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O Ṣàṣàrà

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 06/08/2016 às 00h15

 

xaxará

 

Por Gill Sampaio Ominirò

 

O Ṣàṣàrà é o cetro sagrado de Ọbalúwàiyé, Òrìṣà Rei e Senhor da Terra cujo nome verdadeiro, Ṣànpọ̀nná (Xápãnã), não deve ser jamais pronunciado.

 

Assim, este instrumento não deve ser simplesmente adquirido em uma loja de artigos religiosos como se fosse um mero ornamento. Vendido em lojas, o ṣàṣàrà é fabricado sem nenhum preceito religioso e não tem, portanto, nenhum poder.

 

Ao contrário, o ṣàṣàrà só pode ser confeccionado dentro de uma casa de candomblé, por um graduado sacerdote do culto, de preferência um da casa de Ọbalúwàiyé como o Asọ́gbá, por exemplo, o qual deve estar qualificado e preparado para manipular e confeccionar os ingredientes tão poderosos deste objeto sagrado. 

  

A confecção do ṣàṣàrà segue rituais específicos, com rezas, silêncio e  concentração. Basicamente, ele é feito das nervuras das folhas do dendezeiro, do mọ̀riwò, revestido de ìko (palha da costa) e cravado de búzios (cauris) e pequenas cabaças, àdó, as quais são os recipientes de seus remédios.

 

Dentro do ṣàṣàrà há um enigma. Ali se encontra o segredo da vida e da morte, da cura ou da proliferação das doenças. Os feixes das nervuras do mọ̀riwò dentro do corpo do Ṣàṣàrà representam, coletivamente, os ancestrais, os mortos da Terra. Ele tem a finalidade de controlar os espíritos e eliminar as energias negativas da comunidade, sobretudo as doenças. Além disso, ervas, favas, sementes, pós e até sacrifícios podem ser feitos para potencializar o cetro da vida e da morte. Esse conjunto de ingredientes e rituais transformam palha em pura energia.

 

Mas o ṣàṣàrà também é o “martelo do juiz”. É com ele que Ọbalúwàiyé aplica a punição, a ìjẹníyà. E esta punição pode ser a pior possível, a doença que mata. Se alguém morre vítima de qualquer uma das aflições emanadas pelo ṣàṣàrà, diz-se que “Ọba gbé e l”, que quer dizer: “O rei o levou embora”. Portanto, todo respeito deve ser dispensado a este instrumento, este cetro de Àṣẹ.

 

As doenças que podem ser liberadas do ṣàṣàrà pela vontade deste Òrìṣà, também tem a finalidade de punir uma comunidade inteira para a renovação da vida ou para reafirmação da disciplina e respeito. É o caso das pestes que se espalham por uma cidade ou lugarejo ou mesmo dentro de uma comunidade de Àṣẹ. 

  

O ṣàṣàrà não pode ser deixado em qualquer lugar nem deve ser tocado por qualquer pessoa, sob pena de seus poderes mágicos se dissiparem. Deve ser manuseado, após sua consagração, preferencialmente pelo próprio òrìṣà e pelo seu ẹlẹ́gùn.

 

Ao dançar com o ṣàṣàrà, Ọbalúwàiyé “varre” as doenças da casa, do local, sendo este ato de profundo significado e merecedor de respeito. Vejam: 

 

Yorubá:

 

Ṣàṣàrà gbá lẹ̀ fún awo

Gbá lẹ̀, gbá lẹ̀

Ṣàṣàrà gbá lẹ̀ fún awo

Gbá lẹ̀, gbá lẹ̀

 

Tradução

 

Com o ṣàṣàrà ele pega (toca) a terra em segredo

Toca a terra, toca a terra

Com o ṣàṣàrà ele pega (toca) a terra em segredo

Toca a terra, toca a terra

 

Para entender melhor o cerne do cântico que se apresenta em metáforas, o ato de “tocar a terra” significa varrer (as doenças) para debaixo desta terra com o ṣàṣàrà. Este cetro, portanto, tem o poder de recolher as doenças e enterrá-las.

 

Assim, o ṣàṣàrà é um elemento sagrado de culto a Ọbalúwàiyé e jamais deve ser confundido com um adereço.

Atóto! 

 

 

   

 

Categoria: Antropologia, Àṣẹ, Cultura, Música, Rituais, Tradição Escrita, Tradução, Transmissão de Conhecimento
Tags: candomblé, Obaluaê, Omolu

Comentários

Marluxa Cezario em 10/08/2016 14:20:33
Boa tarde o meu Kolofé
Gostei muito dq li q geralmente os pais de santo ñ divide nada dos nossos orixas, gosto muito qd acho algo no face q fala do meu orixa. Estou esperando o meu zelador me dizer algo sobre meu orixa à 25 anos é a data q tenho de feitura nessa época ele disse qd eu tivesse os 7 anos me falaria sob ele estou aguardando mais tb o q acho no face ou alguem me da explicação guardo p mim. Eu tenho um pensamento q carrego com migo mas um dia vou descobrir com certesa.
Verah ti Osun em 06/08/2016 12:30:12
Muito obrigada, por dividir os teus conhecimentos, comigo.
Ale em 25/11/2014 22:01:13
Muito interessante a explicação.

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