#ws #ws

Candomblés Antigos

Sacerdotes de religiões afro-brasileiras vão processar o Brasil

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 07/10/2017 às 13h20

 A instauração de um processo contra o Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos, sob acusação de intolerância religiosa, representa um fato de extraordinária importância, com repercussão nacional e internacional.

Uma eventual condenação resultará não apenas em indenizações às vítimas de intolerância religiosa como também irá obrigar as instituições brasileiras a reverem o modo de atuação frente às Religiões Afro-brasileiras.

Como se trata de um processo, poderemos requerer a oitiva de vítimas, testemunhas, perícias, provas, etc. A sentença final tem validade no sistema jurídico brasileiro como se fosse proferida pelo Judiciário brasileiro.

A sentença poderá, por exemplo, obrigar o Brasil a aperfeiçoar leis e adotar políticas públicas, programas governamentais e destinar recursos para ações voltadas para à superação da discriminação contra Candomblé e Umbanda.

Isto se faz necessário porque os governantes brasileiros dependem de apoio político dos segmentos neopentecostais e, por essa razão, tornam-se cúmplices da intolerância religiosa.

Com a mobilização da opinião pública internacional, assegura-se visibilidade ao problema, cria-se um constrangimento político e moral para o Estado brasileiro e obriga-se o governo a tomar providências concretas, palpáveis.

Uma sentença favorável às Religiões Afro-brasileiras será importante sobretudo para obrigar o Brasil a adotar medidas preventivas, políticas públicas capazes de evitar que fatos deploráveis como os que temos assistido se repitam impunemente.

Um processo internacional não é um remédio para todos os males da intolerância religiosa, mas representará um duro golpe no pacto de silêncio e impunidade que hoje faz com que a intolerância religiosa seja tratada como um não-problema, como se não existisse.

Trata-se, portanto, de um valioso instrumento, uma ferramenta a mais na luta pelos direitos, honra e dignidade das Religiões Afro-brasileiras.

 

Hédio Silva Jr., Advogado, Mestre e Doutor em Direito pela PUC-SP, ex-Secretário da Justiça do estado de São Paulo (2005-2006).

Categoria: Àṣẹ, Candomblés Antigos, Família de Àṣẹ, História, Questões Jurídicas, Transmissão de Conhecimento
Comentários (0) e Compartilhar

Agbo Ṣàngó

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 10/01/2017 às 19h15

Roda de Xango

 

A possível origem

 

O conjunto de cânticos que formam a Roda de Ṣàngó reproduz a epopeia deste Òrìṣà e de sua família, incluindo então, Dàda Àjàká, Yemọja e Ìyámase e também um personagem que fez parte da sua vida, o Òrìṣà guerreiro da cidade de Savè, Aira.

 

A arregimentação destes cânticos na construção da Roda certamente teve sua origem na fase posterior à embrionária da organização do Candomblé na Casa Branca do Engenho Velho, o venerável Ilé Àṣẹ Ìyá Nasò Oká, pois, até então, na organização do candomblé na Barroquinha em Salvador, Bahia, as divindades que perfaziam o culto eram Aira e Ọ̀ṣọ́ọ̀sí.

 

Assim, somente na fase posterior, já no Engenho Velho da Federação, quando o  comando do Ilé Àṣẹ Ìyá Nasò Oká estava sob a égide dos Ọ̀yọ́, portanto, da sacerdotisa chamada Ìyá Nasò e, consequentemente, de Ṣàngó é que a Roda deve ter sido estruturada. Não é possível precisar uma data, mas o mais provável é que a organização deste ritual tenha se dado após 1830.

 

Cumieeira da Casa Branca

Símbolo de Ṣàngó sobre a cumeeira da Casa Branca do engenho Velho em Salvador - BA

 

A importância, o fascínio e o descaso

 

Não há dúvidas de que os cânticos da Roda de Ṣàngó perfazem nas comunidades yorubá (jeje-nagô), de Candomblé uma enorme fascinação. Não raro, encontram-se pessoas ávidas por aprender a cantá-los e saber suas respectivas traduções. Mas infelizmente, naufragam no desconhecimento ou mesmo na insistência dos “antigos” em não transmitir tal conhecimento, legando à epopeia um destino de extinção, de esquecimento. Não à toa, os cânticos são entoados nas festividades de maneira nitidamente deturpada. Diante disso, faz-se mais que necessário a transmissão ilimitada dos significados e dos significantes destes cânticos.

 

 

A Roda é um ritual

 

Esta sequência de poemas cantados não é simplesmente um conjunto de cânticos utilizados para ritmar a dança. Como todos os cânticos em louvor aos Òrìṣà, ela conta a biografia de uma ou mais divindades, perfazendo uma mitologia sagrada. Neste caso especificamente, trata-se da mitologia de Ṣàngó e demais divindades que fizeram parte de sua existência mitológica!

 

O ritual se dá com som, dança, fé e muita concentração: Forma-se, então, um grande e único círculo com todos os adeptos de frente para a pilastra central da casa, geralmente dedicada e sacralizada a Ṣàngó.

 

A presença da Agbeni Ṣàngó, sacerdotisa do culto deste Òrìṣà, é fundamental, pois é ela a responsável por organizar o ritual e distribuir os ṣẹ̀rẹ̀, instrumentos por excelência de Ṣàngó os quais reproduzem o barulho da chuva. A palavra ṣẹ̀rẹ̀ é a contração da palavra ṣẹ̀kẹ̀rẹ̀, que quer dizer chocalho. São os ọgá (sacerdotes auxiliares) que empunham o ṣẹ̀rẹ̀ e os rodam acima de suas cabeças, todos ao mesmo tempo, gerando o efeito desejado de se reproduzir o barulho da chuva.

 

Mas, antes de tudo, os ọgá encostam os ṣẹ̀rẹ̀ no chão por três vezes, dizendo palavras em louvor a Ṣàngó (em yorubá), e erguendo-os para o alto, em direção ao cume da pilastra. Ao fazerem isso, os demais adeptos se prostram e tocam levemente a cabeça no chão, demonstrando respeito e pedindo àṣẹ.

 

Ao se iniciar os cânticos, o agradecimento (dúpẹ) ao Rei compõe as primeiras estrofes, pois se trata de um privilégio dos mortais poder louvar e ver Ṣàngó. A primeira sequência se dá em ritmo bàtá, o qual é cadenciado. O movimento do corpo neste momento é feito para frente e para trás e os braços curvados à frente do peito com leve abertura, que se faz na cadência do ritmo. Ao se iniciar os cânticos em referência à Dàda Àjàká, os dançantes movimentam a cabeça de um lado para o outro, como numa negativa.

 

A segunda sequência se dá em ritmo ogelé, díspare do bàtá, pois são um pouco mais acelerados. Os cânticos evoluem para um clímax no qual as últimas cantigas indicam um àlúja menos acelerado, mas não menos inebriantes, tendo em vista que ele conduz às manifestações dos Òrìṣà. Neste momento, todas as divindades, com exceção de Ọbalúwàiyé e Nàná, se fazem presentes no terreiro em respeito ao Rei dos Yorubá.

 

Todo o ritual é carregado de significados e significantes e a emoção toma conta dos presentes, sejam da assistência leiga ou dos envolvidos mais diretamente com a cerimônia. É um momento de louvor à divindade da governabilidade, a qual se pede cotidianamente por dias melhores. E este aspecto de divindade governante será ilustrado nos cânticos que compreendem sua saga mítica. A presença de Yemọja se dá no âmbito da mitologia, na qual Ṣàngó seria seu filho, o que difere da História oficial da Nigéria, a qual reza que o 4º Aláàfin de Ọ̀yọ́ era filho de Torosi, Àyaba Nupe, filha do rei Elempẹ que viveu em 1460 a.C. e era tia de Ọya. Seu pai era Ọ̀rànmíyàn.

 

Xango 

 

As variações, o efeito da oralidade e a complexa uniformização da Roda

 

Algumas famílias de àṣẹ iniciam a Roda com uma sequência tríade para os Onílẹ̀, os Senhores da Terra, para somente depois iniciarem os cânticos para Ṣàngó. Já em outras, a sequência já se inicia com os cânticos para o Ọba.

 

Vejamos os cânticos da sequência tríade para os Onílẹ̀:

 

Onílẹ̀ mo júbà o

Ìbà Òrìṣà, ìbà Onílẹ̀

 

E pa’gbo o

E pa’gbo ó wa tan’gala

A tan’gala nilẹ̀ kò rò ó

Ẹ pa’gbo ẹrù jẹ́jẹ́

 

Toto n’ilẹ̀ kò rò ó

Aye kuru

 

Nesta gama de variações, há cânticos que não são contemplados nas Rodas de alguns àṣẹ, mas são em outros. Nesta perspectiva, os adeptos por vezes precisam saber todos os cânticos, sob pena de ficarem “perdidos” na evolução da cerimônia.

 

É fato que a tradição oral, ao longo das décadas, séculos, assegurou a perpetuação da estrutura básica da Roda, porém, permitiu a deturpação fonética de seus cânticos, quase que aniquilando as possibilidades de tradução.

 

Assim, é possível ouvir palavras que notadamente não fazem parte da lógica da tradução dos cânticos como “acarajé”, “fala orixá”, “acutã”, dentre outras. Ou pior, identifica-se em algumas Rodas a inserção de cantigas que delas não fazem parte, mas que a ela são adicionadas apenas pelo fato de serem do ritmo bàtá.

 

Por outro lado, há ainda o agravante da enorme variação do formato da Roda. Desta forma, buscar por um modelo único é um purismo inócuo. A forma como se apresentam as Rodas, Brasil a fora, varia de tal forma que inviabiliza qualquer tentativa de criação de um padrão que sirva de modelo a todos.

 

Diante disso, em 2005, o antropólogo, professor e bàbálòrìṣà José Flávio Pessoa de Barros, filho de Ìyá Nitinha de Ọ̀ṣun da Casa Branca do Engenho Velho, lançou o livro “A Fogueira de Xangô, o Orixá de Fogo”, (Pallas, ISBN 8534703507), fruto de uma imensa pesquisa que resultou na transcrição dos cânticos, não todos, e num yorubá minimamente traduzível. No livro é possível encontrar a descrição do ritual da Fogueira, que na realidade é de Aira e não de Ṣàngó, e a transcrição de algumas rezas e os cânticos da Roda, todos traduzidos, mas de forma ligeiramente diferente das traduções aqui apresentadas.

 

Xango

 

 

 

Àwọn Orin Agbo Ṣàngó

Os Cânticos da Roda de Ṣàngó

 

 

1ª Sequência em ritmo bàtá: 

 

Àwa dúpẹ ó, ọba dodé

À dúpẹ ó, ọba dodé

 

Tradução:

 

Nós agradecemos, o Rei chegou
Nós agradecemos, o Rei chegou

À dúpẹ ni mọ ọba, ẹ kú alé

À dúpẹ ni mọ ọba, ẹ kú alé

Ò wá, onílẹ̀

À dúpẹ ni mọ ọba e kú alé

 

Tradução:

 

Nós agradecemos por ver o Rei, boa noite vossa majestade
Nós agradecemos por ver o Rei, boa noite vossa majestade
Ele veio, está na Terra

Nós agradecemos por ver o Rei, boa noite vossa majestade


Fé lè, fé lè

Yemọja wèkun

Yemọja wèkun

Àgó firè mọn

Àgó firí mọn

Àjàká igbá ru, igbá ru

Ó wá e

Fé lè, fé lè

 

Tradução:

 

Ele quer... ele quer vir
Yemọja lava no mar

Yemọja lava no mar
Dê-nos licença para vermos através dos seus olhos e conhecer-vos

Dê-nos licença para vermos através dos seus olhos e conhecer-vos

Àjàká carrega na cabaça, carrega na cabaça a água do mar
Então estas de volta

Ele quer... ele quer vir

Ṣàngbà, Ṣàngbà

Didé òní Igbòdo

Ọdẹ ni mó

Syìí ó òní ó

 

Tradução:

 

Executou feitos maravilhosos, executou feitos maravilhosos
Levantou-se sobre Igbòdo
Os caçadores sabem disto

 

Òní Dàda

Àgó lá rí 

 

Tradução:

 

Senhor Dadá,

Permita-nos vê-lo

 

Dàda má sọkún mọ́

Dàda má sọkún mọ́

Ò fẹ̀ẹ̀rẹ̀ ó ní fẹ̀ẹ̀rẹ̀,

Ó gbé l’ọ̀run

Bàbá kíní l’ọnọ̀n da rí

 

Tradução:

 

Dadá, não chore mais filho

Dadá, não chore mais filho
É franco tolerante, ele vive na outra dimensão

É o pai que olha por nós nos caminhos

 

Báyànni gìdigìdi

Báyànni ọlà

Báyànni gìdigìdi

Báyànni ọlà

Báyànni adé

Báyànni òwò

 

Tradução:

 

Báyànni é muito forte, como um animal

Báyànni é honrado

Báyànni é muito forte, como um animal

Báyànni é honrado

A coroa de Báyànni

A coroa de Báyànni é cheia de dinheiro (búzios)

 

Báyànni adé

O adé Báyànni 

 

Furà ti ná

Furà ti ná

Furà ti ná

Àrá lò si sá jó

 

Tradução:

 

Desconfie do fogo, desconfie do fogo

Desconfie do fogo, desconfie do fogo

Desconfie do fogo, desconfie do fogo

O raio é a certeza de que ele queimará

 

Onílẹ̀ mo júbà o

Ìbà Òrìṣà

Ìbà Onílẹ̀

           

Tradução:

 

Senhor da Terra, meus respeitos

A benção Òrìṣà

A benção Senhor da Terra 

 

2ª Sequência em ritmo ogelé:

 

Ọ̀ràín a lóòde o

Bara ẹni ja, ènia rò ko

Ọba nù Ko so nù ré lé ó

Bara ẹni já ènia rò ko

O níìka si bẹ̀ l’ọ̀run!

 

Ọbalubẹ kẹrẹjẹ

O níìka won bọ l’ọ̀run

Kẹrẹjẹ ẹran àgùtòn

Itẹtu pàdé wa l’ọnọ̀n

O níìka si relé

Ìbò si

Òràn in a lóòde

Bara ẹni já ènia rò ko

 

Tradução:

Sim, a circunstância o colocou de fora
O mausoléu quebrou, não foi usado
O rei não se enforcou, não se pendurou

Sumiu no chão e reapareceu
O mausoléu quebrou, não foi usado
O rei não se enforcou, não se pendurou
Sumiu no chão e reapareceu

Ele é cruel, olhou, retornou para o mundo dos espíritos
Deu um grito para enganar

Ele é cruel, olhou, retornou para o mundo dos espíritos
O carneiro mansamente procura e encontra o caminho
Ele é cruel contra os que humilham
A consulta ao ìbò foi negativa
O verdadeiro senhor é contra juras traiçoeiras
Sim, a circunstância o colocou de fora

O mausoléu quebrou, não foi usado

 

Ọba ṣẹ̀rẹ̀ la fẹ̀hinti

Ọba ṣẹ̀rẹ̀ la fẹ̀hinti

Ọba nwa’iyé bẹ l’ọ̀run

Ọba ṣẹ̀rẹ̀ la fẹ̀hinti

Ọba nwa’iyé bẹ l’ọ̀run

Ọba ṣẹ̀rẹ̀ la fẹ̀hinti

 

Tradução:

 

Inclinem-se! O rei do ṣẹ̀rẹ̀ se salvou
Inclinem-se! O rei do ṣẹ̀rẹ̀ se salvou
Supliquem ao rei que existe e vive na noutra dimensão

Inclinem-se! O rei do ṣẹ̀rẹ̀ se salvou

Ẹiyẹ kékeré

Adó òsi arálé

Ìyá l’ódò Mase

Ẹiyẹ ko kéré l’anú

Ṣ’oko ìyágbà

Ìyá l’ódò Mase

 

Tradução:

 

O pequeno pássaro

Na cabeça, é da esquerda, é parente

Da mãe do rio, Mase.

O pequeno e sofrido pássaro foi apanhado com gentileza

Pela grande mãe do rio, Mase

 

Aira òjo

Mó péré sè

A mó péré sè

 

Tradução:

 

A chuva de Aira,
Limpa, mas faz barulho como um tambor
Ela limpa, mas faz barulho como um tambor

 

Ọba a níwà àwúnre

Ọba a àwúnre níwà

Ọba a níwà àwúnre

Ọba a àwúnre níwà

Ọba lugbẹ́ ọba l’adó

Ọba l’adó ri ṣọ́

Ọba l’àiyé

Ọba l’adó ri ṣọ́

Ọba l’àiyé

 

Tradução:

 

Rei, nós temos a existência e a boa sorte

Rei, nós temos a boa sorte e a existência

Rei, nós temos a existência e a boa sorte

Rei, nós temos a boa sorte e a existência

O rei afastou os maus, o rei do pilão

O rei do pilão olha e arremessa

 

Olówó

Kó mà bò, mà bò

E kó mà bò

Olówó

Kó mà bò, mà bò

Aláàfin Òrìṣà

 

Tradução:

 

Abastado Senhor

Aquele que dá proteção, dá proteção

Aquele que dá proteção

Abastado Senhor

Aquele que dá proteção, dá proteção

Òrìṣà, rei de Ọ̀yọ́

 

Ọmọ àsìkó Bẹ̀rẹ̀

Èkó inọ́n, èkó inọ́n

Ọmọ àsìkó Bẹ̀rẹ̀ èkó inọ́n

Lòóde roko

Ọmọ àsìkó Bẹ̀rẹ̀

Èkó inọ́n, èkó inọ́n

Ọmọ àsìkó Bẹ̀rẹ̀ èkó inọ́n

Èrù njẹ́jẹ́

 

Tradução:

 

Os filhos, com o tempo, iniciaram o culto do

Fogo de Èkó (cidade de Lagos), o fogo de Èkó
Os filhos, com o tempo, iniciaram o culto do

Fogo de Èkó ao redor das plantações

Os filhos, com o tempo, iniciaram o culto do

Fogo de Èkó (cidade de Lagos), o fogo de Èkó
Os filhos, com o tempo, iniciaram o culto do

Fogo de Èkó com medo extremo

 

Xango

 

 

xango

 

 

xango

 

 

xango

 

 

ose sango

 

 

Categoria: Antropologia, Àṣẹ, Candomblés Antigos, Cultura, Família de Àṣẹ, História, Livros, Música, Mitologia, Rituais, Tradição Escrita, Tradução, Transmissão de Conhecimento
Comentários (6) e Compartilhar

O que quer dizer a palavra Juntó?

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 18/08/2016 às 21h23

Juntó - orixa

  

Por Gill Sampaio Ominirò.

  

Muitas pessoas me perguntam o que significa a palavra “juntó", uma expressão que se usa nos candomblés antigos para se referir ao segundo Òrìṣà da pessoa. É fato que esta palavra não existe em nenhum dicionário yorubá nem é de origem fon. Portanto, ela certamente deriva de uma aglutinação de outras palavras do yorubá ou foi modificada pelo uso, na tradição oral, ao longo da história. Aquela velha história do “telefone sem fio”.

 

Não é intenção de esta matéria dissertar sobre o que é um juntó no culto do candomblé, mas não podemos deixar de falar um pouco sobre isso. Então, por tradição, o juntó é o òrìṣà determinado pelo jogo de búzios para ser o que estará ao lado do primeiro òrìṣà da pessoa. No entanto, isso é demasiado relativo, pois depende muito da tradição da família se àṣẹ ou mesmo da casa de candomblé. Há tradições nas quais o juntó está intrinsicamente ligado ao primeiro, de acordo com o caminho desse òrìṣà, o que chamamos de “qualidade”. Por exemplo, uma pessoa de Ọ̀ṣun Ọ̀pàrà, necessariamente terá como segundo òrìṣà, Ògún (algumas tradições falam em Ọya). Noutro exemplo, uma pessoa de Ògún Wari, necessariamente terá como juntó, Ọ̀ṣun. Há tradições nas quais o juntó não é mais importante do que os outros demais òrìṣà da pessoa, para a qual são assentadas cinco divindades. Portanto, o significado e o uso do juntó não importam muito nesta matéria e sim o equívoco na explicação da origem da palavra.

 

Diante disso, vê-se em vários sites, blogs e redes sociais que se criou uma explicação bastante insustentável, na qual juntó seria uma derivação da palavra adjunto. Porém, caoticamente, acrescentou-se nesta palavra um acento agudo na sua última vogal, alterando sua sílaba tônica para que ela soasse semelhante a juntó. Ou seja, criaram o neologismo “adjuntó”.

 

Assim, juntó (/djuntó/) é, como todas as palavras em yorubá, oxítona (palavras cuja sílaba tônica é a última). Já adjunto (/adijúnto/) é uma paroxítona (palavras cuja sílaba tônica é a penúltima).

 

A palavra “adjunto”, etimologicamente, quer dizer “o que está junto”. E juntó, na tradição oral, quer dizer “o òrìṣà que acompanha o primeiro”. E, neste sentido, há mesmo uma conexão lógica com o sentido de adjunto. Mas, não é assim que se explica uma alteração histórica de uma palavra em idioma estrangeiro. Não é pervertendo a pronúncia em sua sílaba tônica que vamos descobrir o significado real de uma palavra que perdeu sua pronúncia original ou mesmo sua escrita verdadeira por conta do aprendizado oral. É necessária uma pesquisa no próprio idioma no qual está inserida a expressão modificada para se solucionar o enigma. Portanto, não se pode deslocar a sílaba tônica das palavras para satisfazer uma explicação, isso é uma fraude linguística.

 

É fato que, para fazermos traduções de palavras em idiomas tonais, como é o caso do yorubá, a pronúncia da sílaba tônica é nossa aliada, pois é ela quem em geral se mantém ao longo do tempo sem alterações. Pois, mesmo que alguns fonemas tenham se alterado, a sílaba tônica tende a se manter no lugar.

 

No entanto, essa explicação que se pauta em “adjuntó” virou moda e, como sabemos, uma coisa dita muitas vezes acaba por se tornar uma “verdade”. Mas é preciso sempre desconfiar de explicações preguiçosas, mal embasadas e apressadas, cujo intuito é o de tecer soluções. É preciso uma teoria que se sustente.

 

Assim, através de pesquisas em livros, dicionários e recorrendo a falantes nativos de yorubá e fon, concluímos que juntó é uma variação linguística da expressão yorubá “jùmọ̀”, cuja pronúncia é /djunmó/ e que em yorubá significa “junto”, “em companhia de”, “junto com”. Ou seja, o mesmo sentido que o usado na tradição oral para juntó, o que comprova a eficácia da conclusão. Observem que ambas são oxítonas, ambas são semelhantes na pronúncia (/djuntó/ e /djunmó/), e na escrita. Ademais, o sentido da original corresponde exatamente ao da originária, que foi modificada pela tradição oral, mas mantém seu significado.

 

Bibliografia:
ABRAHAM, R. C. Dictionary of Modern Yorubá, Londres, 1946 
BENISTE, José. Dicionário Yorubá-Português, 2ª ed., Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2009 
FONSECA. Eduardo, Dicionário Yorubá – Português, 2ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1993.

 

 

Categoria: Antropologia, Candomblés Antigos, Cultura, Família de Àṣẹ, História, Tradição Escrita, Tradução, Transmissão de Conhecimento
Comentários (4) e Compartilhar

A Nação Ìjẹ̀ṣà no Brasil perde sua matriarca.

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 12/06/2016 às 12h48

Mãe Estelita

 

Mãe Estelita nos deixou ontem, 11 de junho, após uma vida de dedicação aos òrìṣà.

 

Estelita Lima Calmon nasceu em 1919 e foi consagrada aos òrìṣà por Pai Severiano de Logùn Ẹ̀dẹ em 1951. Ela era de Ọya.

 

Siví, como era conhecido o bàbálòrìṣà Severiano Santana, foi iniciado em um terreiro que ficava próximo ao bairro da Ribeira em Salvador – BA. Mais tarde, passou a cultuar os òrìṣà em Bate-estaca, subúrbio de Salvador. Era o início do Ilé Àṣẹ Kalè Bokun, dedicado ao culto de Logùn Ẹ̀dẹ, no ano de 1933.

 

Mãe Estelita era descrita como mulher forte e foi responsável pela consolidação e configuração da casa. Aos 97 anos de idade e à frente do Àṣẹ como uma rainha desde 1994.

 

O bàbálòrìṣà Severiano faleceu em 1970, sendo sucedido, em 1972, pelo seu no àṣẹ, Claudionor dos Santos Pereira, pai Nozinho de Ọ̀ṣun.

 

Com o seu falecimento em 1994, quem assume o Kalè Bokun é outra filha sua, a ìyálàṣẹ Estelita de Ọya. 

 

O Ilé Àṣẹ Kalè Bokun encontra-se em processo de tombamento com base na Lei de Preservação do Patrimônio Cultural do Município de Salvador.

 

A Ìwé Ìmọ̀ – Candomblé sem Segredos, se solidariza com as famílias biológica e espiritual de Mãe Estelita e presta esta singela homenagem a quem merece uma eternidade de reconhecimentos.

 

 

Categoria: Antropologia, Àṣẹ, Ìyáloriṣà, Candomblés Antigos, Cultura, Família de Àṣẹ, História, Transmissão de Conhecimento
Comentários (0) e Compartilhar

Equede - a Mãe de todos

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 04/05/2016 às 18h35

Na semana do dia das mães, livro sobre as Mães-Equedes do Candomblé é lançado em São Paulo.

 

 


Na próxima sexta-feira, 06 de maio, a tradicional Biblioteca Mário de Andrade recebe o Lançamento do livro "Equede - a Mãe de todos".


Publicado pela Editora Barabô, o livro é um testemunho de Gersonice Azevedo Brandão, nacionalmente conhecida como Equede Sinha, uma das principais sacerdotisas do Ilé Àṣẹ Ìyá Nasò Oká, a venerável Casa Branca do Engenho Velho, Salvador - BA, fundada em 1830, sendo a primeira casa de Candomblé oficial no Brasil.

 

 

Eu sou uma equede. E uma equede é uma mãe. Então, não me vejo em outra função dentro do axé. Porque eu sou mãe. E não sei mais separar a mãe genética da mãe religiosa

 

Diz Equede Sinha, no livro organizado por Alexandre Lyrio e Dadá Jaques, que traz histórias inéditas em 172 páginas, além de mais de 200 fotos, tanto do acervo pessoal da autora e da Casa Branca, quanto dos fotógrafos Dadá Jaques, Flávio Damm e da Fundação Pierre Verger.


"Equede" é um cargo, uma função na hierarquia do candomblé, o qual concentra os poderes maternais do acolhimento, do zelo e da educação. Do yorubá “èkejì”, equede é o braço direito da Ìyálòrìṣà e zela tanto pelos òrìà quanto pelos filhos de òrìṣà de uma casa, um templo, perfazendo, assim, seu perfil inequívoco de Mãe. A partir do relato de Equede Sinha é possível mergulhar no universo de um dos mais famosos terreiros de candomblé nagô no país, na trajetória de mães e mulheres negras na formação da cultura e identidade afro-brasileiras, assim como a sua própria resistência.

 

 

O lançamento de "Equede - a Mãe de Todos" contará com a presença da escritora, apresentação cultural do Afoxé Ilú Egbá e é organizado pelo Grupo Ìkórítá, formado por professores, jornalistas, comunicadores, artistas plásticos, dentre outros; todos adeptos do Candomblé que se unem para o enfrentamento e combate à intolerância religiosa contra as religiões afro-brasileiras e de matriz africana e é o mobilizador da Marcha do Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa

 

Serviço:

Biblioteca Mário de Andrade

Endereço: Rua da Consolação, 94, Centro, São Paulo - SP

Data: 6 de maio, sexta-feira

Horário: 19:30h

Valor do livro: R$ 150,00 

Realização: Grupo Ìkórítá

Apoios: Prefeitura Municipal de São Paulo, Deputada Leci Brandão, Biblioteca Mário de Andrade, B.L Produções e Ìwé Ìmọ̀ - Candomblé sem Segredos.

 

 

Categoria: Antropologia, Àṣẹ, Candomblés Antigos, Cultura, Família de Àṣẹ, História, Livros, Recomendamos, Tradição Escrita, Tradução, Transmissão de Conhecimento
Comentários (0) e Compartilhar

Um projeto social no Terreiro do Gantois

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 18/04/2016 às 19h20

 

 

Por Gill Sampaio Ominirò

 

Sábado ensolarado em Salvador, Bahia. Subo ao Alto do Gantois e, mesmo antes de chegar ao destino, ouço e reconheço o estalar dos àtòrì¹ nos couros dos atabaques.

 

Entro no Terreiro do Gantois, o venerável Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase, e em meio aos quartos dos òrìṣà e às folhas sagradas do quintal da casa me deparo com um círculo de sons liderado por um moço.

 

Pés descalços, olhar acanhado e sorriso fácil. É Iuri Passos. Arregimentador do projeto Rum Alabê, cuja intenção maior é a transmissão de conhecimentos, de informações culturais, não só para perpetuar a cultura negra, mas também para, nesta perspectiva, combater a intolerância religiosa muito alicerçada na ignorância coletiva.

 

 

 

Iuri é rapaz de fino trato e de fácil trato. Um digno ọmọrìṣà, filho de Ọ̀ṣọ́ọ̀sí e Òṣàgiyọ́n. Um orgulho da casa, da raça, da nação. Formado em música em nível superior, é um acadêmico educador. Eu já havia entrevistado Iuri há exatamente um ano atrás, em razão do seu trabalho de arranjador para o CD “Pèrègún e Outras Fabulações da Minha Terra”, de Félix Ayoh’OMIDIRE. Um extraordinário trabalho que rendeu uma matéria de imenso alcance na Ìwé Ìmọ̀ (link no rodapé desta matéria em “Relacionados”).

 

 

Pois bem. É fato que de forma pioneira, há cerca de 20 anos, Iuri, influenciado pelos conselhos de Gamo da Paz, outro filho ilustre do Gantois, desenvolveu uma didática específica para o ensino do toque de atabaques com ritmos do candomblé. “...fui aperfeiçoando essa técnica e nunca vi ninguém dar aula assim”, relata. Trata-se, então, de um ensino sistemático, cuja didática foi desenvolvida pelo próprio Iuri. Foi possível notar que, além de ensinar os toques, Iuri associa determinado toque ao òrìṣà corresponde e, mais além, à nação² deste toque. Esta didática, assim, não só facilita a memorização das frases musicais, como contribui para o não esvaziamento do significado de cada toque, fortalecendo a cultura e demostrando que os toques não são aleatórios.

 

Assistir ao ensaio dá a possibilidade do expectador perceber muito claramente que tocar atabaque não é mesmo que bater tambor. É imprescindível, então, o entendimento de cada toque associado ao òrìṣà correspondente e à nação de origem.

 

É nítido que Iuri aperfeiçoa o toque herdado na tradição, de forma não só a conservá-lo como aperfeiçoá-lo. Assistir à aula deixa muito claro também que o ritmo não pode ser engessado. É como no jazz, no qual há o improviso, mas não é aleatório, gratuito. A variação ocorre dentro de um sistema, uma métrica musical.

 

 

Daí, observando os alunos e vendo homens, mulheres, adolescentes, crianças, idosos, deficientes físicos, negros, brancos e estrangeiros; não resisto não parafrasear Gerônimo e digo que “o mestre que ensina o dom do atabaque não faz distinção de cor e toda a aula é do som.” E ele explica este meu gracejo dizendo:

 

...as mulheres aprendem mais rápido. É incrível como elas fazem frases que para um músico profissional, depende de ele ter um conhecimento muito avançado. Já os meninos, como este é o universo deles, em tese, eles acham que podem fazer as coisas a qualquer hora. Já as crianças eu prefiro deixar para elas o momento da escolha de tocar o atabaque e quando estiverem com vontade, pois elas não são obrigadas a nada, elas têm que se sentir bem em primeiro lugar e, em segundo lugar, têm que ser divertido. A terceira idade é fundamental porque nos traz a consciência de que estamos sempre aprendendo. É claro que tem um limite pra eles, embora essa dificuldade atue como motivação para todos nós.

 

Nesta perspectiva plural, pessoas de várias partes do Brasil e do mundo vêm ao encontro deste dom, vem querendo saber como também reproduzir este som. As redes sociais desempenham um papel fundamental na divulgação do projeto: “sempre tem alguém que viu nossa aula no Facebook e veio de longe só para participar, como agora mesmo tinha uma senhora que é da Suíça e viu nossa aula nas redes sociais e veio pra conhecer de perto.” Relata.

 

 

 

 

Rum Alabê internacional

 

Não há dificuldade em ensinar para pessoas que falem outra língua. Na verdade, eu preciso melhorar meu inglês, mas uma semana antes de você conhecer nossa aula tinha um japonês na turma e foi tudo muito tranquilo.”

 

Ou seja, a linguagem da música atravessa fronteiras culturais e a comunicação não deixa de ser feita, o aprendizado não é prejudicado. Isso porque a música representa atualmente umas das maiores expressões da sociedade moderna, na qual diferentes significantes e significados são demonstrados nos mais diversos setores do cotidiano. Desta forma, também se caracteriza a música por ser uma forma de linguagem.

 

Isto porque o indivíduo desta sociedade é cada vez mais sistematizado e categorizado conforme o ritmo ou estilo musical que aprecia, conforme o histórico-cultural que se estruturou a psique nos símbolos musicais da música que lhe acompanha.

 

Assim, a representação mental é mediada através do uso dos símbolos que têm origem no social através das interações com o meio, sendo, portanto, construídas de fora para dentro.

 

Segundo Dinah Martins de Souza Campos, através da música o homem não apenas codifica ou decodifica a mensagem, mas também busca por ela um próprio direcionamento para seu comportamento, refletindo acerca da realidade (Campos, 2001).

 

Para Noam Chomsky, não apenas o léxico e a gramática exercem influência sobre a língua, mas os signos linguísticos têm forte representação nas estruturas mentais e na visão de mundo do indivíduo (Chomsky, 1998). Ou seja, a música, que é uma representação de símbolos, significados e significantes, exerce forte influência na linguagem do indivíduo que, por sua vez, irá influenciar o seu meio, a sociedade em que vive.

 

 

Pluralidade do projeto

 

Por que ensinar o toque do atabaque dos ritmos do candomblé para qualquer pessoa, incluindo mulheres e estrangeiros? Sabe-se que este "tocar" na religião dos òrìṣà é de exclusividade masculina, por tradição. Não estaria Iuri ferindo uma tradição centenária? Crê-se que não, pois ele não tem a pretensão de formar ọ̀³. Forma pela cultura do atabaque que é muito mais ampla do que tocar: “...sou muito criticado por essa minha atitude de ensinar para quem chegar à minha aula. É como se eu fosse dono de tudo isso. Meu irmão, não somos dono de nada, nem de nossas vidas. Pelo contrário, temos responsabilidades com a perpetuação da nossa cultura. E sei que muitos que aparecem não têm compromisso com nossa religião e muitos nem conhecem, mas veja bem, eu acho que a pergunta é: por que não ensinar?”. Questiona.

 

A pergunta de Iuri é mais que pertinente. A dúvida se dá na possibilidade de uma apropriação cultural. Se observarmos com pragmatismo e dada as experiências históricas, há sim um risco desta apropriação ser levada a cabo. A História demonstra ocorrências graves de apropriação cultural, nas quais, não se absorveu a modalidade cultural original para somá-la à cultura de destino a fim de melhorá-la. Ao contrário, perverteu-se a cultura original dando origem a outra; identificada, então com a cultura de destino e perdendo o statu quo da cultura de origem. Exemplo claro disso é o que os americanos fizeram com o rock, música negra com origens no blues, pervertida e transformada em música de branco.

 

Por outro lado, é fato que a música é um bem universal e não uma propriedade exclusiva de uma cultura ou etnia, ainda que lhe seja referência. Podemos ainda inferir que a música é uma função referencial, pois há predomínio de fatores imbricados de emoções. Sendo que para qualquer comunicação ocorrer é necessário que haja uma primeira pessoa que emita sentires, lembranças, expressões e confissões a uma segunda pessoa a qual será a pessoa apontada como receptor.

 

Samira Chalhub destaca que as canções populares provocam emoção pelo fato de exprimir-se através da subjetividade do indivíduo, através do modo como se fala (Chalhub, 1995).

 

 

Um projeto social filantrópico

 

O Rum Alabê é um projeto social sem custos para os alunos, ou seja, não há nenhum tipo de cobrança pelas aulas. Segundo Iuri: “...Temos a ajuda da nossa Ìyálòrìṣà, Mãe Carmen que, junto com suas duas filhas, nos dão total apoio para o projeto continuar. E desde 2001 estou nessa luta, embora a parte mais difícil seja a de convencer as pessoas de que a educação é importante, então todo dia é uma nova batalha meu irmão.

 

Sabe-se, e não somente através de Iuri, que o Gantois dá total apoio ao projeto. Para saber mais, conversei, via whatsapp,  com a Ìyá Kékeré da casa, Ângela Ferreira que, ao ser questionada sobre o apoio do Terreiro ao projeto e sobre de que maneira poderia ele fomentar a difusão da cultura dos òrìṣà na comunidade em torno do Gantois, me disse: “O Ilé Àṣẹ Gantois sempre foi favorável a projetos que incentivem e promovam a manutenção da cultura. Sempre apoiou as diversas formas de atividades culturais que trouxeram e continuam trazendo um conhecimento cultural a mais para a nossa população específica como a de entorno. O desenvolvimento do projeto de percussão dirigido por Iuri Passos, filho da nossa casa,  difunde entre seus alunos a importância do SOM na religiosidade dos òrìṣà, conhecimento musical; impondo noções de disciplina, compromisso e responsabilidade às crianças, jovens e adultos da nossa casa como da circunvizinhança, além de reforçar nelas o respeito e devoção pela religião dos òrìṣà - o Candomblé.

 

 

Tocar atabaque não é bater tambor

 

É importante ressaltar que o cerne do projeto nasce de algumas características do seu próprio autor ante a música como, por exemplo, o respeito e o amor pelo instrumento musical, pela música afro-brasileira e pela reverência aos ancestrais. Nas palavras de Iuri:

 

“...às avezes me pego tocando no salão e (...) vejo ‘antigos’ dançando junto com os que estão presentes fisicamente. Nem sei como te explicar isso, mas são essas coisas que me deixam cheio de amor. Quando eu toco os atabaques sinto sempre a presença dos nossos Alabês que já se foram, é como se eles estivessem ali para observar como é que está a festa ou quem é que está tocando hoje o rum⁴ para aquele òrìṣà. Enfim, é uma corrente infinita de energia que está em constante rotação.

 

A paixão e dedicação de Iuri são nítidas. Vê-se o brilho nos seus olhos quando fala da música do candomblé. Sua simplicidade e humildade não têm limites quando diz, acanhadamente, após eu perguntar se um ọ̀gá deve se considerar um músico: “meu amigo, acho até engraçada essa pergunta por que, na verdade, eu nem me acho músico.” Para quem não sabe, Iuri tem formação superior em música, toca atabaque no Gantois a vida toda e é percussionista da banda que acompanhada Mariene de Castro há mais de 10 anos. Não se achar músico é de uma humildade rara no meio artístico.

 

Continuando a conversa, o músico volta a falar de seus ancestrais e das referências que alicerçaram seus conhecimentos:

 

Tocar atabaque no terreiro do Gantois, é sim uma grande pressão, pela perfeição. Imagine você que nesses atabaques tocam e já tocaram mestres como Vadinho Boca de Ferramenta, Dudu, Hélio, Ubaldo, Nadinho, Gamo e Gabí Guedes. Sim, com certeza sempre terá uma pressão e isso é bom por que sempre estamos buscando a perfeição e, o mais importante, a preservação da nossa forma de tocar os atabaques, que é uma técnica muito particular.

Eu sempre gostei muito de ver o senhor Erenilton tocar, o Gamo sempre nos levava, eu e Cacau, para as festas da Casa de Oxumarê, embora na verdade, quem eu queria ter visto tocando era o finado Vadinho.  Quando estou ouvindo os discos que ele gravou eu ainda me surpreendo com as coisas que ele fazia no atabaque ao mesmo tempo em que ele cantava. 

 

 

 O mestre

 

Meu amigo, meu mestre é Gamo, foi ele quem me ensinou tudo que sei. Claro que você vai aprendendo com todos os seus mais velhos, na verdade eu sou uma mistura de todos eles, só que nesse papel de grandes mestres eu tive muitas mestras. Na verdade, esse processo de tocar os atabaques devo muito às mulheres, por que sem elas era praticamente impossível você aprender uma dança que só o òrìṣà ia fazer à noite ou em determinada cerimônia. Quantas vezes tia cantava uma música e ali mesmo sentada ela dançava? Tia é Mãe Carmen, minha Ìyálòrìṣà, minha mãe, minha vó e minha comadre. Isso sem se esquecer das outras tias como tia Delza, tia Cidália, tia Danzinha, minha mãe carnal Marcia de Ṣàngó e outas que passaram na minha vida pra minha sorte.

 

 

 

 

 

 

Enfim, o projeto Rum Alabê é uma empreitada corajosa de Iuri Passos que, mesmo sem apoio institucional, tenta alterar a realidade da desinformação sobre a religião do candomblé através da música. Tenta também minimizar os males causados pela nítida e histórica exclusão social e racial, das quais os negros de Salvador são vítimas. É um projeto que tem total apoio da Ìwé Ìmọ̀ justamente por ir ao encontro do objetivo primeiro desta página, deste projeto, que é a libertação através do conhecimento.

Ao projeto e a Iuri, nossos mais sinceros respeitos e agradecimentos.

A dúpẹ́ púpọ̀!

Mo júbà o!

 

Crédito das Fotos: Marcelo Reis - Instituto Casa da Fotografia

 

 

 Notas:

1. Vareta de madeira usada para percutir nos tambores (atabaques) e no agogô. Também conhecido como agdavi.

2. Entende-se por “nação” as ramificações específicas do candomblé, por si só jeje-nago, que concentram um conjunto de significados, linguagens e tradições de acordo com determinada etnia formadora do candomblé. As “nações” mais conhecidas do candomblé são Ketu (yorubá), Jeje (Ewe-fon, Mahin e Savalú) e Angola (banto).

3. Pronuncia-se /ogan/. É um sacerdote masculino que não incorpora. O qual, dentre muitas atribuições, faz parte da orquestra sacra de tocadores.

4. Atabaque maior que marca o toque, do ewe-fon: hun = tambor.

 

Bibliografia:

 

CAMPOS, Dinah Martins de Souza. Psicologia e Desenvolvimento Humano. 2. Ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 2001.

CHALHUB, Samira. Funções da Linguagem. 7. Ed. São Paulo: Ed. Ática, 1995.

CHOMSKY, Noam. Linguagem e mente. Ed. UnB, 1998.

BENISTE, José. Dicionário Yorubá-Português, 2ª ed., Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2014.

Categoria: Antropologia, Ìyáloriṣà, Candomblés Antigos, Cultura, História, Música, Tradição Escrita, Transmissão de Conhecimento
Comentários (0) e Compartilhar

Resistência e Modernidade: Mestre Didi sobre o Sincretismo

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 15/08/2015 às 14h35

Resistência e Modernidade

 

 

Deoscóredes Maximiliano dos Santos (Mestre Didi).

(Salvador, 2 de dezembro de 1917 — Salvador, 6 de outubro de 2013).

 

Transcrição: Mário Filho.


Introdução:

 

Resolvemos fazer a transcrição deste texto do Mestre Didi, publicado pelo Jornal “Maioria Falante” em Outubro de 1990, pois cremos ser de importância extrema para os praticantes das religiões afro-brasileiras e de matriz africana. Apesar dessa importância, o texto não é de fácil acesso e, por isso, cremos que sua transcrição seja fundamental, de forma a levar às pessoas a necessidade de abandonar antigas práticas. No texto, Mestre Didi, do alto de sua sabedoria iniciática indiscutível, nos lembra da desnecessidade de continuarmos com o sincretismo afro-católico, chamando-nos atenção para lutarmos pela preservação dos costumes tradicionais afro-brasileiros, abandonando, por consequência, atividades religiosas que não fazem parte de nossas liturgias tradicionais.

 

Transcrição:

 

Na matéria intitulada “Ritos criticados” e publicada pelo jornal “A Tarde”, em 1º de junho deste ano, o Papa Paulo II condenava, ao se dirigir a um grupo de bispos do Norte do Brasil, a Macumba, o Candomblé, a Umbanda e os demais ritos afro-brasileiros que se inspiram no cristianismo popular. É por este fato que eu quero me dirigir e despertar a atenção da maioria do povo brasileiro, dos descendentes dos ancestrais africanos, que preservam a tradição afro-brasileira e fortalecem também a religião católica. Meus caros amigos-irmãos e seguidores da Religião Tradicional e da cultura afro-brasileira, Umbandistas, Jeje, Nagô, Omolokô e outras consideradas afro-brasileiras juntamente com o nosso Caboclo, dono da terra do nosso Brasil. Está na hora de se pensar melhor e separar o joio do trigo. O Deus do Papa que é o Deus dos judeus e da religião Católica Apostólica Romana é o mesmo nosso Deus, ỌLỌ́RUN, Aquele que é o Criador e o Senhor de tudo o que existe neste mundo. Já estamos no século XX, não precisamos mais de participar de irmandades católicas e nem de associar os nomes dos Òrìṣà aos seus santos. Sobretudo, quando isso representa renunciar à nossa identidade e à nossa hierarquia. Desta forma aceitamos o controle de nossa fé por quem não aceita os mistérios de nossa religião, os nossos valores éticos, a nossa liturgia.

 

Estamos em uma democracia e temos uma Constituição que garante a nossa liberdade de culto no Brasil. Chegou a hora em que todos os responsáveis pelos Terreiros das diversas nações existentes no Brasil devem se pronunciar e decidir de uma vez por todas acabar com esse “sincretismo” que os católicos dizem que existe nos cultos afro-brasileiros. Os filhos dignos dessas religiões que foram trazidas para o Brasil pelos nossos ancestrais, devem se levantar e agir com a JOEIRA2. Não podemos e nem devemos continuar com a ideia dos nossos mais velhos que tudo fizeram para ser aceitos, mandando celebrar missa para os santos que associavam com o Òrìṣà padroeiro do Terreiro, nem mandar celebrar missa no Peji do mesmo, nem tão pouco missas pela alma dos nossos falecidos, desde quando sabemos muito bem como proceder no falecimento de um dos nossos. O medo deve ser vencido. Hoje o amor à nossa religião e cultura, o sentimento de unidade e o espírito de sacrifício devem predominar em favor dos Òrìṣà que são a própria natureza, pois cada Òrìṣà é o símbolo representativo de um aspecto da natureza, principalmente o Òrìṣà Òsányìn, que é o médico da Religião, patrono de todas as florestas do mundo e é representado por uma espécie de árvore em ferro, com sete galhos e um pássaro na copa.

 

Todos aqueles que vem há muitos anos fortalecendo a parte contrária, acreditando na abertura ecumênica, devem tomar conhecimento e consciência de que estavam enganados. Têm, agora, a última chance de se reabilitar perante a Sociedade Afro-brasileira e unir-se a todo mundo que vem fazendo campanhas monumentais para a preservação da natureza, e porque não dos Òrìṣà? Já é tempo de nos unir, dar-nos as mãos, abrir nossos corações para ir ao encontro da irmandade, da justiça e da fraternidade para fortalecer e preservar cada vez mais as nossas origens e o àṣẹ de cada uma delas.

 

SANTOS, Deoscóredes Maximiliano dos (Mestre Didi). Resistência e Modernidade. Jornal Maioria Falante, Curitiba: s.n., ano V, out/nov, 1990, s.p.

 

 

 

Categoria: Antropologia, Candomblés Antigos, Família de Àṣẹ, História, Tradição Escrita
Comentários (0) e Compartilhar

Entrevista com Iuri Passos do terreiro do Gantois

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 12/04/2015 às 20h20

Iuri Passos – as mãos e os ouvidos de um velho novo Candomblé do Brasil

 

 

Prestes a completar 35 anos de idade, Iuri é um prodígio na percussão, desde a batida sagrada dos atabaques do candomblé, passando pela sua participação no afro Grupo Ofá, com o qual gravou com excelência o CD Odun Orin, até a orquestração dos instrumentos percussivos quando acompanha a cantora Mariene de Castro com quem trabalha há mais de dez anos. Formado em música em nível superior, é um acadêmico educador e criador do projeto “Rum Alabê”, no qual ensina jovens a tocar atabaques com uma metodologia revolucionária que é a dos toques do candomblé transcritos para a linguagem musical da partitura, que é a representação escrita do abstrato da música.

 

Iuri é um baiano legítimo de São Salvador, Roma Negra iluminada pela beleza de seu povo. É filho do Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase, no alto do Gantois, nasceu dentro do terreiro e é sobrinho do venerável Yomar Passos, asọ́gbá do Gantois e de Tufi, bàbá tàlábi da mesma casa. Filho de Márcia de Ṣàngó que mora até hoje no terreiro. E foi no alto do Gantois que Iuri recebeu o pesquisador Gill Sampaio Ominirò para uma entrevista.

 

Vista do da entrada do barracão do terreiro do Gantois

 

Iuri foi iniciado com 11 anos de idade e nos conta que alcançou o convívio com Mãe Menininha que o protegia de sua mãe quando esta queria lhe dar “uns tapas”. Chamava Mãe Menininha carinhosamente de vó, restabelecendo laços biológicos através do candomblé, algo corrente na religião:

Ela criou todo mundo, era o aconchego.”

 

 Mãe Menininha

 

Iuri não é ọgá (ogan), foi iniciado para o Òrìṣà, porém não incorpora. Segundo ele, é uma tradição do Gantois na qual, os homens, os que não incorporam, são assim iniciados e recebem cargos na casa:

 

Eu sou filho de santo, não sou ogan”. Esclarece ele. 

Tradição Oral X Tradição Escrita

 

Sendo de uma das casas mais tradicionais de candomblé do Brasil, Iuri não aprendeu a fazer candomblé e ser de candomblé numa tradição escrita e sim oral, porém vê com bons olhos a possibilidade de se registrar parte dos ritos, o que no candomblé é, em geral, visto como censurável:

 

Gill, você tocou num assunto interessante porque eu tenho vivido muito isso na prática como educador. Estou desenvolvendo um método de escrita e aprendizagem dos ritmos do candomblé. E tenho sofrido muitas críticas a respeito disso, porque as pessoas antigas não entendem muito essa estrutura. Mas eu acho que tudo que serve como um facilitador nesse aprendizado é importante na nossa religião. Porque a gente passa por um momento muito crítico. Porque hoje muitas pessoas fazem questão de aprender mil cantigas do que aprender uma como se cantava em seu terreiro ou como os mais velhos aprenderam...

 

No trecho acima, Iuri exalta o aprendizado pela forma escrita, mas não em detrimento da tradição oral, demonstrando que sabe lidar sabiamente com as duas tradições sem que uma entre em choque com a outra, havendo um equilíbrio necessário para que se mantenha a essência da oralidade sem se deixar de registrar para a posteridade os ensinamentos do candomblé.

 

Mãe Carmem, que eu chamo de tia, ela vê muito o aprendizado dessa forma, que você tem que aprender oralmente. É o tempo dela, foi como ela aprendeu.

 

Mãe Carmem, atual sacerdotisa do Gantois

 

Aí a demonstração do respeito pela oralidade, pela ancestralidade daqueles que formaram e perpetuaram o candomblé pela difícil via da tradição oral.

 

Eu sou a favor de qualquer registro, claro, com orientação, não um registro para se colocar na Internet, no Youtube, mas uma coisa que preserve...” Diz o músico.

 

 

O Iuri arranjador

 

Em 2010, foi lançado o livro “Pèrègún e Outras Fabulações da Minha Terra”, por Félix Ayoh’OMIDIRE, professor de línguas e de estudos culturais e literários na Obafemi Awolowo University, Ilé Ifẹ, na Nigéria e professor da UFBA. E na sequência um CD de mesmo nome. O CD é uma coletânea apresentada no exercício da memória de Félix Ayoh'OMIDIRE que nos oferece a oportunidade de entrarmos em contato com narrativas de uma cultura com a qual a maioria dos afro-brasileiros, consciente ou inconscientemente, vem dialogando há muito tempo. Com direção artística de J. Velloso e a percussão dos Alágbè do Gantois, “Pèrègún” tem arranjos do nosso entrevistado:

 

Eu conheci Felix aqui no Gantois, ele veio a uma festa de candomblé e ficou muito encantado com os toques a ponto de dizer que estava se sentindo na África. A gravação foi algo meio que mágico. Félix ia cantando e eu marcando no gan e dando os ritmos. Jotinha achava que levaríamos uma semana e no final levou mais ou menos cinco horas.”

 

O CD Pèrègún possui vinte e quatro faixas cantadas em yorubá por Félix e sua família com base rítmica dos toques do candomblé, desde o “agueré” até o “ilú”, passando pelo “ijexá”, dentre outros. Uma obra musical extraordinária, original e rara, repleta de significados e significantes numa aura magistral e divina. Não há como não se emocionar às vezes na audição.

 

“...É um momento tão importante, porque justamente quando você ouve o yorubá e vê a África encontrando aquilo que separou um pouco. E musicalmente é tão rico porque você tem a oportunidade de ouvir o yorubá cantado da forma que é. E eu ficava torcendo para aquilo não acabar no estúdio... Não que o nosso não seja lindo, mas a gente sabe que por várias interferências a gente perdeu muita coisa... Eu acho que é um marco na musicalidade dos discos que já foram gravados. É um africano cantando em cima dos ritmos do candomblé. Isso é algo que não existe.”

 

Pèrègún é um encontro do candomblé conservado em azeite com uma África que não conhecemos mais, com um yorubá in natura. Esta obra é mais que um CD de músicas, é um elo perdido entre Salvador e Ilé Ifẹ.

 

 

Sobre novos projetos, Iuri nos informa, em primeira mão, que está debruçado sobre as sonoridades da “Santeria”, que é um sistema religioso que funde crenças católicas com a religião tradicional yorubá, praticado em Cuba, Porto Rico, na República Dominicana, Venezuela, no Panamá e em centros de população latino-americana nos Estados Unidos como Florida, Nova York, e Califórnia.

Meu projeto agora é com um amigo meu que se chama José Esquerdo, que é um chileno e que tem uma musicalidade toda formada pela Santeria Cubana. Meu projeto com ele agora é fazer algumas coisas de candomblé com a Santeria, usando os batás. Estamos selecionando canções e tendo encontros e que seja da vontade dos Òrìṣà que aconteça...

Iuri é, no melhor sentido da palavra, um visionário e com uma visão muito ampla do que é fazer arte numa comunidade afro-brasileira, entende que o grande propósito do seu trabalho é levar informação para minimizar o preconceito contra as religiões afro.

“Porque infelizmente o preconceito é tão forte, a falta de informação e tão grande... Se eu disser a você que tenho 50 alunos percussionistas aqui da Bahia, eu estou mentindo. Eu tenho aluno pianista francês, tenho aluno baterista chileno, eu tenho aluno americano, alemão. Mas os que são da Bahia, poucos conhecem. Conhece o quê? ijexá, agueré. Conhece de ouvir, assim de longe. Então, acho que na verdade nossa função é essa, é disseminar essa semente para que outros possam conhecer esse trabalho.”

 

CD Odun Orin, no qual Iuri é um dos percussionistas 

 

Quanto ao preconceito que o candomblé sofre da sociedade, Iuri é taxativo e responde sem titubear:

A melhor forma de diminuir o preconceito contra o candomblé é levar informação para quem não é de candomblé.”

Iuri nos traz uma problemática das instituições acadêmicas tradicionais de música, as quais não têm em seu rol de disciplinas, a música percussiva afro-brasileira:

“...Eu não aprendi nada da cultura da Bahia (na academia). só aprendi Beethoven, Bach, Mozart; que foi maravilhoso para minha formação, mas não é nossa essência, não é o que vou usar no meu dia a dia. Claro que eu estava estudando piano, então tinha que aprender, mas nas outras matérias, no decorrer do curso, tem horas que você começa entender que falta muito para formar o aluno no conhecimento.”

 

Categoria: Candomblés Antigos, Cultura, Família de Àṣẹ, História, Música, Tradição Escrita, Transmissão de Conhecimento
Comentários (21) e Compartilhar

Ìyá Nitinha de Òṣun

Publicado por Gill Sampaio Ominirô em 04/09/2014 às 16h00

 

Areonithe da Conceição Chagas, Ìyá Nitinha de Òṣun, nasceu no dia 12 de setembro de 1928, em Santo amaro de Ipitanga, na Bahia.

 

Filha de Izidora com um espanhol foi criada por Maria da Natividade Pereira, mais conhecida como “Cotinha”, Ògúnjobì, filha de santo da Casa Branca, mais precisamente do terceiro barco de Ìyá Massi, Oìnfunkẹ̀.

Aos quatro anos de idade, Ìyá Nitinha foi iniciada para Òṣun, por Ìyá Massi. Aos quatorze anos casou-se com um filho de Ògún do Jeje de Cachoeira - BA, conhecido como “Seu Benzinho”. Ele era Oluwò, ou seja, jogava os búzios para a Casa Branca, além de outras casas importantes. Desta União nasceram dois filhos, ambos Ogà da Casa Branca: Areelson (Ogà Léo) e Arehigino (Ogà Gininho), confirmados por Ìyá Massi.

 



Durante esta união Ìyá Nitinha galgou conhecimento sobre a nação Jeje, pois Seu Benzinho era um grande e respeitado Olùwò.
Tempos depois, ela passou a trabalhar nas profissões nas quais era formada, a saber, parteira e professora primária, na Comunidade do Portão - BA.

Mais tarde, um terceiro filho, Antônio Luís (Ogà Julinho).
No Ilé Àṣẹ Ìyá Nasó Oká - Casa Branca, recebeu os postos de Ìyátebeṣé, Ojúodé e Ìyákekeré. Também recebeu o posto de Ìyágà no Ilê Agboulá no bairro das Amoreiras em Itaparica - BA, sendo o maior posto dado a uma mulher no culto de Bàbá Egùn.


Fundou sua primeira casa de Candomblé em 1960, no Município de Santo Amaro do Ipitanga em Pitangueiras - BA.

 



E assim Ìyá Nitinha não parou e em 23 de abril de 1972 fundou a Sociedade Nossa Senhora das Candeias (Aṣè Ìyá Nassô Oká Ilê Òṣun) na Cidade de Nova Iguaçu - RJ, mais precisamente no bairro de Miguel Couto, na Baixada Fluminense.

Neste foram iniciados mais de 500 filhos de santo, Ogà e Ekèje.
Sempre correta em suas atitudes e dedicada aos seus trabalhos como Ìyáloriṣá, Ìyá Nitinha era um exemplo de respeito e cumplicidade para com os Òrìṣà, aos quais dedicou toda a sua vida.

Conheceu o Presidente Lula no Rio de Janeiro há dez anos e depois, em 2005, foi convidada pelo próprio Presidente para fazer parte da Comitiva Religiosa que participaria do funeral do Papa João Paulo II. Ao ser perguntada sobre o atraso que a fez perder o voo, Ìyá dizia: “O santo mandou ficar”.

Em 2007 foi condecorada com a Comenda da Ordem do Rio Branco, também pelo Presidente Lula em Brasília, maior condecoração que um civil pode receber no Brasil.


Ìyá Nitinha recebendo do presidente Lula a medalha da Ordem do Rio Branco, maior condecoração que pode ser recebida por um civil no Brasil.

 

Ìyá Nitinha era animada, exuberante e graciosa, mas também enérgica quando preciso. Conhecida nacional e internacionalmente, tinha filhos espalhados pelo Brasil, Argentina, França, Portugal, Itália, EUA dentre outros países. Conquistou sua fama por conta de seus conhecimentos e sapiência no Candomblé em suas diferentes Nações e também pela seriedade e leveza com que conduzia a religião e a Casa. 

 

 

 

Ìyá Nitinha não era apenas um exemplo de Ìyáloriṣá, tinha poder nas decisões e a magia no olhar, foi incontestavelmente uma das maiores lideranças religiosas na Bahia e no Rio de Janeiro.


Dia 04 de fevereiro é uma data inesquecível para o Candomblé do Brasil e principalmente para os filhos e descendentes da Casa Branca do Engenho Velho. Veio a falecer no Hospital Evangélico, em Brotas, onde estava internada há 12 dias, vítima de insuficiência respiratória. Foi sepultada dia 05 de fevereiro 2008, às 14h, no Cemitério Jardim da Saudade, também em Salvador - Bahia.

 

No terreiro da Casa Branca iniciaram-se no dia seguinte os rituais de Ajèjè, que tem duração de vários dias. O Ajèjè em Miguel Couto teve início em 12 de março de 2008, sob a direção do Bàbálòrìṣà Air José, do Terreiro Pilão de Prata e Pai Valdemar Ogunssy do Ilê Axé Alarabedê.

Fonte: http://www.maenitinha.com.br/ (com alterações no yorubá).

 

Uma Ìyáloriṣá importante para a cultura brasileira e mais ainda para a religião do Candomblé.

A Flor do Velho Engenho

Artista - Lucio Sanfilippo
Participação - Lucinha Pessoa
Direção - Rafael Eiras

 

Ìyá (poema)

Gill Sampaio Ominirò

 

Ìyá

Minúscula palavra do idioma yorubá

Lingüisticamente insignificante, monossilábica

Essa pequena palavra incorpora um sentido incalculável

Incorpora a força de todo um povo que se mantém regido pela feminilidade

Sob a égide do amor

E toda essa feminilidade se condensa numa pequena grande mulher...

 

Quem é essa mulher?

 

Quem é essa que traz um brilho intenso nos olhos rasgados?

Olhos doces, olhos de fogo!

O sorriso plácido... O olhar audaz!

 

Uma mulher...

Ou mais que uma mulher, uma geradora

Uma genitora de ventre cheio

 

Água doce do rio calmo, mas do rio fundo

Águas profundas: Ominíbú

 

Quem é essa mulher?

De onde vem tanta resistência?

Quem é essa mulher que me arranca do pesadelo?

Que visita meus sonhos?

 

Onde está quem lhe criou?

Que deusa lhe construiu?

Que guerreiro lhe semeou?

Que mulher é essa que me mostra o caminho e é a palmatória para meus erros?

 

Senhora de tão alta nobreza!

Ela é a própria divindade...

Ela é a Deusa

 

Mal lhe conheço

Mas me basta o brilho em seus olhos para eu saber quem ela é

Esse brilho doce de água em ebulição

Esse olhar de nobre baiana que põe um país inteiro aos seus pés

 

Quem é essa mulher que pode?

Que tudo pode?

De certo, nem ela mesma sabe como é grande e importante

 

É a grande mãe

Deusa da maternidade!

 

Ela é ela...

A que salva do abandono aqueles que se encontram sem dono

A que nos trás ao seu ventre

A que dispõe sempre um colo

 

Ela é a que não dança:       Flutua

Que não fala:                      Canta

Que não aconselha:           Reza

Que não acaricia:               Abençoa

 

Ìyá: pequena palavra que traduz uma gigante

A pequena gigante que tudo vence

Que ama

E que se encontrará eternamente cravada no escaninho mais sublime da minha alma

 

E que nome traz essa mulher?

Ìyá Nitinha

Tranquilamente poderia se chamar Ìyá Rainha

 

“Rainha Negra da Voz. Mãe de Todos Nós”

 

E ao mundo eu grito sem resistir:

Somente o fato de ser amado por ela e fazer parte de sua família...

Tornam válido o fato de eu existir



"Escrevi este poema em 2004 e tive o prazer de dizê-lo a ela, à Ìyá Nitinha, na cozinha de nossa casa de Candomblé em Miguel Couto, ela o ouviu e emocionada me aplaudiu."

Categoria: Antropologia, Àṣẹ, Ìyáloriṣà, Candomblés Antigos, Família de Àṣẹ, História, Tradição Escrita, Transmissão de Conhecimento
Comentários (4) e Compartilhar

left show tsN fwR|left tsN fwR uppercase fsN|left show normalcase fsN fwB|bnull||image-wrap|news normalcase c10|fsN fwR c10 normalcase|b01 c05 bsd|login news fwR c10 normalcase|tsN fwR c10 normalcase|signup|content-inner||