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Os Pássaros Sagrados

Publicado por em 12/12/2015 às 09h00

 

 

 

Três são os pássaros africanos que emprestam suas penas para conceder aos neófitos do candomblé a proteção contra as influências das energias das àjẹ́, as Ìyàmi Òṣọ̀rọ̀ngà. São eles o Agbè, o Alukò e o Lékeléke.

 

A mitologia yorubá diz que os pássaros das àjẹ́, que na verdade são elas mesmas transmutadas, estão sempre em busca de neófitos descobertos a fim de pousar em suas cabeças e lhes castigar pela falta de respeito.

 

Brevemente, podemos dizer que as Ìyàmi Òṣọ̀rọ̀ngà representam o poder ancestral feminino e os elementos místicos da mulher em seu duplo aspecto: protetor e generoso, perigoso e destrutivo. As àjẹ́, também conhecidas como ẹlẹyẹ (senhora dos pássaros), são zeladoras da existência e guardiãs do destino, por isso sua boa vontade, essencial à continuidade da vida e da sociedade, deve ser cultivada. 

 

Por outro lado, este três pássaros, cada um deles vinculado a uma divindade de alto poder, têm a capacidade de proteger os iniciantes ao culto dos Òrìṣà de sua influência em seus aspectos destrutivos, absorvendo os positivos.

 

Daí a importância da pintura ritual dos ìyawó com as cores que representam as penas da cauda destes pássaros. O detalhe de ser da cauda não é aleatório, pois é a calda das aves que lhes servem como leme durante o voo.

 

Estas três cores possuem tamanho significado e tamanha importância que se tornaram efetivamente as cores do Candomblé de “nação Ketu”.

 

Vejamos um pouco sobre eles:

 

O agbè, (Tauraco porphyreolophus), conhecido como Turaco-de-crista-violeta é multicolorido, mas é ele quem nos concede a pena azul-violácea de sua cauda. É tido nos mitos como o pássaro que carregava a boa sorte e a riqueza para Olokun, divindade máxima dos oceanos. esposa de Odùdúwà para os Yorubá de Ifẹ́.

 

 

 

 

 

Já o alukò, (Tauraco ruspolii), possui penas de cor púrpura entre escarlate e violeta, porém nos fornece a bela pena vermelha (não confundir com a pena vermelha do odid, chamada ìkódidẹ, da qual falamos em outra matéria). Segundo os mitos, o alukò é o pássaro que carregava a riqueza para Ọ̀lọ́ṣa, divindade masculina das águas doces.

É de extrema importância destacar que a pena do alukò somente tem seu poder ativado estando junto à pena do agbè. Os pássaros agbè e alukò são agentes intermediários do poder da imensidão das águas:

 

Agbè ni i gbe're k' Olokun
Alukò ni i gbe're k' Ọ̀lọ́ṣa

O agbè carrega a benção de Olokun
O alukò carrega a benção de Ọ̀lọ́ṣa

 

 



 

 

Por fim, o lékeléke, (Bubulcus ibis), é o pássaro que possui apenas penas brancas e é conhecido popularmente por garça-vaqueira ou garça-boieira. Nos mitos é o pássaro que carregava a sorte para Òrìṣà Nla. Símbolo de nobreza de todos os Òrìṣà Funfun.

 

 

 

 

 

 

Observem as cantigas abaixo:

 

Agbè lo laró
Kí raun aró
Alukò lo lósùn
Kí raun osùn
Lékeléke lo lẹ́fun
Kí raun ẹ́fun
Emi ni yio léke ọ̀ta mi o

 

Agbè tem penas azuis

Que nunca lhe falte o azul

Alukò tem penas vermelhas

Que nunca lhe falte o vermelho

Lékeléke tem penas brancas

Que nunca lhe falte o branco

Que eu fique acima de meus inimigos

 

Ojúure l'agbè fi í w'aró
Agbè won jí t'aró t'aró
Ojúure l'alukò fi í w'osùn
Alukò won jí t'osùn t'osùn
Ojúure l'lékeléke fi í w'ẹ́fun
Lékeléke won jí re pel'ẹ́fun.

 

 

O agbè desperta com aró

O agbè olha com bondade para aró

O alukò desperta com osùn

O alukò olha com bondade para osùn

O lékeléke desperta com ẹ́fun

O lékeléke olha com bondade para ẹ́fun

 

 

 

 

 

 

 

Ifá relata a ligação das aves agbè, alukò e lékeléke com as pinturas sagradas aró (wàji), osùn e ẹ́fun. As aves sagradas carregam, portanto, em si, a força e a essência de três Odù primordiais da existência universal:

 

Éjì Ogbè relacionado ao ẹ́fun

Ọ̀yẹ̀kú Méjì e sua relação com o osùn e

Ìwòri Méjì relacionado ao aró (wàji)

 

Odábò! Até logo!

 

 

 

 

 

 

 

Categoria: Antropologia, Àṣẹ, Cultura, Mitologia, Tradição Escrita, Tradução, Transmissão de Conhecimento
Tags: Agbè, Alukò, axé, candomblé, cultura afro, Lékeléke, orixás, sagrado, yorubá

Comentários

tharcio, dofono de Logunedé em 09/08/2017 22:15:30
boa noite a todos... vi esta cantiga, relacionada às aves, que muito se canta em roda de Oxum. Gostaria de saber se, além da primeira parte, vcs a tem na íntegra?
Agradeço muito....
O dabò!
Ana claudia em 14/04/2015 19:27:57
Todos os dias temos algo aprender


Cahlixto Ribeiro em 06/01/2015 10:09:46
E Kàáàro Bábálòrìsà

Esta histórias sobre os pássaros sagrados gostei muito e também um conhecimento de suam importância.

Também queria sugerir que escrevessem sobre outros pássaros, que também é de grande importância para o candomblé:

* Òpeèré
*Akoko
*Agbufon
*Akalamagbo
*Tangalá


Valeria em 02/08/2014 08:19:07
Achei muito interessante não só esta, mas todas as outras matérias publicadas na página, pois as explicações são estudadas e não palavras jogadas ao vento.
Creio que este site é uma ótima fonte de consulta para quem quer aprender e entender melhor o nosso querido candomblé. Axé.

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