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Entrevista com Iuri Passos do terreiro do Gantois

Publicado por em 12/04/2015 às 20h20

Iuri Passos – as mãos e os ouvidos de um velho novo Candomblé do Brasil

 

 

Prestes a completar 35 anos de idade, Iuri é um prodígio na percussão, desde a batida sagrada dos atabaques do candomblé, passando pela sua participação no afro Grupo Ofá, com o qual gravou com excelência o CD Odun Orin, até a orquestração dos instrumentos percussivos quando acompanha a cantora Mariene de Castro com quem trabalha há mais de dez anos. Formado em música em nível superior, é um acadêmico educador e criador do projeto “Rum Alabê”, no qual ensina jovens a tocar atabaques com uma metodologia revolucionária que é a dos toques do candomblé transcritos para a linguagem musical da partitura, que é a representação escrita do abstrato da música.

 

Iuri é um baiano legítimo de São Salvador, Roma Negra iluminada pela beleza de seu povo. É filho do Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase, no alto do Gantois, nasceu dentro do terreiro e é sobrinho do venerável Yomar Passos, asọ́gbá do Gantois e de Tufi, bàbá tàlábi da mesma casa. Filho de Márcia de Ṣàngó que mora até hoje no terreiro. E foi no alto do Gantois que Iuri recebeu o pesquisador Gill Sampaio Ominirò para uma entrevista.

 

Vista do da entrada do barracão do terreiro do Gantois

 

Iuri foi iniciado com 11 anos de idade e nos conta que alcançou o convívio com Mãe Menininha que o protegia de sua mãe quando esta queria lhe dar “uns tapas”. Chamava Mãe Menininha carinhosamente de vó, restabelecendo laços biológicos através do candomblé, algo corrente na religião:

Ela criou todo mundo, era o aconchego.”

 

 Mãe Menininha

 

Iuri não é ọgá (ogan), foi iniciado para o Òrìṣà, porém não incorpora. Segundo ele, é uma tradição do Gantois na qual, os homens, os que não incorporam, são assim iniciados e recebem cargos na casa:

 

Eu sou filho de santo, não sou ogan”. Esclarece ele. 

Tradição Oral X Tradição Escrita

 

Sendo de uma das casas mais tradicionais de candomblé do Brasil, Iuri não aprendeu a fazer candomblé e ser de candomblé numa tradição escrita e sim oral, porém vê com bons olhos a possibilidade de se registrar parte dos ritos, o que no candomblé é, em geral, visto como censurável:

 

Gill, você tocou num assunto interessante porque eu tenho vivido muito isso na prática como educador. Estou desenvolvendo um método de escrita e aprendizagem dos ritmos do candomblé. E tenho sofrido muitas críticas a respeito disso, porque as pessoas antigas não entendem muito essa estrutura. Mas eu acho que tudo que serve como um facilitador nesse aprendizado é importante na nossa religião. Porque a gente passa por um momento muito crítico. Porque hoje muitas pessoas fazem questão de aprender mil cantigas do que aprender uma como se cantava em seu terreiro ou como os mais velhos aprenderam...

 

No trecho acima, Iuri exalta o aprendizado pela forma escrita, mas não em detrimento da tradição oral, demonstrando que sabe lidar sabiamente com as duas tradições sem que uma entre em choque com a outra, havendo um equilíbrio necessário para que se mantenha a essência da oralidade sem se deixar de registrar para a posteridade os ensinamentos do candomblé.

 

Mãe Carmem, que eu chamo de tia, ela vê muito o aprendizado dessa forma, que você tem que aprender oralmente. É o tempo dela, foi como ela aprendeu.

 

Mãe Carmem, atual sacerdotisa do Gantois

 

Aí a demonstração do respeito pela oralidade, pela ancestralidade daqueles que formaram e perpetuaram o candomblé pela difícil via da tradição oral.

 

Eu sou a favor de qualquer registro, claro, com orientação, não um registro para se colocar na Internet, no Youtube, mas uma coisa que preserve...” Diz o músico.

 

 

O Iuri arranjador

 

Em 2010, foi lançado o livro “Pèrègún e Outras Fabulações da Minha Terra”, por Félix Ayoh’OMIDIRE, professor de línguas e de estudos culturais e literários na Obafemi Awolowo University, Ilé Ifẹ, na Nigéria e professor da UFBA. E na sequência um CD de mesmo nome. O CD é uma coletânea apresentada no exercício da memória de Félix Ayoh'OMIDIRE que nos oferece a oportunidade de entrarmos em contato com narrativas de uma cultura com a qual a maioria dos afro-brasileiros, consciente ou inconscientemente, vem dialogando há muito tempo. Com direção artística de J. Velloso e a percussão dos Alágbè do Gantois, “Pèrègún” tem arranjos do nosso entrevistado:

 

Eu conheci Felix aqui no Gantois, ele veio a uma festa de candomblé e ficou muito encantado com os toques a ponto de dizer que estava se sentindo na África. A gravação foi algo meio que mágico. Félix ia cantando e eu marcando no gan e dando os ritmos. Jotinha achava que levaríamos uma semana e no final levou mais ou menos cinco horas.”

 

O CD Pèrègún possui vinte e quatro faixas cantadas em yorubá por Félix e sua família com base rítmica dos toques do candomblé, desde o “agueré” até o “ilú”, passando pelo “ijexá”, dentre outros. Uma obra musical extraordinária, original e rara, repleta de significados e significantes numa aura magistral e divina. Não há como não se emocionar às vezes na audição.

 

“...É um momento tão importante, porque justamente quando você ouve o yorubá e vê a África encontrando aquilo que separou um pouco. E musicalmente é tão rico porque você tem a oportunidade de ouvir o yorubá cantado da forma que é. E eu ficava torcendo para aquilo não acabar no estúdio... Não que o nosso não seja lindo, mas a gente sabe que por várias interferências a gente perdeu muita coisa... Eu acho que é um marco na musicalidade dos discos que já foram gravados. É um africano cantando em cima dos ritmos do candomblé. Isso é algo que não existe.”

 

Pèrègún é um encontro do candomblé conservado em azeite com uma África que não conhecemos mais, com um yorubá in natura. Esta obra é mais que um CD de músicas, é um elo perdido entre Salvador e Ilé Ifẹ.

 

 

Sobre novos projetos, Iuri nos informa, em primeira mão, que está debruçado sobre as sonoridades da “Santeria”, que é um sistema religioso que funde crenças católicas com a religião tradicional yorubá, praticado em Cuba, Porto Rico, na República Dominicana, Venezuela, no Panamá e em centros de população latino-americana nos Estados Unidos como Florida, Nova York, e Califórnia.

Meu projeto agora é com um amigo meu que se chama José Esquerdo, que é um chileno e que tem uma musicalidade toda formada pela Santeria Cubana. Meu projeto com ele agora é fazer algumas coisas de candomblé com a Santeria, usando os batás. Estamos selecionando canções e tendo encontros e que seja da vontade dos Òrìṣà que aconteça...

Iuri é, no melhor sentido da palavra, um visionário e com uma visão muito ampla do que é fazer arte numa comunidade afro-brasileira, entende que o grande propósito do seu trabalho é levar informação para minimizar o preconceito contra as religiões afro.

“Porque infelizmente o preconceito é tão forte, a falta de informação e tão grande... Se eu disser a você que tenho 50 alunos percussionistas aqui da Bahia, eu estou mentindo. Eu tenho aluno pianista francês, tenho aluno baterista chileno, eu tenho aluno americano, alemão. Mas os que são da Bahia, poucos conhecem. Conhece o quê? ijexá, agueré. Conhece de ouvir, assim de longe. Então, acho que na verdade nossa função é essa, é disseminar essa semente para que outros possam conhecer esse trabalho.”

 

CD Odun Orin, no qual Iuri é um dos percussionistas 

 

Quanto ao preconceito que o candomblé sofre da sociedade, Iuri é taxativo e responde sem titubear:

A melhor forma de diminuir o preconceito contra o candomblé é levar informação para quem não é de candomblé.”

Iuri nos traz uma problemática das instituições acadêmicas tradicionais de música, as quais não têm em seu rol de disciplinas, a música percussiva afro-brasileira:

“...Eu não aprendi nada da cultura da Bahia (na academia). só aprendi Beethoven, Bach, Mozart; que foi maravilhoso para minha formação, mas não é nossa essência, não é o que vou usar no meu dia a dia. Claro que eu estava estudando piano, então tinha que aprender, mas nas outras matérias, no decorrer do curso, tem horas que você começa entender que falta muito para formar o aluno no conhecimento.”

 

Categoria: Candomblés Antigos, Cultura, Família de Àṣẹ, História, Música, Tradição Escrita, Transmissão de Conhecimento
Tags: afro, candomblé, Gantois, orixá, tradição escrita, tradição oral

Comentários

Levi de Souza em 24/04/2015 11:18:56
Parabéns pela beleza musical e pela manutenção das tradições do Asè. Avalio quanto história bonita esse moço tem pra contar. Aguardo mais entrevistas.
Paulo Vasconcelos em 24/04/2015 00:42:41
Parabéns meu irmão Yuri pela importante entrevista!
Grande percussionista!
aidil da silva junqueira em 18/04/2015 21:24:27
Parabéns.Precisamos mostrar que somos gente que faz verdadeiro orgulho das nossas raizes afro brasileira..

jorge Miguel em 18/04/2015 10:01:05
Adorei a entrevista e concordo que o uso de ensino escrito pode sim facilitar um pouco mais. Claro que mantendo o respeito e a essência.
Estou louco agora querendo ouvir esse cd.
Eduardo Vyllaronn em 18/04/2015 06:22:41
Parabéns irmãos de Asé e sua benção! Linda e Valiosa iniciativa de registro e perpetuação de nossa cultura. Que nossos divinos ancestrais e Orisás nos permitam e proporcionem oportunidades como estas de darmos as mãos e elucidar a riqueza do patrimônio religioso afro-brasileiro. E que sim possamos ampliar e compartilhar nossos conhecimentos em prol de uma cultura reagrupada sob a luz da sabedoria e da honra de fazermos parte da herança chamada Asé!
Um forte abraço a todos e desejo de sucesso nos vários projetos que este ainda vai inspirar às futuras gerações.
FABRICIO MAX ALVES em 15/04/2015 22:51:00
ADOREI A ENTREVISTA ...ENRIQUECEDORA DEMAIS !!!!!!!!
Bara T Esu em 15/04/2015 22:15:38
Gostaria muito de ter estes cds gostei muito da entrevista temos que divulgar mais nossa cultura abraços muito ase a vc parabens abraços.
Júlio César em 15/04/2015 12:31:52
Matéria excepcional, com grandes conquistas e culturas não vistas. Ficou muito bom, ase à todos.

ronaldo em 15/04/2015 10:53:01
Muito boa a entrevista gostei muito.
Andrezza Lima em 14/04/2015 23:13:56
Excelente! Concordo com ele quando diz que precisamos registrar conscientemente o Candomble. Vejo por aí que muitas cantigas e rezas estão se perdendo. Maravilhoso o trabalho que ele realiza!
Denise Santos em 14/04/2015 22:02:37
Achei belíssima esta entrevista
marcos reis em 14/04/2015 20:18:00
olá yuri motumbá
sou do ferreira santos só para vc lembrar rs.
lir sua entrevista e gostei muito.
parabéns.
guycap em 14/04/2015 12:02:49
Acho que muita gente em Haïti, em Cuba, em Belize, e outras islas do Caribe, algumas cidades da costa de Venezuela, do Ecuador e da Colombia gostariam de conhecer o novo velho Candomble brasileiro
lenna anscimento em 14/04/2015 09:16:20
amei essa entrevista Yuri realmente é um grade representante da musica e percussão da nossa religião! Parabéns meu irmão e primo sucessos que oxum te abençoe!
Valdete Freire Dias em 13/04/2015 21:36:33
Como posso adquirir o livro e o CD?
A onde encontrar, compro muitos livros sobre o candomble e ainda não vi em nenhuma livraria "PEREGUN".

Grata,
Valdete
Victor em 13/04/2015 12:23:41
Oi sou Victor de Oxala (Oxaguian) não sou feito ainda mas minha esposa sim, é feita de yemonja. Mesmo não sendo feito tenho orgulho de ter sido escolhido por orisá nessa terra eu e minha esposa somos muitos honrrados. E pretendo sim me recolher e ser mas um dessa familia nosso baba é um homem de dar orgulho o melhor pai do mundo baba lorixa Tom avanza. Assim como é uma honrra saber um pouco sobre Vocês. obrigado pela atenção MOTUMBÁ
Ramiro Barbosa em 13/04/2015 11:59:32
Maravilha saber que existem jovens sérios pensando de maneira a garantir a sobrevivência de nossas raízes memoriais. Percebe-se seriedade e respeito desse irmão durante sua entrevista. Procurarei conhecê-lo pessoalmente.
Flávio Galvão em 13/04/2015 11:19:41
Iuri,
Fico feliz e orgulhoso de seu crescimento e evolução, tanto profissional quanto espiritual!
Ogum lhe dê caminhos de boa sorte e muitas conquistas! Bj
Percival Lemos em 13/04/2015 10:48:36
Irmão Iuri Passos, fico feliz por voce e também saber que ajudas com seu trabalho e talento a divulgar e registrar nossas ancestralidades e raizes afro-brasileiras. Parabéns e um grande abraço.
Luis Leal em 13/04/2015 08:40:52
Parabéns Gil gostei muito da entrevista
MAURILIO em 12/04/2015 23:23:31
estive no Gantois e me apaixonei. estive ai em março...volto em junho...onde comprar esses cds?

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