#ws #ws

Resistência e Modernidade: Mestre Didi sobre o Sincretismo

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 15/08/2015 às 14h35

Resistência e Modernidade

 

 

Deoscóredes Maximiliano dos Santos (Mestre Didi).

(Salvador, 2 de dezembro de 1917 — Salvador, 6 de outubro de 2013).

 

Transcrição: Mário Filho.


Introdução:

 

Resolvemos fazer a transcrição deste texto do Mestre Didi, publicado pelo Jornal “Maioria Falante” em Outubro de 1990, pois cremos ser de importância extrema para os praticantes das religiões afro-brasileiras e de matriz africana. Apesar dessa importância, o texto não é de fácil acesso e, por isso, cremos que sua transcrição seja fundamental, de forma a levar às pessoas a necessidade de abandonar antigas práticas. No texto, Mestre Didi, do alto de sua sabedoria iniciática indiscutível, nos lembra da desnecessidade de continuarmos com o sincretismo afro-católico, chamando-nos atenção para lutarmos pela preservação dos costumes tradicionais afro-brasileiros, abandonando, por consequência, atividades religiosas que não fazem parte de nossas liturgias tradicionais.

 

Transcrição:

 

Na matéria intitulada “Ritos criticados” e publicada pelo jornal “A Tarde”, em 1º de junho deste ano, o Papa Paulo II condenava, ao se dirigir a um grupo de bispos do Norte do Brasil, a Macumba, o Candomblé, a Umbanda e os demais ritos afro-brasileiros que se inspiram no cristianismo popular. É por este fato que eu quero me dirigir e despertar a atenção da maioria do povo brasileiro, dos descendentes dos ancestrais africanos, que preservam a tradição afro-brasileira e fortalecem também a religião católica. Meus caros amigos-irmãos e seguidores da Religião Tradicional e da cultura afro-brasileira, Umbandistas, Jeje, Nagô, Omolokô e outras consideradas afro-brasileiras juntamente com o nosso Caboclo, dono da terra do nosso Brasil. Está na hora de se pensar melhor e separar o joio do trigo. O Deus do Papa que é o Deus dos judeus e da religião Católica Apostólica Romana é o mesmo nosso Deus, ỌLỌ́RUN, Aquele que é o Criador e o Senhor de tudo o que existe neste mundo. Já estamos no século XX, não precisamos mais de participar de irmandades católicas e nem de associar os nomes dos Òrìṣà aos seus santos. Sobretudo, quando isso representa renunciar à nossa identidade e à nossa hierarquia. Desta forma aceitamos o controle de nossa fé por quem não aceita os mistérios de nossa religião, os nossos valores éticos, a nossa liturgia.

 

Estamos em uma democracia e temos uma Constituição que garante a nossa liberdade de culto no Brasil. Chegou a hora em que todos os responsáveis pelos Terreiros das diversas nações existentes no Brasil devem se pronunciar e decidir de uma vez por todas acabar com esse “sincretismo” que os católicos dizem que existe nos cultos afro-brasileiros. Os filhos dignos dessas religiões que foram trazidas para o Brasil pelos nossos ancestrais, devem se levantar e agir com a JOEIRA2. Não podemos e nem devemos continuar com a ideia dos nossos mais velhos que tudo fizeram para ser aceitos, mandando celebrar missa para os santos que associavam com o Òrìṣà padroeiro do Terreiro, nem mandar celebrar missa no Peji do mesmo, nem tão pouco missas pela alma dos nossos falecidos, desde quando sabemos muito bem como proceder no falecimento de um dos nossos. O medo deve ser vencido. Hoje o amor à nossa religião e cultura, o sentimento de unidade e o espírito de sacrifício devem predominar em favor dos Òrìṣà que são a própria natureza, pois cada Òrìṣà é o símbolo representativo de um aspecto da natureza, principalmente o Òrìṣà Òsányìn, que é o médico da Religião, patrono de todas as florestas do mundo e é representado por uma espécie de árvore em ferro, com sete galhos e um pássaro na copa.

 

Todos aqueles que vem há muitos anos fortalecendo a parte contrária, acreditando na abertura ecumênica, devem tomar conhecimento e consciência de que estavam enganados. Têm, agora, a última chance de se reabilitar perante a Sociedade Afro-brasileira e unir-se a todo mundo que vem fazendo campanhas monumentais para a preservação da natureza, e porque não dos Òrìṣà? Já é tempo de nos unir, dar-nos as mãos, abrir nossos corações para ir ao encontro da irmandade, da justiça e da fraternidade para fortalecer e preservar cada vez mais as nossas origens e o àṣẹ de cada uma delas.

 

SANTOS, Deoscóredes Maximiliano dos (Mestre Didi). Resistência e Modernidade. Jornal Maioria Falante, Curitiba: s.n., ano V, out/nov, 1990, s.p.

 

 

 

Categoria: Antropologia, Candomblés Antigos, Família de Àṣẹ, História, Tradição Escrita

Enviar comentário

voltar para Blog

left show tsN fwR|left tsN fwR uppercase fsN|left show normalcase fsN fwB|bnull||image-wrap|news normalcase c10|fsN fwR c10 normalcase|b01 c05 bsd|login news fwR c10 normalcase|tsN fwR c10 normalcase|signup|content-inner||