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Agbo Ṣàngó

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 10/01/2017 às 19h15

Roda de Xango

 

A possível origem

 

O conjunto de cânticos que formam a Roda de Ṣàngó reproduz a epopeia deste Òrìṣà e de sua família, incluindo então, Dàda Àjàká, Yemọja e Ìyámase e também um personagem que fez parte da sua vida, o Òrìṣà guerreiro da cidade de Savè, Aira.

 

A arregimentação destes cânticos na construção da Roda certamente teve sua origem na fase posterior à embrionária da organização do Candomblé na Casa Branca do Engenho Velho, o venerável Ilé Àṣẹ Ìyá Nasò Oká, pois, até então, na organização do candomblé na Barroquinha em Salvador, Bahia, as divindades que perfaziam o culto eram Aira e Ọ̀ṣọ́ọ̀sí.

 

Assim, somente na fase posterior, já no Engenho Velho da Federação, quando o  comando do Ilé Àṣẹ Ìyá Nasò Oká estava sob a égide dos Ọ̀yọ́, portanto, da sacerdotisa chamada Ìyá Nasò e, consequentemente, de Ṣàngó é que a Roda deve ter sido estruturada. Não é possível precisar uma data, mas o mais provável é que a organização deste ritual tenha se dado após 1830.

 

Cumieeira da Casa Branca

Símbolo de Ṣàngó sobre a cumeeira da Casa Branca do engenho Velho em Salvador - BA

 

A importância, o fascínio e o descaso

 

Não há dúvidas de que os cânticos da Roda de Ṣàngó perfazem nas comunidades yorubá (jeje-nagô), de Candomblé uma enorme fascinação. Não raro, encontram-se pessoas ávidas por aprender a cantá-los e saber suas respectivas traduções. Mas infelizmente, naufragam no desconhecimento ou mesmo na insistência dos “antigos” em não transmitir tal conhecimento, legando à epopeia um destino de extinção, de esquecimento. Não à toa, os cânticos são entoados nas festividades de maneira nitidamente deturpada. Diante disso, faz-se mais que necessário a transmissão ilimitada dos significados e dos significantes destes cânticos.

 

 

A Roda é um ritual

 

Esta sequência de poemas cantados não é simplesmente um conjunto de cânticos utilizados para ritmar a dança. Como todos os cânticos em louvor aos Òrìṣà, ela conta a biografia de uma ou mais divindades, perfazendo uma mitologia sagrada. Neste caso especificamente, trata-se da mitologia de Ṣàngó e demais divindades que fizeram parte de sua existência mitológica!

 

O ritual se dá com som, dança, fé e muita concentração: Forma-se, então, um grande e único círculo com todos os adeptos de frente para a pilastra central da casa, geralmente dedicada e sacralizada a Ṣàngó.

 

A presença da Agbeni Ṣàngó, sacerdotisa do culto deste Òrìṣà, é fundamental, pois é ela a responsável por organizar o ritual e distribuir os ṣẹ̀rẹ̀, instrumentos por excelência de Ṣàngó os quais reproduzem o barulho da chuva. A palavra ṣẹ̀rẹ̀ é a contração da palavra ṣẹ̀kẹ̀rẹ̀, que quer dizer chocalho. São os ọgá (sacerdotes auxiliares) que empunham o ṣẹ̀rẹ̀ e os rodam acima de suas cabeças, todos ao mesmo tempo, gerando o efeito desejado de se reproduzir o barulho da chuva.

 

Mas, antes de tudo, os ọgá encostam os ṣẹ̀rẹ̀ no chão por três vezes, dizendo palavras em louvor a Ṣàngó (em yorubá), e erguendo-os para o alto, em direção ao cume da pilastra. Ao fazerem isso, os demais adeptos se prostram e tocam levemente a cabeça no chão, demonstrando respeito e pedindo àṣẹ.

 

Ao se iniciar os cânticos, o agradecimento (dúpẹ) ao Rei compõe as primeiras estrofes, pois se trata de um privilégio dos mortais poder louvar e ver Ṣàngó. A primeira sequência se dá em ritmo bàtá, o qual é cadenciado. O movimento do corpo neste momento é feito para frente e para trás e os braços curvados à frente do peito com leve abertura, que se faz na cadência do ritmo. Ao se iniciar os cânticos em referência à Dàda Àjàká, os dançantes movimentam a cabeça de um lado para o outro, como numa negativa.

 

A segunda sequência se dá em ritmo ogelé, díspare do bàtá, pois são um pouco mais acelerados. Os cânticos evoluem para um clímax no qual as últimas cantigas indicam um àlúja menos acelerado, mas não menos inebriantes, tendo em vista que ele conduz às manifestações dos Òrìṣà. Neste momento, todas as divindades, com exceção de Ọbalúwàiyé e Nàná, se fazem presentes no terreiro em respeito ao Rei dos Yorubá.

 

Todo o ritual é carregado de significados e significantes e a emoção toma conta dos presentes, sejam da assistência leiga ou dos envolvidos mais diretamente com a cerimônia. É um momento de louvor à divindade da governabilidade, a qual se pede cotidianamente por dias melhores. E este aspecto de divindade governante será ilustrado nos cânticos que compreendem sua saga mítica. A presença de Yemọja se dá no âmbito da mitologia, na qual Ṣàngó seria seu filho, o que difere da História oficial da Nigéria, a qual reza que o 4º Aláàfin de Ọ̀yọ́ era filho de Torosi, Àyaba Nupe, filha do rei Elempẹ que viveu em 1460 a.C. e era tia de Ọya. Seu pai era Ọ̀rànmíyàn.

 

Xango 

 

As variações, o efeito da oralidade e a complexa uniformização da Roda

 

Algumas famílias de àṣẹ iniciam a Roda com uma sequência tríade para os Onílẹ̀, os Senhores da Terra, para somente depois iniciarem os cânticos para Ṣàngó. Já em outras, a sequência já se inicia com os cânticos para o Ọba.

 

Vejamos os cânticos da sequência tríade para os Onílẹ̀:

 

Onílẹ̀ mo júbà o

Ìbà Òrìṣà, ìbà Onílẹ̀

 

E pa’gbo o

E pa’gbo ó wa tan’gala

A tan’gala nilẹ̀ kò rò ó

Ẹ pa’gbo ẹrù jẹ́jẹ́

 

Toto n’ilẹ̀ kò rò ó

Aye kuru

 

Nesta gama de variações, há cânticos que não são contemplados nas Rodas de alguns àṣẹ, mas são em outros. Nesta perspectiva, os adeptos por vezes precisam saber todos os cânticos, sob pena de ficarem “perdidos” na evolução da cerimônia.

 

É fato que a tradição oral, ao longo das décadas, séculos, assegurou a perpetuação da estrutura básica da Roda, porém, permitiu a deturpação fonética de seus cânticos, quase que aniquilando as possibilidades de tradução.

 

Assim, é possível ouvir palavras que notadamente não fazem parte da lógica da tradução dos cânticos como “acarajé”, “fala orixá”, “acutã”, dentre outras. Ou pior, identifica-se em algumas Rodas a inserção de cantigas que delas não fazem parte, mas que a ela são adicionadas apenas pelo fato de serem do ritmo bàtá.

 

Por outro lado, há ainda o agravante da enorme variação do formato da Roda. Desta forma, buscar por um modelo único é um purismo inócuo. A forma como se apresentam as Rodas, Brasil a fora, varia de tal forma que inviabiliza qualquer tentativa de criação de um padrão que sirva de modelo a todos.

 

Diante disso, em 2005, o antropólogo, professor e bàbálòrìṣà José Flávio Pessoa de Barros, filho de Ìyá Nitinha de Ọ̀ṣun da Casa Branca do Engenho Velho, lançou o livro “A Fogueira de Xangô, o Orixá de Fogo”, (Pallas, ISBN 8534703507), fruto de uma imensa pesquisa que resultou na transcrição dos cânticos, não todos, e num yorubá minimamente traduzível. No livro é possível encontrar a descrição do ritual da Fogueira, que na realidade é de Aira e não de Ṣàngó, e a transcrição de algumas rezas e os cânticos da Roda, todos traduzidos, mas de forma ligeiramente diferente das traduções aqui apresentadas.

 

Xango

 

 

 

Àwọn Orin Agbo Ṣàngó

Os Cânticos da Roda de Ṣàngó

 

 

1ª Sequência em ritmo bàtá: 

 

Àwa dúpẹ ó, ọba dodé

À dúpẹ ó, ọba dodé

 

Tradução:

 

Nós agradecemos, o Rei chegou
Nós agradecemos, o Rei chegou

À dúpẹ ni mọ ọba, ẹ kú alé

À dúpẹ ni mọ ọba, ẹ kú alé

Ò wá, onílẹ̀

À dúpẹ ni mọ ọba e kú alé

 

Tradução:

 

Nós agradecemos por ver o Rei, boa noite vossa majestade
Nós agradecemos por ver o Rei, boa noite vossa majestade
Ele veio, está na Terra

Nós agradecemos por ver o Rei, boa noite vossa majestade


Fé lè, fé lè

Yemọja wèkun

Yemọja wèkun

Àgó firè mọn

Àgó firí mọn

Àjàká igbá ru, igbá ru

Ó wá e

Fé lè, fé lè

 

Tradução:

 

Ele quer... ele quer vir
Yemọja lava no mar

Yemọja lava no mar
Dê-nos licença para vermos através dos seus olhos e conhecer-vos

Dê-nos licença para vermos através dos seus olhos e conhecer-vos

Àjàká carrega na cabaça, carrega na cabaça a água do mar
Então estas de volta

Ele quer... ele quer vir

Ṣàngbà, Ṣàngbà

Didé òní Igbòdo

Ọdẹ ni mó

Syìí ó òní ó

 

Tradução:

 

Executou feitos maravilhosos, executou feitos maravilhosos
Levantou-se sobre Igbòdo
Os caçadores sabem disto

 

Òní Dàda

Àgó lá rí 

 

Tradução:

 

Senhor Dadá,

Permita-nos vê-lo

 

Dàda má sọkún mọ́

Dàda má sọkún mọ́

Ò fẹ̀ẹ̀rẹ̀ ó ní fẹ̀ẹ̀rẹ̀,

Ó gbé l’ọ̀run

Bàbá kíní l’ọnọ̀n da rí

 

Tradução:

 

Dadá, não chore mais filho

Dadá, não chore mais filho
É franco tolerante, ele vive na outra dimensão

É o pai que olha por nós nos caminhos

 

Báyànni gìdigìdi

Báyànni ọlà

Báyànni gìdigìdi

Báyànni ọlà

Báyànni adé

Báyànni òwò

 

Tradução:

 

Báyànni é muito forte, como um animal

Báyànni é honrado

Báyànni é muito forte, como um animal

Báyànni é honrado

A coroa de Báyànni

A coroa de Báyànni é cheia de dinheiro (búzios)

 

Báyànni adé

O adé Báyànni 

 

Furà ti ná

Furà ti ná

Furà ti ná

Àrá lò si sá jó

 

Tradução:

 

Desconfie do fogo, desconfie do fogo

Desconfie do fogo, desconfie do fogo

Desconfie do fogo, desconfie do fogo

O raio é a certeza de que ele queimará

 

Onílẹ̀ mo júbà o

Ìbà Òrìṣà

Ìbà Onílẹ̀

           

Tradução:

 

Senhor da Terra, meus respeitos

A benção Òrìṣà

A benção Senhor da Terra 

 

2ª Sequência em ritmo ogelé:

 

Ọ̀ràín a lóòde o

Bara ẹni ja, ènia rò ko

Ọba nù Ko so nù ré lé ó

Bara ẹni já ènia rò ko

O níìka si bẹ̀ l’ọ̀run!

 

Ọbalubẹ kẹrẹjẹ

O níìka won bọ l’ọ̀run

Kẹrẹjẹ ẹran àgùtòn

Itẹtu pàdé wa l’ọnọ̀n

O níìka si relé

Ìbò si

Òràn in a lóòde

Bara ẹni já ènia rò ko

 

Tradução:

Sim, a circunstância o colocou de fora
O mausoléu quebrou, não foi usado
O rei não se enforcou, não se pendurou

Sumiu no chão e reapareceu
O mausoléu quebrou, não foi usado
O rei não se enforcou, não se pendurou
Sumiu no chão e reapareceu

Ele é cruel, olhou, retornou para o mundo dos espíritos
Deu um grito para enganar

Ele é cruel, olhou, retornou para o mundo dos espíritos
O carneiro mansamente procura e encontra o caminho
Ele é cruel contra os que humilham
A consulta ao ìbò foi negativa
O verdadeiro senhor é contra juras traiçoeiras
Sim, a circunstância o colocou de fora

O mausoléu quebrou, não foi usado

 

Ọba ṣẹ̀rẹ̀ la fẹ̀hinti

Ọba ṣẹ̀rẹ̀ la fẹ̀hinti

Ọba nwa’iyé bẹ l’ọ̀run

Ọba ṣẹ̀rẹ̀ la fẹ̀hinti

Ọba nwa’iyé bẹ l’ọ̀run

Ọba ṣẹ̀rẹ̀ la fẹ̀hinti

 

Tradução:

 

Inclinem-se! O rei do ṣẹ̀rẹ̀ se salvou
Inclinem-se! O rei do ṣẹ̀rẹ̀ se salvou
Supliquem ao rei que existe e vive na noutra dimensão

Inclinem-se! O rei do ṣẹ̀rẹ̀ se salvou

Ẹiyẹ kékeré

Adó òsi arálé

Ìyá l’ódò Mase

Ẹiyẹ ko kéré l’anú

Ṣ’oko ìyágbà

Ìyá l’ódò Mase

 

Tradução:

 

O pequeno pássaro

Na cabeça, é da esquerda, é parente

Da mãe do rio, Mase.

O pequeno e sofrido pássaro foi apanhado com gentileza

Pela grande mãe do rio, Mase

 

Aira òjo

Mó péré sè

A mó péré sè

 

Tradução:

 

A chuva de Aira,
Limpa, mas faz barulho como um tambor
Ela limpa, mas faz barulho como um tambor

 

Ọba a níwà àwúnre

Ọba a àwúnre níwà

Ọba a níwà àwúnre

Ọba a àwúnre níwà

Ọba lugbẹ́ ọba l’adó

Ọba l’adó ri ṣọ́

Ọba l’àiyé

Ọba l’adó ri ṣọ́

Ọba l’àiyé

 

Tradução:

 

Rei, nós temos a existência e a boa sorte

Rei, nós temos a boa sorte e a existência

Rei, nós temos a existência e a boa sorte

Rei, nós temos a boa sorte e a existência

O rei afastou os maus, o rei do pilão

O rei do pilão olha e arremessa

 

Olówó

Kó mà bò, mà bò

E kó mà bò

Olówó

Kó mà bò, mà bò

Aláàfin Òrìṣà

 

Tradução:

 

Abastado Senhor

Aquele que dá proteção, dá proteção

Aquele que dá proteção

Abastado Senhor

Aquele que dá proteção, dá proteção

Òrìṣà, rei de Ọ̀yọ́

 

Ọmọ àsìkó Bẹ̀rẹ̀

Èkó inọ́n, èkó inọ́n

Ọmọ àsìkó Bẹ̀rẹ̀ èkó inọ́n

Lòóde roko

Ọmọ àsìkó Bẹ̀rẹ̀

Èkó inọ́n, èkó inọ́n

Ọmọ àsìkó Bẹ̀rẹ̀ èkó inọ́n

Èrù njẹ́jẹ́

 

Tradução:

 

Os filhos, com o tempo, iniciaram o culto do

Fogo de Èkó (cidade de Lagos), o fogo de Èkó
Os filhos, com o tempo, iniciaram o culto do

Fogo de Èkó ao redor das plantações

Os filhos, com o tempo, iniciaram o culto do

Fogo de Èkó (cidade de Lagos), o fogo de Èkó
Os filhos, com o tempo, iniciaram o culto do

Fogo de Èkó com medo extremo

 

Xango

 

 

xango

 

 

xango

 

 

xango

 

 

ose sango

 

 

Categoria: Antropologia, Àṣẹ, Candomblés Antigos, Cultura, Família de Àṣẹ, História, Livros, Música, Mitologia, Rituais, Tradição Escrita, Tradução, Transmissão de Conhecimento
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Tradição Oral e Escrita

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 28/11/2016 às 20h42

Quais os rumos do candomblé na transmissão de conhecimentos?

Por Gill Sampaio Ominirò

 

A tradição oral foi nossa grande aliada na perpetuação das regras, preceitos e ritos do candomblé. Sem ela, sequer esta religião teria se estruturado e, consequentemente, existido. No entanto, a modernidade com seus meios de comunicação digital nos impele à necessidade de se criar uma tradição escrita, sob pena desta tradição se tornar apenas um reflexo na memória das “melhores cabeças” e não um compêndio de informações estáveis para a posteridade.

 

Sem a escrita, o registro, a religião poderá desaparecer, já que os antigos sacerdotes, em geral, não transmitiram (muitos continuam ainda não transmitindo), boa parte do que sabiam aos mais novos. E estes antigos, obviamente, tinham suas razões. É fato que a perseguição aos que cultuam Òrìṣà no Brasil era tamanha nos séculos passados que o segredo se tornou demasiadamente importante e, nesta perspectiva, a oralidade se tornou o meio mais confiável para transmissão de ensinamentos, repetindo uma tradição yorubá de educação. Bem por isso, ganhou a relevância que possui no candomblé, tornando uma instituição.

 

No entanto, este “segredo” hoje é parte do que mais destitui o candomblé de seus ritos ancestrais. Ele é o gerador de dúvidas, principalmente entre os não adeptos e, estas dúvidas que permeiam o inconsciente coletivo da sociedade brasileira fazem com que o candomblé, ou mesmo as religiões afro-brasileiras como um todo, se torne uma religião macabra, obscura e temerária, principalmente porque somete um aspecto desta religião é apresentado à sociedade pelos inimigos da liberdade religiosa e de forma deturpada.

 

A tradição escrita precisa ganhar espaço no candomblé de maneira consciente e sistemática. Os sacerdotes precisam transmitir informações também pelo uso de apostilas, livros e demais canais de informação aos seus ìyawó, para que não aconteçam as distorções e deformações dos ritos, algo que se tem visto com mais frequência. Por outro lado, os adeptos que não são instruídos sobre sua religião também são abarcados pela mesma ignorância que acomete os não adeptos, perfazendo um conjunto de leigos que independe do grau de proximidade com a religião em questão. Assim, muitos iniciados novos (e alguns já velhos), não sabem o básico do yorubá, não sabem cantar as cantigas corretamente ou mesmo rezar. E quando sabem, não têm a menor ideia do que elas querem dizer, minando a fé que se torna frágil de ante do desconhecido.

Não sabem sequer o que é o candomblé enquanto religião institucionalizada, sua história e origem.

 

Vale ressaltar que se condicionou, ou melhor, virou uma espécie de moda generalizada dizer que o candomblé é uma religião de “matriz africana” como se isto explicasse tudo e, mesmo assim, não se transmite a informação mais pertinente do que é ser de matriz africana, do que é ter uma matriz e do que é uma matriz propriamente dita. Assim, esta gama de desinformações somente fragiliza a estadia dos iniciados na religião e, consequentemente, facilita que eles sejam cooptados por outras religiões, nitidamente “pescadoras” de fiéis.

 

Os antigos repudiavam (alguns ainda repudiam), os livros sobre candomblé, mas hoje até mesmo os livros deixaram de ser nossos aliados mais profícuos de transmissão de conhecimentos, tornando-se, porém, importantes veículos para o registro destes conhecimentos. A Internet, no entanto, poderia se tornar nossa maior aliada. Porém a ineficiência de muitos sites e blogs, muitas vezes, mais deturpa o conhecimento do que ameniza as dúvidas. É raro um canal de informação na Internet no qual se possa confiar e isto muito se deve justamente às consequências da transmissão oral do conhecimento. Outro canal que poderia ser demasiado importante, mas não o é, são as redes sociais, principalmente o Facebook. Esta rede que está hoje na maioria das casas e celulares dos brasileiros desperdiça informações, gera debates inúteis e cria e sedimenta desinformações, desserviços na ânsia de muitos que pretendem criar tradições à força, alicerçadas unicamente na sua ignorância sobre o àṣẹ!

 

Importante destacar também que a tradição oral não é um traço pejorativo quando comparada às tradições que possuem escrita. Há entre elas apenas uma diferença quanto ao modo de transmissão de conhecimentos. Uma sociedade oral distingue o discurso não apenas como um meio de comunicação diária, mas também como um meio de preservação da sabedoria dos antepassados. A tradição pode ser assim determinada como um depoimento transmitido verbalmente de uma geração para outra. A grande questão que se apresenta é a perda significativa de informações que ou são transmitidas de maneira limitada ou sequer são transmitidas e os sacerdotes mais jovens que nascem com o dom e a missão de cuidar das cabeças alheias precisam efetuar as práticas rituais. E, caso não possuam o conjunto de informações suficientes para executar estas práticas, eles irão complementar o rito de acordo com sua consciência, ou seja, eles vão “inventar” novas tradições, novos ritos.

 

Diante disso, as casas e adeptos mais tradicionais irão depreciar imensamente esta prática de “inventar” novas tradições. Porém, em geral, estas invencionices são o resultado, são a reação à falta de transmissão de conhecimentos que produz os chamados vulgarmente de “marmoteiros”, e não uma ação aleatória ou de má fé. Ao menos, em geral.

 

Portanto, é preciso uma nova postura dos integrantes do candomblé, não só na aceitação e escolha dos meios de transmissão de conhecimento como também na postura em relação ao conteúdo a ser transmitido, tanto quantitativamente como qualitativamente. É necessário uma reflexão sobre o que ensinar, quando ensinar e o porquê de não se ensinar as práticas, os ritos, os cânticos e rezas, as danças e, principalmente, a história da consolidação da religião no Brasil.

 

“Ọmọ ni yíò jogún ẹwa lọ́dọ̀ wa”

É a criança que herdará nossa beleza.

 

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Equede - a Mãe de todos

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 04/05/2016 às 18h35

Na semana do dia das mães, livro sobre as Mães-Equedes do Candomblé é lançado em São Paulo.

 

 


Na próxima sexta-feira, 06 de maio, a tradicional Biblioteca Mário de Andrade recebe o Lançamento do livro "Equede - a Mãe de todos".


Publicado pela Editora Barabô, o livro é um testemunho de Gersonice Azevedo Brandão, nacionalmente conhecida como Equede Sinha, uma das principais sacerdotisas do Ilé Àṣẹ Ìyá Nasò Oká, a venerável Casa Branca do Engenho Velho, Salvador - BA, fundada em 1830, sendo a primeira casa de Candomblé oficial no Brasil.

 

 

Eu sou uma equede. E uma equede é uma mãe. Então, não me vejo em outra função dentro do axé. Porque eu sou mãe. E não sei mais separar a mãe genética da mãe religiosa

 

Diz Equede Sinha, no livro organizado por Alexandre Lyrio e Dadá Jaques, que traz histórias inéditas em 172 páginas, além de mais de 200 fotos, tanto do acervo pessoal da autora e da Casa Branca, quanto dos fotógrafos Dadá Jaques, Flávio Damm e da Fundação Pierre Verger.


"Equede" é um cargo, uma função na hierarquia do candomblé, o qual concentra os poderes maternais do acolhimento, do zelo e da educação. Do yorubá “èkejì”, equede é o braço direito da Ìyálòrìṣà e zela tanto pelos òrìà quanto pelos filhos de òrìṣà de uma casa, um templo, perfazendo, assim, seu perfil inequívoco de Mãe. A partir do relato de Equede Sinha é possível mergulhar no universo de um dos mais famosos terreiros de candomblé nagô no país, na trajetória de mães e mulheres negras na formação da cultura e identidade afro-brasileiras, assim como a sua própria resistência.

 

 

O lançamento de "Equede - a Mãe de Todos" contará com a presença da escritora, apresentação cultural do Afoxé Ilú Egbá e é organizado pelo Grupo Ìkórítá, formado por professores, jornalistas, comunicadores, artistas plásticos, dentre outros; todos adeptos do Candomblé que se unem para o enfrentamento e combate à intolerância religiosa contra as religiões afro-brasileiras e de matriz africana e é o mobilizador da Marcha do Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa

 

Serviço:

Biblioteca Mário de Andrade

Endereço: Rua da Consolação, 94, Centro, São Paulo - SP

Data: 6 de maio, sexta-feira

Horário: 19:30h

Valor do livro: R$ 150,00 

Realização: Grupo Ìkórítá

Apoios: Prefeitura Municipal de São Paulo, Deputada Leci Brandão, Biblioteca Mário de Andrade, B.L Produções e Ìwé Ìmọ̀ - Candomblé sem Segredos.

 

 

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Curso de Direitos e Deveres dos adeptos do Candomblé

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 16/01/2016 às 22h00

 

Em tempos de intolerância religiosa é preciso encontrar saídas jurídicas para o combate a este mal.

  

Assim, o Instituto Itesa de Tecnologia, Especialização e Aprimoramento, no seu seguimento de Diversidade e Inclusão, promove o curso sobre Direitos e Deveres dos adeptos do Candomblé, da Umbanda e demais religiões afro-brasileiras com o prof. Dr. Hédio Silva Jr. Trata-se do curso Organização de Espaços Religiosos: aspectos jurídicos do sacerdócio.

 

Para quem não o conhece, o Professor Dr. Hédio Silva Jr. é advogado, doutorado pela PUC-SP. Foi Conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção São Paulo, na qual foi também Presidente das Comissões de Direitos Humanos e Liberdade Religiosa.

 

Não bastasse tudo isso, Dr. Hédio foi o primeiro negro a assumir a Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo, entre 2005 e 2006. Ainda foi indicado pelo Movimento Negro e pela organização “Conectas Direitos Humanos” como um dos advogados destacados para defender, na tribuna do Supremo Tribunal Federal, as ações afirmativas para negros no acesso à educação superior.

 

A Ìwé Ìmọ̀ conversou com o jurista para saber um pouco mais sobre sua vida e sua luta em prol das religiões afro. Vejam>>

 

Dr. Hédio, quais os motivos pelos quais o senhor resolveu defender as religiões afro-brasileiras. Por que resolveu dedicar sua vida em razão de um bem coletivo?

 

Tenho compromisso existencial e político com a luta contra o racismo. A intolerância contra as Religiões Afro-brasileiras é uma das formas mais abjetas de racismo religioso. Sinto-me lisonjeado com a pergunta, mas não diria exatamente que dediquei minha vida à luta coletiva. Fiz e faço muitas outras coisas, família, meu filho Kayodê, livros, advocacia privada, carreira acadêmica, militância na OAB, mas sempre destinei um tempo para a luta contra o racismo e a intolerância religiosa.

 

E como se deu o seu envolvimento com as religiões afro-brasileiras e a continuidade neste culto?

 

A primeira vez que entrei num Terreiro (de Umbanda) foi aos seis anos de idade, levado por minha mãe, D. Teresinha que, como muitos brasileiros, não deixava de ir à missa nem de recorrer à macumba nos momentos de adversidade. Minha infância, especialmente os períodos que passava em Três Corações, Sul de Minas, onde nasci, é repleta de memórias de benzedeiras, benzimentos, “simpatias”, uso fitoterápico de plantas, folia de reis, etc. Não por acaso dedico minha advocacia pro bono para defender judicialmente os direitos e interesses das Religiões Afro-brasileiras.

 

Qual a importância para um sacerdote em fazer o curso Organização de Espaços Religiosos: aspectos jurídicos do sacerdócio?

 

Informação é poder. Esta frase pode parecer clichê, mas no caso das Religiões Afro-brasileiras ela é absolutamente verdadeira: a imensa maioria dos Sacerdotes e Sacerdotisas desconhece quais são seus direitos, deveres, tampouco os direitos da organização religiosa e do templo religioso. O acesso à informação é importante não apenas para o empoderamento das lideranças religiosas como também um valioso instrumento de proteção da Casa e dos seus dirigentes. Ademais, a intolerância religiosa cresce a cada dia e para enfrentá-la não há outro meio senão prepararmos as lideranças para fazerem valer seus direitos.

 

O curso é direcionado apenas para quem tem nível superior e às  lideranças religiosas ou qualquer adepto das religiões afro-brasileiras?

 

O curso destina-se tanto às pessoas com graduação como também àquelas sem formação superior. Lideranças e interessados em geral. A ênfase do curso é nas Religiões Afro-brasileiras, mas qualquer pessoa pode frequentar.

 

 

Conheça o curso:

 

O curso tem início dia 27 de janeiro de 2016, com turmas à tarde e à noite, na sede do Itesa: Via Anchieta, 1422 – Ipiranga (próximo ao Metrô Sacomã).

Tel.: 11 2577 0565.

E-mail: itesa.diversidade.inclusao@gmail.com

Fanpage: www.facebook.com/itesadiversidade

 

O curso tem carga horária de 30 horas e o seu valor original é de R$ 600 à vista. Porém, em convênio com a Ìwé Ìmọ̀ – Candomblé Sem Segredos, quem informar na sua inscrição o código ELS270784 terá um desconto de R$ 150,00, pagando apenas R$ 450,00 à vista.

 

 

O Currículo:

 

 

1. Direitos dos Sacerdotes e Sacerdotisas:

 

1. Inscrição na Previdência Social (para fins de aposentadoria, benefícios, etc.);

2. Celebrar casamento e emitir o certificado para reconhecimento civil;

3. Livre acesso a hospitais, presídios e quaisquer outros locais de internação coletiva, visando dar assistência religiosa;

4. Isenção do serviço militar;

5. Isenção do serviço no Júri;

6. Prisão especial;

7. Sepultamento no próprio Templo, obedecidas as normas legais;

 

2. Organização religiosa:

 

1. Estatuto;

2. Atas;

3. CNPJ;

4. Contabilidade/fisco; certificados de utilidade pública, etc.

 

3. Templo religioso: alvará de funcionamento:

 

1. Isenção de IPTU, taxa de lixo, etc.;

2. Liberdade de culto e dos locais de culto: direitos e deveres;

3. Direito de vizinhança/poluição sonora;

4. Legalidade do abate religioso de animais;

5. Legislação ambiental;

6. Intolerância religiosa e problemas de invasão arbitrária.

 

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Categoria: Cultura, História, Livros, Sacrifício de animais, Transmissão de Conhecimento
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Lançamento do livro Terreiros Egúngún

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 25/07/2015 às 08h43

 

 

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UFBA convida para o lançamento do livro Terreiros Egúngún

 

O Reitor da Universidade Federal da Bahia, João Carlos Salles Pires da Silva convida para o lançamento do livro Terreiros Egúngún: um culto ancestral afro-brasileiro, de José Sant’Anna Sobrinho. O evento acontece no dia 05 de agosto, às 18h30, na Câmara Municipal de Salvador. Na ocasião, haverá exposição do livro, venda e sessão de autógrafos.

 

Apresentando ampla pesquisa etnográfica, o título traz uma investigação da expansão das comunidades terreiros na atualidade, em especial dos Terreiros Egúngún, localizados na Ilha de Itaparica. O livro conta com testemunhos e opiniões de líderes religiosos sobre o fluxo e a expansão das tradições em meio às mudanças que ocorrem na geografia urbana da região, que abriga os primeiros terreiros de culto aos ancestrais desde o século XIX.

 

 

Informações adicionais sobre o livro

ISBN: 978-85-232-1267-4
Área: Religião
Ano: 2015
Formato: 17 x 23 cm
Número de páginas: 286
Preço especial de lançamento: R$ 25

Serviço:

Lançamento do livro: Terreiros Egúngún: um culto ancestral afro-brasileiro
Quando: 05 de agosto
Horário: 18h30
Onde: Câmara Municipal de Salvador – Ladeira da Praça. s/n, Centro – Salvador

 

 

 

Categoria: Antropologia, História, Livros, Mitologia, Recomendamos, Tradição Escrita, Transmissão de Conhecimento
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