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Rei Tradicional Bantu visitará o Brasil em abril

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 27/02/2015 às 21h27

 

Brasil terá 1ª visita de Ekwikwi V

 

Visita de Armindo Francisco Kalupeteca “Ekwikwi V” é a 1ª visita oficial de um soberano bantu ao país desde a escravidão

 

O Brasil – país das Américas que recebeu o maior contingente de cidadãos proveniente de povos Bantu durante os séculos do tráfico negreiro – ainda não recebeu a visita de nenhum rei tradicional representante dos grupos em questão, sendo que o país já teve a honra de acolher soberanos tradicionais dos povos Iorubá (Alaafin Oyó ou rei de Oyó, Obá Ladeyemi III, e Ifon, em 2014) e Jêje.

 

Nas regiões que ocuparam, os bantu introduziram a metalurgia, a agricultura e a forma de governo centralizada.

 

Formaram sociedades matrilineares nas quais as terras cultivadas eram consideradas dos antepassados, as florestas eram comunitárias e o trabalho era individual. Esses grupos foram maioria na Bahia, Alagoas, Pernambuco, Maranhão, Minas Gerais e Rio de Janeiro. E em muitos momentos reproduziram aqui sua organização (especialmente nos quilombos), sua arte e visão de mundo.

 

A capoeira, a congada, as danças e cerimônias cateretê, caxambu, batuque, samba, jongo, lundu e maracatu são heranças banto, assim como o candomblé aqui denominado de congo-angola, onde a capoeira angola encontra ligações.

 

Entre descendentes de povos Bantu que marcam, a partir do Brasil, as lutas dos povos negros no mundo, estão Zumbi dos Palmares e Ganga Zumba, mas cujas origens são, em grande parte, desconhecidas pela maioria do povo brasileiro.

 

Agora, se depender do ILABANTU (Instituto Latino Americano de Tradição Afro Bantu), das organizações parceiras dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana e do movimento negro brasileiro, Afrocom (Brasília), Cenarab (Minas Gerais), Acbantu (Bahia), e órgãos de governo como Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial da Prefeitura de São Paulo, Prefeitura Municipal de Teresina (Piauí), Prefeitura Municipal de Ilhéus (Bahia), o país terá uma dívida a menos entre as inúmeras contraídas com relação à África e aos povos da diáspora. Há alguns meses o ILABANTU está encampando esforços para consumar a visita de Rei do Bailundo, Armindo Francisco Kalupeteca “Ekwikwi V”, ao Brasil.

 

Finalmente, no dia 4 de abril, o soberano e sua comitiva aportarão no aeroporto de Guarulhos para, de lá, cumprirem um roteiro de viagens a, pelo menos, outras quatro capitais, além de cidades do interior brasileiro e países da América Latina.

As ações já realizadas até agora incluem articulações com instituições governamentais e da sociedade civil que estão se empenhando regional e nacionalmente no apoio à visita do Rei Bantu. Incluiu também viagem do coordenador nacional do ILABANTU, Taata Katuvanjesi – Walmir Damasceno, à Brasília em janeiro, onde foi recebido por representantes do Itamaraty, do gabinete da Presidenta Dilma Rousseff e da SEPPIR (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), obtendo compromisso do governo federal em diferentes esferas quanto ao apoio à visita do Rei do Bailundo ao Brasil.

 

No dia 16 de fevereiro, o coordenador nacional do ILABANTU embarca para Angola num esforço conjunto da Embaixada de Angola no Brasil e do Consulado Geral de Angola em São Paulo, aonde vai se reunir com o Rei, sua comitiva e as autoridades governamentais locais para ara alinhar detalhes e preparar a visita que o Rei “Ekwikwi V” ao Brasil.

 

Em um momento marcado pela celebração da Década dos Afrodescendentes estabelecida pela ONU – criada por resolução de sua Assembleia Geral no dia 23 de dezembro último e que será celebrado de 2015 – quando foi lançada – a 2024 e pela implementação de políticas públicas voltadas à reparação quanto aos povos negro-africanos no país por parte do governo brasileiro, a visita do Rei do Bailundo Armindo Francisco Kalupeteka “Ekwuikwui V” e sua comitiva ao país visa colaborar com a difusão das tradições bantu deste lado do oceano promover nacional e internacionalmente sítios históricos de marcado protagonismo de populações Bantu no Brasil.

 

A vinda do Rei Tradicional Bantu expressa ainda um sentimento de revitalização histórica da herança africana e contribui com a revalorização dos aportes culturais dos africanos e seus descendentes fortalecendo a Ancestralidade Africana no país. O Rei atual, que nasceu em 24 de Março de 1974, na aldeia de Calondueio (comunidade de Luvemba, em Bailundo, região do planalto central da República de Angola), é neto do antecessor Augusto Katchitiopololo.

 

Alguns dos sítios de histórica presença bantu que serão visitados pelo Rei Ekwikwi V e sua comitiva – integrada por Rainha Joaquina Kassueka Tawape; Isaac Francisco Lucas, Ministro-Secretário do Reino do Bailundo; Judith Maria Cecília Luacute, que também integra a assessoria de Sua Majestade, Walmir Damasceno (Ilabantu); Raimundo Nonato Konmannanjy da Silva (Acbantu); Patrícia Zapponi (Afrocom), Makota Celinha Gonçalves (Cenarab).

 

– Cais do Valongo, que integra Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana no Rio de Janeiro;
– Parque Memorial Quilombo de Palmares em Alagoas;
– Quilombo do Cafundó no Vale do Ribeira em São Paulo;
– Terreiro de Matamba Tombensi Neto (casa de cultura tradicional angolana fundada em 1885), Ilhéus, Bahia.

 

Nas localidades a serem visitadas, haverá recepções ao soberano do Bailundo com as presenças de autoridades tradicionais de povos de matriz africana e do governo, ativistas do movimento negro, acadêmicos e pesquisadores (as) de distintas universidades.

 

COLETIVA DE IMPRENSA

No dia 4 de abril será realizada a Coletiva de Imprensa na qual será possível obter detalhes do roteiro de visitas do soberano e sua comitiva, bem como compartilharmos mais sobre o que esse momento histórico representa. A coletiva será nas dependências do ILABANTU, em endereço que segue abaixo. Para que possamos nos organizar para melhor recebê-lo (a), queira por gentileza confirmar presença pelo endereço de email ilabantu@inzotumbansi.org.

 

 

MAIS SOBRE O ILABANTU: http://ilabantu.inzotumbansi.org/ilabantu-como-foco-de-res…/
MAIS SOBRE A VINDA DO REI DO BAILUNDO AO BRASIL:http://reidobailundu.inzotumbansi.org/
CONTATO: Taata Katuvanjesi (ILABANTU)

Endereço:
Rodovia Armando Sales, 5205 – Recreio Campestre
Itapecerica da Serra, São Paulo – Brasil – Cep 06856-000

Contato: Tel: 55 (11) 4165.4333 – Cel: (11) 9 9339.1977
Nextel.: 55 (11) 7716.6061 – ID 55*956*30648
e-mail: ilabantu@inzotumbansi.org

Categoria: Antropologia, Cultura, História
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Linguagens Pretas!

Publicado por Gill Sampaio Ominirô em 09/09/2014 às 11h40

Fotografia, Teatro e Ancestralidade no Museu Afro-Brasileiro!

 

“Linguagens Pretas: Encontros pela Ancestralidade”
une arte e conscientização no combate ao preconceito.

 

O Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia (Mafro/UFBA) realiza no próximo dia 10/09 (amanhã), a partir das 16:30h, a segunda edição do Linguagens Pretas: Encontros pela Ancestralidade, série de atividades que visam conscientizar para a importância da ancestralidade e combater o preconceito em relação à cosmologia dos afrodescendentes.


 

O teatro e a fotografia como meios de valorizar e promover a cultura negra ancestral num bate-papo com a participação da diretora teatral Fernanda Júlia (Grupo NATA – Núcleo Afro-brasileiro de Teatro de Alagoinhas), do ator Marinho Gonçalves e dos fotógrafos Roger Cipó e Andrea Magnoni.  

 

Além de resgatar a importância da ancestralidade e fortalecer a identidade sociocultural, o projeto também busca ampliar as ações afirmativas para a consciência negra e para o empreendedorismo juvenil.


 

O universo multicolorido e expressivo das danças ancestrais dos Orixás é o foco da pesquisa Olhar de um Cipó, do fotógrafo paulista Roger Cipó, que registra a vitalidade e a harmonia nas cerimônias, rituais e no cotidiano religioso das comunidades de terreiro.

 

Segundo o fotógrafo, estar na Bahia é dar continuidade a uma história ancestral e que precisa ser fortalecida em todos os estados do Brasil.


 

“Participar desse encontro é um presente das forças ancestrais que reverenciamos no candomblé. É um passo importante na realização de um sonho não só meu, mas de todos e todas que buscam dialogar sobre as questões sociais das comunidades afrodescendentes e promover a arte”, afirma Cipó.

 

Imagens da pesquisa estão no seguinte link>>

https://www.facebook.com/olhardeumcipo

 

SERVIÇO:

Linguagens Pretas: Encontros pela Ancestralidade

Dia/Hora: 10 de setembro de 2014, às 16:30h

Local: Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia - Sala Carybé

Largo do Terreiro de Jesus s/nº - Prédio da Faculdade de Medicina

Centro Histórico - Salvador - Bahia

Entrada franca.

 

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Ìyá Nitinha de Òṣun

Publicado por Gill Sampaio Ominirô em 04/09/2014 às 16h00

 

Areonithe da Conceição Chagas, Ìyá Nitinha de Òṣun, nasceu no dia 12 de setembro de 1928, em Santo amaro de Ipitanga, na Bahia.

 

Filha de Izidora com um espanhol foi criada por Maria da Natividade Pereira, mais conhecida como “Cotinha”, Ògúnjobì, filha de santo da Casa Branca, mais precisamente do terceiro barco de Ìyá Massi, Oìnfunkẹ̀.

Aos quatro anos de idade, Ìyá Nitinha foi iniciada para Òṣun, por Ìyá Massi. Aos quatorze anos casou-se com um filho de Ògún do Jeje de Cachoeira - BA, conhecido como “Seu Benzinho”. Ele era Oluwò, ou seja, jogava os búzios para a Casa Branca, além de outras casas importantes. Desta União nasceram dois filhos, ambos Ogà da Casa Branca: Areelson (Ogà Léo) e Arehigino (Ogà Gininho), confirmados por Ìyá Massi.

 



Durante esta união Ìyá Nitinha galgou conhecimento sobre a nação Jeje, pois Seu Benzinho era um grande e respeitado Olùwò.
Tempos depois, ela passou a trabalhar nas profissões nas quais era formada, a saber, parteira e professora primária, na Comunidade do Portão - BA.

Mais tarde, um terceiro filho, Antônio Luís (Ogà Julinho).
No Ilé Àṣẹ Ìyá Nasó Oká - Casa Branca, recebeu os postos de Ìyátebeṣé, Ojúodé e Ìyákekeré. Também recebeu o posto de Ìyágà no Ilê Agboulá no bairro das Amoreiras em Itaparica - BA, sendo o maior posto dado a uma mulher no culto de Bàbá Egùn.


Fundou sua primeira casa de Candomblé em 1960, no Município de Santo Amaro do Ipitanga em Pitangueiras - BA.

 



E assim Ìyá Nitinha não parou e em 23 de abril de 1972 fundou a Sociedade Nossa Senhora das Candeias (Aṣè Ìyá Nassô Oká Ilê Òṣun) na Cidade de Nova Iguaçu - RJ, mais precisamente no bairro de Miguel Couto, na Baixada Fluminense.

Neste foram iniciados mais de 500 filhos de santo, Ogà e Ekèje.
Sempre correta em suas atitudes e dedicada aos seus trabalhos como Ìyáloriṣá, Ìyá Nitinha era um exemplo de respeito e cumplicidade para com os Òrìṣà, aos quais dedicou toda a sua vida.

Conheceu o Presidente Lula no Rio de Janeiro há dez anos e depois, em 2005, foi convidada pelo próprio Presidente para fazer parte da Comitiva Religiosa que participaria do funeral do Papa João Paulo II. Ao ser perguntada sobre o atraso que a fez perder o voo, Ìyá dizia: “O santo mandou ficar”.

Em 2007 foi condecorada com a Comenda da Ordem do Rio Branco, também pelo Presidente Lula em Brasília, maior condecoração que um civil pode receber no Brasil.


Ìyá Nitinha recebendo do presidente Lula a medalha da Ordem do Rio Branco, maior condecoração que pode ser recebida por um civil no Brasil.

 

Ìyá Nitinha era animada, exuberante e graciosa, mas também enérgica quando preciso. Conhecida nacional e internacionalmente, tinha filhos espalhados pelo Brasil, Argentina, França, Portugal, Itália, EUA dentre outros países. Conquistou sua fama por conta de seus conhecimentos e sapiência no Candomblé em suas diferentes Nações e também pela seriedade e leveza com que conduzia a religião e a Casa. 

 

 

 

Ìyá Nitinha não era apenas um exemplo de Ìyáloriṣá, tinha poder nas decisões e a magia no olhar, foi incontestavelmente uma das maiores lideranças religiosas na Bahia e no Rio de Janeiro.


Dia 04 de fevereiro é uma data inesquecível para o Candomblé do Brasil e principalmente para os filhos e descendentes da Casa Branca do Engenho Velho. Veio a falecer no Hospital Evangélico, em Brotas, onde estava internada há 12 dias, vítima de insuficiência respiratória. Foi sepultada dia 05 de fevereiro 2008, às 14h, no Cemitério Jardim da Saudade, também em Salvador - Bahia.

 

No terreiro da Casa Branca iniciaram-se no dia seguinte os rituais de Ajèjè, que tem duração de vários dias. O Ajèjè em Miguel Couto teve início em 12 de março de 2008, sob a direção do Bàbálòrìṣà Air José, do Terreiro Pilão de Prata e Pai Valdemar Ogunssy do Ilê Axé Alarabedê.

Fonte: http://www.maenitinha.com.br/ (com alterações no yorubá).

 

Uma Ìyáloriṣá importante para a cultura brasileira e mais ainda para a religião do Candomblé.

A Flor do Velho Engenho

Artista - Lucio Sanfilippo
Participação - Lucinha Pessoa
Direção - Rafael Eiras

 

Ìyá (poema)

Gill Sampaio Ominirò

 

Ìyá

Minúscula palavra do idioma yorubá

Lingüisticamente insignificante, monossilábica

Essa pequena palavra incorpora um sentido incalculável

Incorpora a força de todo um povo que se mantém regido pela feminilidade

Sob a égide do amor

E toda essa feminilidade se condensa numa pequena grande mulher...

 

Quem é essa mulher?

 

Quem é essa que traz um brilho intenso nos olhos rasgados?

Olhos doces, olhos de fogo!

O sorriso plácido... O olhar audaz!

 

Uma mulher...

Ou mais que uma mulher, uma geradora

Uma genitora de ventre cheio

 

Água doce do rio calmo, mas do rio fundo

Águas profundas: Ominíbú

 

Quem é essa mulher?

De onde vem tanta resistência?

Quem é essa mulher que me arranca do pesadelo?

Que visita meus sonhos?

 

Onde está quem lhe criou?

Que deusa lhe construiu?

Que guerreiro lhe semeou?

Que mulher é essa que me mostra o caminho e é a palmatória para meus erros?

 

Senhora de tão alta nobreza!

Ela é a própria divindade...

Ela é a Deusa

 

Mal lhe conheço

Mas me basta o brilho em seus olhos para eu saber quem ela é

Esse brilho doce de água em ebulição

Esse olhar de nobre baiana que põe um país inteiro aos seus pés

 

Quem é essa mulher que pode?

Que tudo pode?

De certo, nem ela mesma sabe como é grande e importante

 

É a grande mãe

Deusa da maternidade!

 

Ela é ela...

A que salva do abandono aqueles que se encontram sem dono

A que nos trás ao seu ventre

A que dispõe sempre um colo

 

Ela é a que não dança:       Flutua

Que não fala:                      Canta

Que não aconselha:           Reza

Que não acaricia:               Abençoa

 

Ìyá: pequena palavra que traduz uma gigante

A pequena gigante que tudo vence

Que ama

E que se encontrará eternamente cravada no escaninho mais sublime da minha alma

 

E que nome traz essa mulher?

Ìyá Nitinha

Tranquilamente poderia se chamar Ìyá Rainha

 

“Rainha Negra da Voz. Mãe de Todos Nós”

 

E ao mundo eu grito sem resistir:

Somente o fato de ser amado por ela e fazer parte de sua família...

Tornam válido o fato de eu existir



"Escrevi este poema em 2004 e tive o prazer de dizê-lo a ela, à Ìyá Nitinha, na cozinha de nossa casa de Candomblé em Miguel Couto, ela o ouviu e emocionada me aplaudiu."

Categoria: Antropologia, Àṣẹ, Ìyáloriṣà, Candomblés Antigos, Família de Àṣẹ, História, Tradição Escrita, Transmissão de Conhecimento
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A questão do segredo no Candomblé

Publicado por Gill Sampaio Ominirô em 02/09/2014 às 23h20

As religiões afro-brasileiras são constituídas por grupos esotéricos que se pautam pelo conhecimento oral.

 Vagner Gonçalves da Silva 

 

 

Suas regras de acesso ou ingresso envolvem a realização de rituais privados, no interior dos terreiros. Por isso o segredo desempenha um papel fundamental no candomblé. Porém, se a oralidade no mundo dos terreiros tem sido a forma por excelência de transmissão de conhecimento, manutenção do axé (energia vital) e do segredo ritual, fora deste contexto ela vem se tornando cada vez menos legítima.

 

Como dizem alguns estudiosos, a escrita tem sido uma das bases dos processos de educação, comunicação de massa e conversão religiosa. Já no contexto particular dos terreiros, ao contrário, a palavra escrita não tem a força do axé. É somente nos ritos que a palavra falada se associa ao canto, à reza, aos objetos, ao sacrifício etc. quando então sua força mítica é liberada. O segredo da força da palavra está na associação da frase que ela anuncia com a legitimidade de quem a profere. Nesta gramática religiosa, o significado depende de quem fala, o que fala, para quem fala e qual o contexto da interlocução.

 

As formas assumidas pelas sistematizações (ou codificações escritas) no candomblé denunciam transformações significativas no modo pelo qual a religião tem sido praticada no interior dos terreiros, e pensada na confluência destes com o mundo que os envolve. A questão do segredo e sua revelação foi uma das mais importantes transformações verificadas no candomblé no momento em que se expandiu a prática nos grandes centros urbanos do Sudeste por volta dos anos de 1960. Livros e a internet participaram dessa divulgação, com, inclusive, cenas rituais publicas e privadas “postadas” em sites como o “You Tube”. Nesse caso, uma religião que privilegia a dança, o movimento, a cor, a música, a performance, certamente tem um grande potencial para aproveitar a seu favor os recursos disponíveis na web.

 

 

Certas práticas que se verificam hoje no candomblé dos grandes centros urbanos parecem ter se formado em virtude do acesso dos religiosos à literatura acadêmica sobre as próprias religiões afro-brasileiras. As etnografias tratem de realizadas nos terreiros brasileiros, ao lado dos relatos de viajantes, missionários e pesquisadores sobre o culto aos orixás na África, têm despertado grande interesse por parte dos religiosos do candomblé. Nesses estudos é possível encontrar referências para comparação, implementação ou ressignificação de suas práticas rituais, tomando-as, em geral, como fontes autorizadas para se estabelecer alguns princípios litúrgicos e sagrados da religião.

 

A fonte escrita e a disponível na internet também facilitam o acesso dos iniciados ao acervo cultural da religião, diminuindo num certo grau as dificuldades da regra do segredo na transmissão oral do conhecimento religioso. Essas fontes, ao se reportarem a universos como a África, podem também fornecer elementos para uma ressignificação do patrimônio de conhecimento religioso. Sob este aspecto o candomblé encurta também sua distância em relação àquelas religiões que podem exibir suas tradições codificadas (traduzidas, impressas e universalizadas) em livros sagrados, como o cristianismo e a bíblia, o judaísmo e a torá, o islamismo e o alcorão.

 

 

Em sua tentativa de sistematização e legitimação do seu corpus religioso, ao transitar pelo mundo do saber escrito (que cada vez mais se transforma também num saber tecnológico), o candomblé encontra, ainda, outras particularidades. Os esforços de institucionalização não têm sido realizados no sentido de levá-lo a ser uma religião burocratizada, nos moldes da tradição católica. No candomblé, cada terreiro é uma comunidade única e o pai-de-santo sua autoridade máxima. Mesmo que os terreiros formem redes mais amplas, constituídas por famílias religiosas, ou modalidades de ritos que agrupam tradições de diferentes origens africanas (as “nações”), a forma pela qual suas tradições são praticadas é motivo de grande disputa.

 

O segredo ocupa neste diálogo de tradições um papel crucial, não porque ele de fato revele um conhecimento objetivo que não deve ser revelado. Na minha experiência de campo isto foi perceptível quando algo que era considerado segredo em um terreiro me era divulgado sem maiores problemas em outro. Se o segredo é axé e o axé é força dinâmica, podemos dizer que o segredo tem a capacidade de relacionar de forma dinâmica, particular e contextual, os agentes do sagrado e os dons que movimentam estas forças. A importância do segredo nas religiões afro-brasileiras não decorre do fato de que ele existe, ou de que ele está morrendo e se perdendo com a morte dos antigos sacerdotes. Seu poder resulta do fato de que está, o segredo, sempre onde o pomos, mas nunca o pomos onde estamos, como dizia um poeta a respeito da felicidade.

 

 

Vagner Gonçalves da Silva é professor do departamento de Antropologia da USP, autor de "Candomblé e umbanda, caminhos da devoção brasileira" (Selo Negro), "Caminhos da alma" (Selo Negro), "Orixás da metrópole" (Vozes), "O antropólogo e sua magia" (Edusp), "Intolerância religiosa" (Edusp).

 

Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/a-questao-do-segredo-no-candomble

 

Todas as fotos: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved.
https://www.facebook.com/olhardeumcipo

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Mãe Stella será homenageada na Flica 2014

Publicado por Gill Sampaio Ominirô em 11/08/2014 às 19h19

Mãe Stella de Oxóssi será homenageada no Festival Literário de Cachoeira.

 

 

Liderança de destaque no Candomblé, a Ialorixá de 89 anos também é enfermeira e escritora. Referência nas ações de valorização das tradições de matriz africana, ela é a primeira Mãe de Santo a ocupar cadeira em uma Academia de Letras no Brasil

Mãe de Santo, enfermeira, escritora, primeira Ialorixá a ocupar cadeira em uma Academia de Letras do Brasil, Maria Stella de Azevedo Santos, a conhecida Mãe Stella de Oxóssi, será também a homenageada do Festival Literário de Cachoeira (Flica 2014), no recôncavo da Bahia. Em sua quarta edição, a atividade acontecerá entre os dias 29 de outubro e 2 de novembro, com debates, programação musical, infantil e pockets shows.

 

 

Uma das novidades deste ano é que o Flica passa a homenagear um autor e a primeira será Mãe Stella, liderança de destaque no Candomblé baiano e nacional. Com legado inestimável, a líder religiosa é referência nas ações de valorização das tradições de matriz africana. Mãe Stella é colunista do Jornal A Tarde da Bahia, e autora dos livros “E Daí Aconteceu o Encanto” (em parceria com Cléo Martins), “Meu Tempo é Agora”, “Òsósi – O Caçador de Alegrias”, “Owé”, “Epé Laiyé - terra viva”, “Ofún”, e “Opinião – artigos publicados em A Tarde”.

Na Academia de Letras da Bahia, a líder religiosa ocupa a cadeira 33, cujo patrono é Castro Alves. Devido às inestimáveis contribuições acadêmicas e culturais, a Ialorixá recebeu ainda o título de Doutora Honoris Causa da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em 2009.

 

 

Este ano, além do Flica, ela foi homenageada com o livro “Mãe Stella de Oxóssi – Estrela nossa, a mais singela!”, obra organizada pelo escritor Marcos Santana. Conforme destaca a sinopse, a publicação resgata o perfil biográfico e traz um resgate histórico e cultural por meio de poesias, depoimentos, resenhas e análises de produções intelectuais da Ialorixá, feitas por autores como Edivaldo Boaventura, Muniz Sodré, Antônio Olinto, Jorge Amado, Fernando Coelho, Padre Arnaldo Lima, Dorival Caymmi, Jorge Portugal, Menininha do Gantois, Detinha de Xangô, Marco Santana e da própria Mãe de Santo.

 

 

Nascida no dia 2 de maio de 1925, em Salvador-BA, Mãe Stella foi iniciada no Candomblé aos 14 anos, por Mãe Senhora. Em 1976, foi escolhida para assumir a liderança do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, no qual permanece. A casa fica no bairro de São Gonçalo do Retiro, na capital baiana. Com formação em enfermagem pela Escola de Enfermagem e Saúde Pública da Universidade Federal da Bahia, a Ialorixá chegou a exercer também essa profissão por 30 anos.

 

 

Fonte: http://www.portaldaigualdade.gov.br/noticias/ultimas_noticias/2014/07/mae-stella-de-oxossi-sera-a-primeira-autora-homenageada-do-festival-literario-de-cachoeira

Categoria: Ìyáloriṣà
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Aláàfin de Ọ̀yọ́ no Brasil

Publicado por Gill Sampaio Ominirô em 21/07/2014 às 21h11

 

O Aláàfin de Ọ̀yọ́ visitará as Casas de Candomblé Kétu mais antigas do Brasil

 

Programação:

 

28 de julho (segunda-feira)

 

Fórum Rui Barbosa:

 

14h30 às 15h50 | Solenidade de Abertura.

16h às 16h40 | Palestra magna de Sua Majestade Imperial, o Aláàfin de Ọ̀yọ́.

16h40 às 17h | Apresentação Cultural.

17h às 18h20 | Mesa-Redonda 1: Nos caminhos de Xangô: o patrimônio cultural compartilhado entre Ọ̀yọ́ e a Bahia.

 

1) A importância do Império de Ọ̀yọ́ e a riqueza cultural preservada na cidade de Xangô;

 

2) A centralidade do culto de Xangô nos terreiros de Candomblé Nagô da Bahia e suas ligações com império de Ọ̀yọ́.

 

18h20 às 18h40 | Intervalo/Coffee-break

18h40 às 20h | Mesa-Redonda 2: Problemáticas e Instrumentos da Preservação e Salvaguarda do Patrimônio Compartilhado no Brasil e na Nigéria.

 

1) Políticas públicas para a preservação e valorização do patrimônio cultural dos povos e comunidades de matriz africana no Brasil (tombamento, mapeamentos e planos de gestão integrada);

 

2) Proteção e gestão do patrimônio cultural da cidade de Ọ̀yọ́: possíveis mecanismos de proteção.

 

29 de julho (terça-feira)

 

9h às 12h | Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho

Visita da comitiva de Ọ̀yọ́ ao Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho encontro sobre ações preservacionistas, origens, ancestralidade e manutenção das tradições.

 

14h às 17h | Casa de Oxumarê

Visita da comitiva de Ọ̀yọ́ à Casa de Oxumarê para encontro sobre ações preservacionistas, origens, ancestralidade e manutenção das tradições.

 

30 de julho (quarta-feira)

 

9h às 12h | Ilê Àṣẹ Opò Àfonjá

Visita da comitiva de Ọ̀yọ́ ao Terreiro Ilé Àṣẹ Opò Àfonjá para encontro sobre ações preservacionistas, origens, ancestralidade e manutenção das tradições.

 

14h às 17h | Terreiro Alákétu

Visita da comitiva de Ọ̀yọ́ ao Terreiro Alákétu para encontro sobre ações preservacionistas, origens, ancestralidade e manutenção das tradições.

 

31 de julho (quinta-feira)

9h às 12h | Terreiro do Gantois

Visita da comitiva de Ọ̀yọ́ ao Terreiro do Gantois encontro sobre ações preservacionistas, origens, ancestralidade e manutenção das tradições. 

Conheça o blog do evento no seguinte link>>   http://intercambiobrasilnigeria.blogspot.com.br/

Categoria: Antropologia, Candomblés Antigos, Cultura, Família de Àṣẹ, História, Mitologia, Recomendamos
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30 anos do Tombamento da Casa Branca

Publicado por Gill Sampaio Ominirô em 09/07/2014 às 15h44

 

Ilê Axé Ìyá Nassô Oká

Trinta anos como Patrimônio Histórico Nacional

 

Há 30 anos a sede da Santa Casa de Misericórdia, em Salvador, foi palco de uma sessão histórica: a declaração de tombamento do terreiro “Ilê Axé Ìyá Nassô Oká”, mais conhecido como Casa Branca, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Naquele 31 de maio de 1984, o terreiro ganhou status de patrimônio nacional. Essa declaração mudou os parâmetros sobre os critérios para reconhecimento de um bem como parte da memória e indispensável para a formação da cultura  brasileira.

Quando se vê a estrutura da Casa Branca preservada com uma praça projetada por Oscar Niemeyer  e um gradil modelado por Bel Borba, talvez não se consiga dimensionar o que significou a sessão do tombamento.

De acordo com o antropólogo Ordep Serra, o terreiro, que é considerado o mais antigo de nação Ketu do Brasil, poderia ter desaparecido. "Em uma das sessões na luta pelo tombamento, o  presidente da sociedade civil do terreiro, Agnelo Pereira, disse que, se derrubaram a catedral da Sé, católica, imagine o que não se faria com um terreiro sem proteção", conta Serra.

"O tombamento da Casa Branca foi uma vitória contra o etnocentrismo, o  eurocentrismo e também contra o racismo ", completa Serra.

Uma amostra de como a batalha foi difícil é o resultado da sessão especial de tombamento: três votos a favor; um pelo adiamento;  um  contra e duas abstenções.

 

 

Aliás, a atuação de Marcos Vinicios Vilaça, titular do órgão, que na época tinha outro nome -  Sphan - foi fundamental, assim como o papel do antropólogo Gilberto Velho,  relator do projeto.

Claro que tudo só foi possível pela coragem da comunidade da Casa Branca em  aceitar o tombamento quando não havia precedentes. A luta comunitária foi encabeçada pelo presidente da Sociedade São Jorge do Engenho Velho, o ogà Antônio Agnelo Pereira, e de Mãe Teté e outras  sacerdotisas da Casa.

Além disso, a causa ganhou a simpatia e apoio de ìyálòrìṣà de outros terreiros como Mãe Stella do Ilê Axé Opô Afonjá e Mãe Menininha, do Gantois. Jorge Amado,  Carybé e até  sacerdotes católicos como o abade do Mosteiro de São Bento, dom Timóteo Amoroso Anastácio, também apoiaram a causa.

O reconhecimento da Casa Branca era a oficialização de uma constatação óbvia, mas até então ignorada pelo Estado brasileiro: a construção da identidade nacional tinha contribuição de matriz africana. A partir de então, o caminho estava aberto.

Além da Casa Branca, mais sete terreiros são reconhecidos como patrimônio nacional: Ilê Axé Opô Afonjá (1999); Casa das Minas (2001); Gantois (2002); Bate Folha (2003); Alaketo (2004); Oxumarê (2013) e o Seja Hundé, conhecido como Roça do Ventura, que tem pré-tombamento aprovado desde  2011.

Do total de templos afro-brasileiros reconhecidos pelo Iphan, apenas um está fora da Bahia: a Casa das Minas, no Maranhão.

O Barracão que tem o nome de Casa Branca é uma edificação alongada com várias divisões internas que encerram residências das principais pessoas do Terreiro, como também espaços reservados aos quartos de Òrìṣà, quarto de àṣẹ, salão onde são realizadas as festas públicas, bem como a cozinha onde as comidas sagradas são preparadas. Uma bandeira branca hasteada no Terreiro indica o caráter sagrado deste espaço. No telhado do Barracão, símbolos de Ṣàngó identificam o Patrono do Templo.

 

 

A Sociedade Beneficente e Recreativa São Jorge do Engenho Velho – que representa o candomblé da Casa Branca – foi fundada em 25 de julho de 1943, registrada no Cartório Especial de Títulos e Documentos em 2 de maio de 1945 sob o nº. 15.599. Declarada de utilidade pública pela Lei Municipal 759, de 31 de dezembro de 1956 e é regida por Estatuto e tem personalidade jurídica.

Texto de Gill Sampaio Ominirô, tendo usado como referência, reportagem do site A Tarde, conforme link abaixo:

http://atarde.uol.com.br/bahia/salvador/noticias/tombamento-da-casa-branca-completa-30-anos-1590682

Categoria: Antropologia, Àṣẹ, Candomblés Antigos, Cultura, Família de Àṣẹ, História
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