí Guedes. Sim, com certeza sempre terá uma pressão e isso é bom por que sempre estamos buscando a perfeição e, o mais importante, a preservação da nossa forma de tocar os atabaques, que é uma técnica muito particular.

Eu sempre gostei muito de ver o senhor Erenilton tocar, o Gamo sempre nos levava, eu e Cacau, para as festas da Casa de Oxumarê, embora na verdade, quem eu queria ter visto tocando era o finado Vadinho.  Quando estou ouvindo os discos que ele gravou eu ainda me surpreendo com as coisas que ele fazia no atabaque ao mesmo tempo em que ele cantava. 

 

 

 O mestre

 

Meu amigo, meu mestre é Gamo, foi ele quem me ensinou tudo que sei. Claro que você vai aprendendo com todos os seus mais velhos, na verdade eu sou uma mistura de todos eles, só que nesse papel de grandes mestres eu tive muitas mestras. Na verdade, esse processo de tocar os atabaques devo muito às mulheres, por que sem elas era praticamente impossível você aprender uma dança que só o òrìṣà ia fazer à noite ou em determinada cerimônia. Quantas vezes tia cantava uma música e ali mesmo sentada ela dançava? Tia é Mãe Carmen, minha Ìyálòrìṣà, minha mãe, minha vó e minha comadre. Isso sem se esquecer das outras tias como tia Delza, tia Cidália, tia Danzinha, minha mãe carnal Marcia de Ṣàngó e outas que passaram na minha vida pra minha sorte.

 

 

 

 

 

 

Enfim, o projeto Rum Alabê é uma empreitada corajosa de Iuri Passos que, mesmo sem apoio institucional, tenta alterar a realidade da desinformação sobre a religião do candomblé através da música. Tenta também minimizar os males causados pela nítida e histórica exclusão social e racial, das quais os negros de Salvador são vítimas. É um projeto que tem total apoio da Ìwé Ìmọ̀ justamente por ir ao encontro do objetivo primeiro desta página, deste projeto, que é a libertação através do conhecimento.

Ao projeto e a Iuri, nossos mais sinceros respeitos e agradecimentos.

A dúpẹ́ púpọ̀!

Mo júbà o!

 

Crédito das Fotos: Marcelo Reis - Instituto Casa da Fotografia

 

 

 Notas:

1. Vareta de madeira usada para percutir nos tambores (atabaques) e no agogô. Também conhecido como agdavi.

2. Entende-se por “nação” as ramificações específicas do candomblé, por si só jeje-nago, que concentram um conjunto de significados, linguagens e tradições de acordo com determinada etnia formadora do candomblé. As “nações” mais conhecidas do candomblé são Ketu (yorubá), Jeje (Ewe-fon, Mahin e Savalú) e Angola (banto).

3. Pronuncia-se /ogan/. É um sacerdote masculino que não incorpora. O qual, dentre muitas atribuições, faz parte da orquestra sacra de tocadores.

4. Atabaque maior que marca o toque, do ewe-fon: hun = tambor.

 

Bibliografia:

 

CAMPOS, Dinah Martins de Souza. Psicologia e Desenvolvimento Humano. 2. Ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 2001.

CHALHUB, Samira. Funções da Linguagem. 7. Ed. São Paulo: Ed. Ática, 1995.

CHOMSKY, Noam. Linguagem e mente. Ed. UnB, 1998.

BENISTE, José. Dicionário Yorubá-Português, 2ª ed., Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2014.

Categoria: Antropologia, Ìyáloriṣà, Candomblés Antigos, Cultura, História, Música, Tradição Escrita, Transmissão de Conhecimento
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Se não for justo, Ṣàngó não há de permitir!

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 09/04/2016 às 22h41

Impeachment de natureza política é ilegal.

 

 

É fato inquestionável que o Congresso Nacional hoje está constituído por políticos que, em sua maioria,  respondem por algum crime de corrupção e/ou improbidade administrativa, o que, além de não os legitimar para um processo de impeachment, revela que a corrupção não é o centro da crise política, mas sim o desejo voraz de grupos poderosos, ligados à especulação financeira, aos bancos e aos empresários os quais, com quase total apoio da grande mídia, pretendem voltar a controlar de vez o país, afastando as decisões da soberania do povo brasileiro. 

 

Como demonstra o passado da realidade política e econômica do país, esses representantes de poderosos grupos de interesse, quando alçados aos postos de comando praticam a política de concentração de renda, retirando conquistas sociais e implementando medidas como a terceirização sem limites, a ameaça ao FGTS, a substituição das garantias da CLT, dentre outras, por resultados negociados entre grupos que não têm nenhuma correlação de forças (trabalhadores e patrões). Além disso, tentam a piora da situação dos aposentados ao querer desvincular do PIB a correção do salário mínimo para os pensionistas, dispõem-se a acabar com todos os programas sociais e propõem outra reforma da previdência que não seja a que beneficie o trabalhador. TODOS ESTES PROJETOS PREJUDICIAIS À CLASSE TRABALHADORA JÁ ESTÃO EM ANDAMENTO na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado Federal.

 

Por isso, o Grupo Ìkórítá, não apoiando nenhum partido, defende a DEMOCRACIA, o Estado de Direito, as conquistas sociais e os direitos trabalhistas garantidos até aqui com muita luta. Não podemos nos calar e nos esquecer de que Ṣàngó, um dos òrìṣà mais importantes do panteão yorubá é a divindade da justiça.

 

Assim, ao passar por cima da Constituição e promover o impedimento sem crime ao mandato da presidente Dilma Rousseff, esses políticos consolidarão o pior cenário principalmente para nós, trabalhadores, principalmente os do povo do àṣẹ, que não raro são sempre os mais prejudicados pelas ações conservadoras. 

 

É importante ter claro que o processo em andamento na Câmara dos Deputados pode ser comparado a um eventual atraso no pagamento de uma fatura do cartão de crédito, isto é, para executar os programas sociais, o governo usou recursos de bancos públicos (Caixa Econômica, Banco do Brasil e BNDES) e depois repôs esses valores, com atraso. É isso que está no processo e não representa crime, além de ser uma prática comum. Dos 27 governadores do país, por exemplo, 16 também responderiam pelas chamadas "pedaladas fiscais" por terem recorrido à mesma solução.

 

Portanto, é preciso que estejamos atentos aos projetos políticos que enxergam e observam os povos de terreiro, os povos de religiões afro-brasileiras e de matriz africana. É preciso observarmos os projetos que legitimam estas religiões e as protegem através de leis de combate à intolerância. É preciso estarmos atentos e também nos mobilizarmos contra o golpe que está em curso não só a uma pessoa ou a um partido, mas à democracia e ao povo brasileiro.

 

Que Ṣàngó Aláàfin conduza este processo com seu olhar de fogo da justiça e da isonomia. Que os culpados paguem por seus erros e que os inocentes não sejam usados como escudo para os malditos. Àṣẹ!

 

Grupo Ìkórítá

Categoria: História
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Curso de Direitos e Deveres dos adeptos do Candomblé

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 16/01/2016 às 22h00

 

Em tempos de intolerância religiosa é preciso encontrar saídas jurídicas para o combate a este mal.

  

Assim, o Instituto Itesa de Tecnologia, Especialização e Aprimoramento, no seu seguimento de Diversidade e Inclusão, promove o curso sobre Direitos e Deveres dos adeptos do Candomblé, da Umbanda e demais religiões afro-brasileiras com o prof. Dr. Hédio Silva Jr. Trata-se do curso Organização de Espaços Religiosos: aspectos jurídicos do sacerdócio.

 

Para quem não o conhece, o Professor Dr. Hédio Silva Jr. é advogado, doutorado pela PUC-SP. Foi Conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção São Paulo, na qual foi também Presidente das Comissões de Direitos Humanos e Liberdade Religiosa.

 

Não bastasse tudo isso, Dr. Hédio foi o primeiro negro a assumir a Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo, entre 2005 e 2006. Ainda foi indicado pelo Movimento Negro e pela organização “Conectas Direitos Humanos” como um dos advogados destacados para defender, na tribuna do Supremo Tribunal Federal, as ações afirmativas para negros no acesso à educação superior.

 

A Ìwé Ìmọ̀ conversou com o jurista para saber um pouco mais sobre sua vida e sua luta em prol das religiões afro. Vejam>>

 

Dr. Hédio, quais os motivos pelos quais o senhor resolveu defender as religiões afro-brasileiras. Por que resolveu dedicar sua vida em razão de um bem coletivo?

 

Tenho compromisso existencial e político com a luta contra o racismo. A intolerância contra as Religiões Afro-brasileiras é uma das formas mais abjetas de racismo religioso. Sinto-me lisonjeado com a pergunta, mas não diria exatamente que dediquei minha vida à luta coletiva. Fiz e faço muitas outras coisas, família, meu filho Kayodê, livros, advocacia privada, carreira acadêmica, militância na OAB, mas sempre destinei um tempo para a luta contra o racismo e a intolerância religiosa.

 

E como se deu o seu envolvimento com as religiões afro-brasileiras e a continuidade neste culto?

 

A primeira vez que entrei num Terreiro (de Umbanda) foi aos seis anos de idade, levado por minha mãe, D. Teresinha que, como muitos brasileiros, não deixava de ir à missa nem de recorrer à macumba nos momentos de adversidade. Minha infância, especialmente os períodos que passava em Três Corações, Sul de Minas, onde nasci, é repleta de memórias de benzedeiras, benzimentos, “simpatias”, uso fitoterápico de plantas, folia de reis, etc. Não por acaso dedico minha advocacia pro bono para defender judicialmente os direitos e interesses das Religiões Afro-brasileiras.

 

Qual a importância para um sacerdote em fazer o curso Organização de Espaços Religiosos: aspectos jurídicos do sacerdócio?

 

Informação é poder. Esta frase pode parecer clichê, mas no caso das Religiões Afro-brasileiras ela é absolutamente verdadeira: a imensa maioria dos Sacerdotes e Sacerdotisas desconhece quais são seus direitos, deveres, tampouco os direitos da organização religiosa e do templo religioso. O acesso à informação é importante não apenas para o empoderamento das lideranças religiosas como também um valioso instrumento de proteção da Casa e dos seus dirigentes. Ademais, a intolerância religiosa cresce a cada dia e para enfrentá-la não há outro meio senão prepararmos as lideranças para fazerem valer seus direitos.

 

O curso é direcionado apenas para quem tem nível superior e às  lideranças religiosas ou qualquer adepto das religiões afro-brasileiras?

 

O curso destina-se tanto às pessoas com graduação como também àquelas sem formação superior. Lideranças e interessados em geral. A ênfase do curso é nas Religiões Afro-brasileiras, mas qualquer pessoa pode frequentar.

 

 

Conheça o curso:

 

O curso tem início dia 27 de janeiro de 2016, com turmas à tarde e à noite, na sede do Itesa: Via Anchieta, 1422 – Ipiranga (próximo ao Metrô Sacomã).

Tel.: 11 2577 0565.

E-mail: itesa.diversidade.inclusao@gmail.com

Fanpage: www.facebook.com/itesadiversidade

 

O curso tem carga horária de 30 horas e o seu valor original é de R$ 600 à vista. Porém, em convênio com a Ìwé Ìmọ̀ – Candomblé Sem Segredos, quem informar na sua inscrição o código ELS270784 terá um desconto de R$ 150,00, pagando apenas R$ 450,00 à vista.

 

 

O Currículo:

 

 

1. Direitos dos Sacerdotes e Sacerdotisas:

 

1. Inscrição na Previdência Social (para fins de aposentadoria, benefícios, etc.);

2. Celebrar casamento e emitir o certificado para reconhecimento civil;

3. Livre acesso a hospitais, presídios e quaisquer outros locais de internação coletiva, visando dar assistência religiosa;

4. Isenção do serviço militar;

5. Isenção do serviço no Júri;

6. Prisão especial;

7. Sepultamento no próprio Templo, obedecidas as normas legais;

 

2. Organização religiosa:

 

1. Estatuto;

2. Atas;

3. CNPJ;

4. Contabilidade/fisco; certificados de utilidade pública, etc.

 

3. Templo religioso: alvará de funcionamento:

 

1. Isenção de IPTU, taxa de lixo, etc.;

2. Liberdade de culto e dos locais de culto: direitos e deveres;

3. Direito de vizinhança/poluição sonora;

4. Legalidade do abate religioso de animais;

5. Legislação ambiental;

6. Intolerância religiosa e problemas de invasão arbitrária.

 

Clique no link abaixo e faça já sua inscrição. Não perca essa oportunidade rara de saber como se defender da intolerância religiosa.

 

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Categoria: Cultura, História, Livros, Sacrifício de animais, Transmissão de Conhecimento
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Os Pássaros Sagrados

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 12/12/2015 às 09h00

 

 

 

Três são os pássaros africanos que emprestam suas penas para conceder aos neófitos do candomblé a proteção contra as influências das energias das àjẹ́, as Ìyàmi Òṣọ̀rọ̀ngà. São eles o Agbè, o Alukò e o Lékeléke.

 

A mitologia yorubá diz que os pássaros das àjẹ́, que na verdade são elas mesmas transmutadas, estão sempre em busca de neófitos descobertos a fim de pousar em suas cabeças e lhes castigar pela falta de respeito.

 

Brevemente, podemos dizer que as Ìyàmi Òṣọ̀rọ̀ngà representam o poder ancestral feminino e os elementos místicos da mulher em seu duplo aspecto: protetor e generoso, perigoso e destrutivo. As àjẹ́, também conhecidas como ẹlẹyẹ (senhora dos pássaros), são zeladoras da existência e guardiãs do destino, por isso sua boa vontade, essencial à continuidade da vida e da sociedade, deve ser cultivada. 

 

Por outro lado, este três pássaros, cada um deles vinculado a uma divindade de alto poder, têm a capacidade de proteger os iniciantes ao culto dos Òrìṣà de sua influência em seus aspectos destrutivos, absorvendo os positivos.

 

Daí a importância da pintura ritual dos ìyawó com as cores que representam as penas da cauda destes pássaros. O detalhe de ser da cauda não é aleatório, pois é a calda das aves que lhes servem como leme durante o voo.

 

Estas três cores possuem tamanho significado e tamanha importância que se tornaram efetivamente as cores do Candomblé de “nação Ketu”.

 

Vejamos um pouco sobre eles:

 

O agbè, (Tauraco porphyreolophus), conhecido como Turaco-de-crista-violeta é multicolorido, mas é ele quem nos concede a pena azul-violácea de sua cauda. É tido nos mitos como o pássaro que carregava a boa sorte e a riqueza para Olokun, divindade máxima dos oceanos. esposa de Odùdúwà para os Yorubá de Ifẹ́.

 

 

 

 

 

Já o alukò, (Tauraco ruspolii), possui penas de cor púrpura entre escarlate e violeta, porém nos fornece a bela pena vermelha (não confundir com a pena vermelha do odid, chamada ìkódidẹ, da qual falamos em outra matéria). Segundo os mitos, o alukò é o pássaro que carregava a riqueza para Ọ̀lọ́ṣa, divindade masculina das águas doces.

É de extrema importância destacar que a pena do alukò somente tem seu poder ativado estando junto à pena do agbè. Os pássaros agbè e alukò são agentes intermediários do poder da imensidão das águas:

 

Agbè ni i gbe're k' Olokun
Alukò ni i gbe're k' Ọ̀lọ́ṣa

O agbè carrega a benção de Olokun
O alukò carrega a benção de Ọ̀lọ́ṣa

 

 



 

 

Por fim, o lékeléke, (Bubulcus ibis), é o pássaro que possui apenas penas brancas e é conhecido popularmente por garça-vaqueira ou garça-boieira. Nos mitos é o pássaro que carregava a sorte para Òrìṣà Nla. Símbolo de nobreza de todos os Òrìṣà Funfun.

 

 

 

 

 

 

Observem as cantigas abaixo:

 

Agbè lo laró
Kí raun aró
Alukò lo lósùn
Kí raun osùn
Lékeléke lo lẹ́fun
Kí raun ẹ́fun
Emi ni yio léke ọ̀ta mi o

 

Agbè tem penas azuis

Que nunca lhe falte o azul

Alukò tem penas vermelhas

Que nunca lhe falte o vermelho

Lékeléke tem penas brancas

Que nunca lhe falte o branco

Que eu fique acima de meus inimigos

 

Ojúure l'agbè fi í w'aró
Agbè won jí t'aró t'aró
Ojúure l'alukò fi í w'osùn
Alukò won jí t'osùn t'osùn
Ojúure l'lékeléke fi í w'ẹ́fun
Lékeléke won jí re pel'ẹ́fun.

 

 

O agbè desperta com aró

O agbè olha com bondade para aró

O alukò desperta com osùn

O alukò olha com bondade para osùn

O lékeléke desperta com ẹ́fun

O lékeléke olha com bondade para ẹ́fun

 

 

 

 

 

 

 

Ifá relata a ligação das aves agbè, alukò e lékeléke com as pinturas sagradas aró (wàji), osùn e ẹ́fun. As aves sagradas carregam, portanto, em si, a força e a essência de três Odù primordiais da existência universal:

 

Éjì Ogbè relacionado ao ẹ́fun

Ọ̀yẹ̀kú Méjì e sua relação com o osùn e

Ìwòri Méjì relacionado ao aró (wàji)

 

Odábò! Até logo!

 

 

 

 

 

 

 

Categoria: Antropologia, Àṣẹ, Cultura, Mitologia, Tradição Escrita, Tradução, Transmissão de Conhecimento
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Mês da Consciência Negra

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 01/11/2015 às 14h05

 

Consciência Negra!

 

O dia 20 de novembro no Brasil representa um importante momento da história  para grande parte da população, que é representada por negros e pardos.

 

A data lembra a morte do líder Zumbi dos Palmares, que lutou pela libertação dos negros escravizados durante o período colonial no País.

 

O Brasil tem aproximadamente 1.209 comunidades quilombolas em 143 áreas já tituladas, segundo levantamento da Fundação Cultural Palmares, órgão do Ministério da Cultura. Elas estão em todos os estados, exceto no Acre, Roraima e Distrito Federal. As maiores populações de quilombolas estão na Bahia, Maranhão, Minas Gerais e Pará.

 

A adesão ao feriado ou instituição de ponto facultativo é decisão legal de cada estado ou município. Mais de 700 cidades já adotaram o feriado, quando é comemorado o Dia da Consciência Negra.

 

A data é considerada como uma ação afirmativa de promoção da igualdade racial e uma referência para a população afrodescendente dedicada à reflexão sobre as consequências do racismo e sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. 

Caso seja sancionado pela Presidência da República o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, será o primeiro feriado do País originário da mobilização do movimento negro e o nono feriado nacional.

 

“A luta pela liberdade dos negros brasileiros jamais cessou. Em 1971, um significativo capítulo de nossa história vinha à tona pela ação de homens e mulheres do Grupo Palmares. Lá do Rio Grande do Sul era revelada a data do assassinato de Zumbi, um dos ícones da República de Palmares. Passados sete anos, ativistas negros reunidos em congresso do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial cunharam o 20 de novembro como Dia da Consciência Negra.

Em 1978, era dado o passo que tornaria Zumbi dos Palmares um herói nacional, vinculado diretamente à resistência do povo negro.

Herdamos os propósitos de Luiza Mahin, Ganga Zumba e legiões de homens e mulheres negros que se rebelaram a um sistema de opressão. Lançaram mão de suas vidas a não se conformarem com a prisão física e de pensamento. Contrapuseram-se ante as tentativas de aniquilamento de seus valores africanos e contribuíram com seus saberes para a fundação e o progresso do Brasil.

Orgulhosamente, exaltamos nossa origem africana e referendamos a unidade de luta pela liberdade de informação, manifestação religiosa e cultural. Buscamos maior participação e cidadania para os afro-brasileiros e nos associamos a outros grupos para dizer não ao racismo, à discriminação e ao preconceito racial.

Que este 20 de Novembro, assim como todos os outros, seja de muita festividade, alegria e renove nossas energias para continuarmos nossa trajetória para conquista de direitos e igualdade de oportunidades. Estejamos todos, homens e mulheres negras, irmanados nesta caminhada pela liberdade e pela consciência da riqueza da diversidade racial!”

Matilde Ribeiro - Ex-ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR.

 

 

História do Dia da Consciência Negra.

 

1600: Negros fugidos ao trabalho escravo nos engenhos de açúcar de Pernambuco, fundam na serra da Barriga o quilombo de Palmares; a população não pára de aumentar, chegarão a ser 30 mil; para os escravos, Palmares é a Terra da Promissão.

1630: Os holandeses invadem o Nordeste brasileiro.

1644: Tal como antes falharam os portugueses, os holandeses falham a tentativa de aniquilar o quilombo de Palmares.

1654: Os portugueses expulsam os holandeses do Nordeste brasileiro.

1655: Nasce Zumbi, num dos mocambos de Palmares.

1662: Criança ainda, Zumbi é aprisionado por soldados e dado ao padre António Melo; será batizado com o nome de Francisco, irá ajudar à missa e estudar português e latim.

1670: Zumbi foge, regressa a Palmares.

1675: Na luta contra os soldados portugueses comandados pelo Sargento-mor Manuel Lopes, Zumbi revela-se grande guerreiro e organizador militar.

1678: A Pedro de Almeida, Governador da capitania de Pernambuco, mais interessa a submissão do que a destruição de Palmares; ao chefe Ganga Zumba propõe a paz e a alforria para todos os quilombolas; Ganga Zumba aceita; Zumbi é contra, não admite que uns negros sejam libertos e outros continuem escravos.

1680: Zumbi impera em Palmares e comanda a resistência contra as tropas portuguesas.

1694: Apoiados pela artilharia, Domingos Jorge Velho e Vieira de Mello comandam o ataque final contra a Cerca do Macaco, principal mocambo de Palmares; embora ferido, Zumbi consegue fugir.

1695, 20 de Novembro: Denunciado por um antigo companheiro, Zumbi é localizado, preso e degolado.

 

 

A libertação dos escravos se deu por lei, sem qualquer forma de legitimação e reconhecimento da dignidade humana do negro pelo branco, principalmente, nenhum projeto de estruturação física e psíquica para esses novos livres. Sequer a igreja, representante da solidariedade na nossa sociedade, utilizou seu poder para conscientizar as pessoas da injustiça em atenção.

Apesar de toda a perspectiva histórica ora apresentada, ainda é comum a argumentação que inexiste na nossa sociedade preconceito com os negros. A essas pessoas questiono se é comum negros ocupando grandes cargos, se estão em qualquer ranking dos mais ricos do país, se os encontram indo a eventos culturais de alto custo (será que não notaram que nos estádio da copa do mundo não havia afro-brasileiros?), em contrapartida, nos presídios a aparência é outra!

Infelizmente, o racismo é uma realidade no país e são esses fatos que demonstram os efeitos dessa prática cultural. O argumento esposado por essa camada é lamentável e opressor, já que é utilizado para não provisionar políticas públicas de combate ao racismo.

Neste contexto é que começamos a entender a importância da consciência negra. Reconhecendo a realidade posta acima, de que forma podemos reparar tamanha desigualdade? O Estado, através de sua Carta máxima, declarou em seu art. 5 que todos são iguais perante a lei. Ainda determinou como objetivo da sociedade, promover o bem de todos independentemente da cor.

 

 

Na prática, apenas após implementar a social democracia, é que se viu a aplicação de políticas para o início da reparação dessa desigualdade. Podemos citar a implementação de cotas para faculdades públicas, a criminalização do racismo e, a mais importante delas, a obrigatoriedade no currículo escolar da disciplina “História da África e da Cultura Afro-brasileira” como medidas de estímulo à luta contra o racismo.

Afinal, pouco adianta políticas de Estado ou de governo que visam à minimização das diferenças entre cor, se os brasileiros (de todas as cores) não conseguem entender a razão de tanta luta. A verdade é que pouco se fala acerca das consequências da escravidão. Nas escolas ainda não se ensina que mesmo atualmente o povo negro segue marginalizado em face da péssima condução de todos os pilares da sociedade em relação ao fim da escravatura. Apesar de nítido, não se admite que o poder ainda tenha cor. Mesmo com todos os indicativos, não se explora que a discriminação possui ranço em praticamente todas as esferas do cotidiano, seja com ditados raciais (quem nunca ouviu que “amanhã é dia de branco”?) ou com notório padrão de beleza europeu.

À luz do raciocínio exposto, consciência negra consiste no estudo da História desse povo, História com letra maiúscula, a ciência, na valorização da beleza de sua cultura e se necessário for, ficar com braço esticado e mão cerrada, para gritar pela minimização dessa desigualdade histórica. Por fim, trago como reflexão o ensinamento do líder negro Malcolm X: “As únicas pessoas que realmente mudaram a História foram os que mudaram o pensamento dos homens a respeito de si mesmos”.

 

 

Texto de Gill Sampaio Ominirò com aporte das fontes abaixo:

 

http://www.planalto.gov.br/seppir/20_novembro/apres.htm

http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2012/11/dia-nacional-de-zumbi-e-da-consciencia-negra-e-comemorado-em-20-de-novembro

 

 

Categoria: Antropologia, História, Transmissão de Conhecimento
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Ìwé Ìmọ̀ Recomenda: Mother of George

Publicado por Gill Sampaio Ominirrò em 27/09/2015 às 20h48

Mother of George (2013)

por Thiago Campelo

 

 

Dividir e classificar o cinema, assim como em qualquer outra área, é de certa maneira, natural. Entretanto, nessa tentativa de linearização da história cinematográfica, existem ramificações que impossibilitam essa disposição metódica. Dentre os mais variados pontos que permitem esses ramos crescerem, como diferenças estéticas, temática, ideológicas, etc., os processos de produção podem assumir papel de destaque.

É certo que, tratando-se de cinema norte-americano, a questão dos meios de produção se torna um dos temas mais importantes e, em certa medida, é o principal impulsionador de mudanças estéticas. Tratando-se dos indie movies, há quem os veja como um advento da cinematografia dos 80 e 90, uma resposta ao blockbuster, com algumas reaparições em títulos que surgiram nas décadas subsequentes.

Todavia, desde a grande depressão e o advento do som no cinema, surgiram filmes que, em certa medida, fugiam às regras do cinema standard, por mais que, em sua maioria, fossem produzidos pelos grandes estúdios.

 

 

O desgaste da fórmula, 40 anos após o advento do filme B, nos leva ao período da Nova Hollywood. John Cassavetes, que fez parte desse período já produzia desde o final dos anos 50, livre dos estúdios, filmes completamente independentes, assim como Andy Warhol e Robert Altman.

Sendo assim, esse cinema estadunidense de destaque, em grande parte, pode ser tomado como extensão do filme B dos anos 30, reflexo do movimento de contracultura do final dos anos 50 e como desdobramento da Nova Hollywood do final dos anos 60, etc. Ou seja, toda uma tradição de ruptura com paradigmas ideológicos e estruturais disseminados pelos grandes estúdios.

No entanto, por mais que seja tentador reduzir e classificar o filme independente só pela sua liberação da lógica de grande mercado há de se pensar que é também a possibilidade de liberação estética e política para seus realizadores. Geralmente, os indie movies são bem destoantes das grandes produções de estúdio tanto nas temáticas quanto na forma como são abordadas.

 

 

 

 

Dentro dessa perspectiva, tentando não encaixotar o cinema independente estadunidense é que se assiste hoje, Mother of George (2013), de Andrew Dosunmu, diretor, fotógrafo e produtor nigeriano, também diretor de Restless City (2011), erradicado em Nova York.

 

 

 

 

Nos créditos iniciais, não aparecem leões, montanhas ou globos. Mother of George, produzido pela Parts &Labor e Loveless é um drama familiar. Após o casamento de Ayodele (Isaach De Bankolé) e Adenike (Danai Gurira), a recém-constituída família nigeriana em Nova York, não consegue dar a luz a uma criança, um filho que terá que se chamar George, extremamente esperada pela matriarca da família, a mãe de Ayodele, Ma Ayo Balogum (Bukky Ajayi). Assim, o filme é construído através da pressão exercida pela tradição sobre uma família inserida em um contexto cultural distinto.

Contrariando o que se pode esperar, na maioria das vezes, de um roteiro regido por essa premissa, o filme não assume um discurso maniqueísta onde o ocidente, resumido à cidade de Nova York, é o inquestionável progresso e a cultura nigeriana, transfigurada na família Balogum, tivesse que se sujeitar aos seus meios. Ayo não segue o estereótipo consolidado pelo cinema de negro bestializado, que simplesmente vê em sua esposa um objeto de exploração e prazer. Adenike também não é a negra extremamente sensualizada sujeita aos mandos e desmandos dos homens em geral. Ambos se amam e sofrem por não serem capazes de gerar um filho.

 

 

 

 

Mother of George não se dá, enquanto filme, como mero concessor de espaço para abordar questões de grupos minoritários. Ele ressignifica a construção desse espaço como área de empoderamento de um grupo. Não é questão de sensibilizar-se com um drama cinematográfico adaptável ao universo escolhido, mas fazer ver e ouvir uma pluralidade identitária.

O filme começa com a cena do casamento de Ayo e Nike. É impossível dizer, que se está nos EUA até que Sade Bakare (Yaya DaCosta), amiga de Adenike e dama de seu casamento, nos alerta que ela não é mais de Lagos, e que agora vive no Brooklyn. Sade representa, ao longo da trama, o oposto de Ma Ayo Balogum. Pode ser encarada como a figura de maior integração na lógica da cidade. Desapegada, em certa medida, das tradições de seu país, é unicamente através dela que se vê o cosmopolitismo da cidade. Sade aconselha Adenike a procurar um médico, ou em pensar em adotar uma criança, desvencilhando-se dos laços de sangue tão caros à tradição familiar. Ela também se relaciona amorosamente com Biyi (Anthony Okungbowa), irmão de Ayodele, de maneira casual, por mais que ao longo do filme se construa um drama menor, paralelo ao central, da vergonha de Biyi em assumir o relacionamento.

 

 

 

 

Por sua vez, Ma Ayo Balogum, matriarca da família, mulher já idosa, é a guardiã das tradições. É ela que exerce pressão sobre Adenike para que lhe dê um filho homem que, ao seu modo de ver, representará a sua continuidade. Por mais que a representação desse recorte seja feita através de uma mulher, o seu processo de identificação é com o universo masculino.

Tanto Adenike quanto Ayodele e Biyi vivem o conflito entre a tradição que se apresenta na figura da mãe/sogra e o cosmopolitismo da amiga/amante. É um atrito trabalhado em bom tom, sem dualizar completamente as partes. Por mais que se perceba melhor a ambiguidade nesses três personagens, tanto Sade quanto Ma também são personagens maleáveis. Sade é exposta ao desprezo da tradição familiar através de Biyi e Ma luta contra a desestruturação da família

 

 

 

Ao longo do filme são raros planos abertos com considerável profundidade de campo. Não se vê a cidade de forma alguma e sempre temos Ayo ou Nike, sob um foco oscilante, tomando ao menos metade do quadro. É dessa maneira que Dosunmu constrói primorosamente o que há de mais importante em sua narrativa. As emoções e sentimentos de suas personagens oscilam enquanto caminham ou em tempos mortos. Por mais que a película tenha uma organização aparentemente linear, a densidade do filme se dá enquanto balada, crescendo verticalmente na profundidade de seus personagens diante do drama que lhes perturba.

Por muitas vezes Adenike observa a rua. O quadro mostra somente seus olhos e uma mancha cinza azulada a sua frente. Em contraste, a cor de suas roupas, o concreto e o metal das ruas. A fotografia é primorosa e explora certa sensualidade que não é reflexo da história ou dos corpos dos atores, mas que contrasta as cores fortes e quentes das roupas e dos ambientes internos com uma luz extremamente fria – a exceção da cena inicial, a do casamento – que remete à situação de desespero das personagens.

 

 

 

 

É também interessante, como são constituídas a paleta de cores em clara referência à cultura Yoruba. Em algumas cenas muito características, as cores não estão lá por pura adequação visual. Talvez por fazer parte da tradição ou por escolha de uma representação de determinados Orixás para cada momento. As cores do casamento, por exemplo, permanecem, em grande parte sobre tons de amarelo e laranja, cores que remetem à figura de Oxum, a jovem mãe, associada à fertilidade.

Enquanto filme independente, por condições mercadológicas ou autorais, a película põe à prova uma série de perfis e representações estereotipadas que tiveram seu auge ainda nos primórdios do cinema e que perduram, às vezes mais diluídas, até hoje. Pr’além de relativizar esse espaço de construção discursiva, o trabalho de Dosunmu é de um apuramento estético e desdobramento referencial considerável. Nas várias camadas em que se pode analisar a obra, não há nada que permaneça solto, sem significar dentro do filme.

 

 

 

 

Dessa forma, Mother of George se insere como um dos principais filmes independentes do ano de 2013, recebendo a premiação de melhor fotografia (Bradford Young) e sendo indicado ao prêmio do grande júri do característico festival de Sundance.

 

 

 

 

Fonte>>

http://naosaoasimagens.com/2014/11/02/mother-of-george-2013/

Categoria: Antropologia, Cinema e arte, Cultura, Mitologia, Recomendamos, Tradição Escrita, Tradução
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