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Rituais

Agbo Ṣàngó

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 10/01/2017 às 19h15

Roda de Xango

 

A possível origem

 

O conjunto de cânticos que formam a Roda de Ṣàngó reproduz a epopeia deste Òrìṣà e de sua família, incluindo então, Dàda Àjàká, Yemọja e Ìyámase e também um personagem que fez parte da sua vida, o Òrìṣà guerreiro da cidade de Savè, Aira.

 

A arregimentação destes cânticos na construção da Roda certamente teve sua origem na fase posterior à embrionária da organização do Candomblé na Casa Branca do Engenho Velho, o venerável Ilé Àṣẹ Ìyá Nasò Oká, pois, até então, na organização do candomblé na Barroquinha em Salvador, Bahia, as divindades que perfaziam o culto eram Aira e Ọ̀ṣọ́ọ̀sí.

 

Assim, somente na fase posterior, já no Engenho Velho da Federação, quando o  comando do Ilé Àṣẹ Ìyá Nasò Oká estava sob a égide dos Ọ̀yọ́, portanto, da sacerdotisa chamada Ìyá Nasò e, consequentemente, de Ṣàngó é que a Roda deve ter sido estruturada. Não é possível precisar uma data, mas o mais provável é que a organização deste ritual tenha se dado após 1830.

 

Cumieeira da Casa Branca

Símbolo de Ṣàngó sobre a cumeeira da Casa Branca do engenho Velho em Salvador - BA

 

A importância, o fascínio e o descaso

 

Não há dúvidas de que os cânticos da Roda de Ṣàngó perfazem nas comunidades yorubá (jeje-nagô), de Candomblé uma enorme fascinação. Não raro, encontram-se pessoas ávidas por aprender a cantá-los e saber suas respectivas traduções. Mas infelizmente, naufragam no desconhecimento ou mesmo na insistência dos “antigos” em não transmitir tal conhecimento, legando à epopeia um destino de extinção, de esquecimento. Não à toa, os cânticos são entoados nas festividades de maneira nitidamente deturpada. Diante disso, faz-se mais que necessário a transmissão ilimitada dos significados e dos significantes destes cânticos.

 

 

A Roda é um ritual

 

Esta sequência de poemas cantados não é simplesmente um conjunto de cânticos utilizados para ritmar a dança. Como todos os cânticos em louvor aos Òrìṣà, ela conta a biografia de uma ou mais divindades, perfazendo uma mitologia sagrada. Neste caso especificamente, trata-se da mitologia de Ṣàngó e demais divindades que fizeram parte de sua existência mitológica!

 

O ritual se dá com som, dança, fé e muita concentração: Forma-se, então, um grande e único círculo com todos os adeptos de frente para a pilastra central da casa, geralmente dedicada e sacralizada a Ṣàngó.

 

A presença da Agbeni Ṣàngó, sacerdotisa do culto deste Òrìṣà, é fundamental, pois é ela a responsável por organizar o ritual e distribuir os ṣẹ̀rẹ̀, instrumentos por excelência de Ṣàngó os quais reproduzem o barulho da chuva. A palavra ṣẹ̀rẹ̀ é a contração da palavra ṣẹ̀kẹ̀rẹ̀, que quer dizer chocalho. São os ọgá (sacerdotes auxiliares) que empunham o ṣẹ̀rẹ̀ e os rodam acima de suas cabeças, todos ao mesmo tempo, gerando o efeito desejado de se reproduzir o barulho da chuva.

 

Mas, antes de tudo, os ọgá encostam os ṣẹ̀rẹ̀ no chão por três vezes, dizendo palavras em louvor a Ṣàngó (em yorubá), e erguendo-os para o alto, em direção ao cume da pilastra. Ao fazerem isso, os demais adeptos se prostram e tocam levemente a cabeça no chão, demonstrando respeito e pedindo àṣẹ.

 

Ao se iniciar os cânticos, o agradecimento (dúpẹ) ao Rei compõe as primeiras estrofes, pois se trata de um privilégio dos mortais poder louvar e ver Ṣàngó. A primeira sequência se dá em ritmo bàtá, o qual é cadenciado. O movimento do corpo neste momento é feito para frente e para trás e os braços curvados à frente do peito com leve abertura, que se faz na cadência do ritmo. Ao se iniciar os cânticos em referência à Dàda Àjàká, os dançantes movimentam a cabeça de um lado para o outro, como numa negativa.

 

A segunda sequência se dá em ritmo ogelé, díspare do bàtá, pois são um pouco mais acelerados. Os cânticos evoluem para um clímax no qual as últimas cantigas indicam um àlúja menos acelerado, mas não menos inebriantes, tendo em vista que ele conduz às manifestações dos Òrìṣà. Neste momento, todas as divindades, com exceção de Ọbalúwàiyé e Nàná, se fazem presentes no terreiro em respeito ao Rei dos Yorubá.

 

Todo o ritual é carregado de significados e significantes e a emoção toma conta dos presentes, sejam da assistência leiga ou dos envolvidos mais diretamente com a cerimônia. É um momento de louvor à divindade da governabilidade, a qual se pede cotidianamente por dias melhores. E este aspecto de divindade governante será ilustrado nos cânticos que compreendem sua saga mítica. A presença de Yemọja se dá no âmbito da mitologia, na qual Ṣàngó seria seu filho, o que difere da História oficial da Nigéria, a qual reza que o 4º Aláàfin de Ọ̀yọ́ era filho de Torosi, Àyaba Nupe, filha do rei Elempẹ que viveu em 1460 a.C. e era tia de Ọya. Seu pai era Ọ̀rànmíyàn.

 

Xango 

 

As variações, o efeito da oralidade e a complexa uniformização da Roda

 

Algumas famílias de àṣẹ iniciam a Roda com uma sequência tríade para os Onílẹ̀, os Senhores da Terra, para somente depois iniciarem os cânticos para Ṣàngó. Já em outras, a sequência já se inicia com os cânticos para o Ọba.

 

Vejamos os cânticos da sequência tríade para os Onílẹ̀:

 

Onílẹ̀ mo júbà o

Ìbà Òrìṣà, ìbà Onílẹ̀

 

E pa’gbo o

E pa’gbo ó wa tan’gala

A tan’gala nilẹ̀ kò rò ó

Ẹ pa’gbo ẹrù jẹ́jẹ́

 

Toto n’ilẹ̀ kò rò ó

Aye kuru

 

Nesta gama de variações, há cânticos que não são contemplados nas Rodas de alguns àṣẹ, mas são em outros. Nesta perspectiva, os adeptos por vezes precisam saber todos os cânticos, sob pena de ficarem “perdidos” na evolução da cerimônia.

 

É fato que a tradição oral, ao longo das décadas, séculos, assegurou a perpetuação da estrutura básica da Roda, porém, permitiu a deturpação fonética de seus cânticos, quase que aniquilando as possibilidades de tradução.

 

Assim, é possível ouvir palavras que notadamente não fazem parte da lógica da tradução dos cânticos como “acarajé”, “fala orixá”, “acutã”, dentre outras. Ou pior, identifica-se em algumas Rodas a inserção de cantigas que delas não fazem parte, mas que a ela são adicionadas apenas pelo fato de serem do ritmo bàtá.

 

Por outro lado, há ainda o agravante da enorme variação do formato da Roda. Desta forma, buscar por um modelo único é um purismo inócuo. A forma como se apresentam as Rodas, Brasil a fora, varia de tal forma que inviabiliza qualquer tentativa de criação de um padrão que sirva de modelo a todos.

 

Diante disso, em 2005, o antropólogo, professor e bàbálòrìṣà José Flávio Pessoa de Barros, filho de Ìyá Nitinha de Ọ̀ṣun da Casa Branca do Engenho Velho, lançou o livro “A Fogueira de Xangô, o Orixá de Fogo”, (Pallas, ISBN 8534703507), fruto de uma imensa pesquisa que resultou na transcrição dos cânticos, não todos, e num yorubá minimamente traduzível. No livro é possível encontrar a descrição do ritual da Fogueira, que na realidade é de Aira e não de Ṣàngó, e a transcrição de algumas rezas e os cânticos da Roda, todos traduzidos, mas de forma ligeiramente diferente das traduções aqui apresentadas.

 

Xango

 

 

 

Àwọn Orin Agbo Ṣàngó

Os Cânticos da Roda de Ṣàngó

 

 

1ª Sequência em ritmo bàtá: 

 

Àwa dúpẹ ó, ọba dodé

À dúpẹ ó, ọba dodé

 

Tradução:

 

Nós agradecemos, o Rei chegou
Nós agradecemos, o Rei chegou

À dúpẹ ni mọ ọba, ẹ kú alé

À dúpẹ ni mọ ọba, ẹ kú alé

Ò wá, onílẹ̀

À dúpẹ ni mọ ọba e kú alé

 

Tradução:

 

Nós agradecemos por ver o Rei, boa noite vossa majestade
Nós agradecemos por ver o Rei, boa noite vossa majestade
Ele veio, está na Terra

Nós agradecemos por ver o Rei, boa noite vossa majestade


Fé lè, fé lè

Yemọja wèkun

Yemọja wèkun

Àgó firè mọn

Àgó firí mọn

Àjàká igbá ru, igbá ru

Ó wá e

Fé lè, fé lè

 

Tradução:

 

Ele quer... ele quer vir
Yemọja lava no mar

Yemọja lava no mar
Dê-nos licença para vermos através dos seus olhos e conhecer-vos

Dê-nos licença para vermos através dos seus olhos e conhecer-vos

Àjàká carrega na cabaça, carrega na cabaça a água do mar
Então estas de volta

Ele quer... ele quer vir

Ṣàngbà, Ṣàngbà

Didé òní Igbòdo

Ọdẹ ni mó

Syìí ó òní ó

 

Tradução:

 

Executou feitos maravilhosos, executou feitos maravilhosos
Levantou-se sobre Igbòdo
Os caçadores sabem disto

 

Òní Dàda

Àgó lá rí 

 

Tradução:

 

Senhor Dadá,

Permita-nos vê-lo

 

Dàda má sọkún mọ́

Dàda má sọkún mọ́

Ò fẹ̀ẹ̀rẹ̀ ó ní fẹ̀ẹ̀rẹ̀,

Ó gbé l’ọ̀run

Bàbá kíní l’ọnọ̀n da rí

 

Tradução:

 

Dadá, não chore mais filho

Dadá, não chore mais filho
É franco tolerante, ele vive na outra dimensão

É o pai que olha por nós nos caminhos

 

Báyànni gìdigìdi

Báyànni ọlà

Báyànni gìdigìdi

Báyànni ọlà

Báyànni adé

Báyànni òwò

 

Tradução:

 

Báyànni é muito forte, como um animal

Báyànni é honrado

Báyànni é muito forte, como um animal

Báyànni é honrado

A coroa de Báyànni

A coroa de Báyànni é cheia de dinheiro (búzios)

 

Báyànni adé

O adé Báyànni 

 

Furà ti ná

Furà ti ná

Furà ti ná

Àrá lò si sá jó

 

Tradução:

 

Desconfie do fogo, desconfie do fogo

Desconfie do fogo, desconfie do fogo

Desconfie do fogo, desconfie do fogo

O raio é a certeza de que ele queimará

 

Onílẹ̀ mo júbà o

Ìbà Òrìṣà

Ìbà Onílẹ̀

           

Tradução:

 

Senhor da Terra, meus respeitos

A benção Òrìṣà

A benção Senhor da Terra 

 

2ª Sequência em ritmo ogelé:

 

Ọ̀ràín a lóòde o

Bara ẹni ja, ènia rò ko

Ọba nù Ko so nù ré lé ó

Bara ẹni já ènia rò ko

O níìka si bẹ̀ l’ọ̀run!

 

Ọbalubẹ kẹrẹjẹ

O níìka won bọ l’ọ̀run

Kẹrẹjẹ ẹran àgùtòn

Itẹtu pàdé wa l’ọnọ̀n

O níìka si relé

Ìbò si

Òràn in a lóòde

Bara ẹni já ènia rò ko

 

Tradução:

Sim, a circunstância o colocou de fora
O mausoléu quebrou, não foi usado
O rei não se enforcou, não se pendurou

Sumiu no chão e reapareceu
O mausoléu quebrou, não foi usado
O rei não se enforcou, não se pendurou
Sumiu no chão e reapareceu

Ele é cruel, olhou, retornou para o mundo dos espíritos
Deu um grito para enganar

Ele é cruel, olhou, retornou para o mundo dos espíritos
O carneiro mansamente procura e encontra o caminho
Ele é cruel contra os que humilham
A consulta ao ìbò foi negativa
O verdadeiro senhor é contra juras traiçoeiras
Sim, a circunstância o colocou de fora

O mausoléu quebrou, não foi usado

 

Ọba ṣẹ̀rẹ̀ la fẹ̀hinti

Ọba ṣẹ̀rẹ̀ la fẹ̀hinti

Ọba nwa’iyé bẹ l’ọ̀run

Ọba ṣẹ̀rẹ̀ la fẹ̀hinti

Ọba nwa’iyé bẹ l’ọ̀run

Ọba ṣẹ̀rẹ̀ la fẹ̀hinti

 

Tradução:

 

Inclinem-se! O rei do ṣẹ̀rẹ̀ se salvou
Inclinem-se! O rei do ṣẹ̀rẹ̀ se salvou
Supliquem ao rei que existe e vive na noutra dimensão

Inclinem-se! O rei do ṣẹ̀rẹ̀ se salvou

Ẹiyẹ kékeré

Adó òsi arálé

Ìyá l’ódò Mase

Ẹiyẹ ko kéré l’anú

Ṣ’oko ìyágbà

Ìyá l’ódò Mase

 

Tradução:

 

O pequeno pássaro

Na cabeça, é da esquerda, é parente

Da mãe do rio, Mase.

O pequeno e sofrido pássaro foi apanhado com gentileza

Pela grande mãe do rio, Mase

 

Aira òjo

Mó péré sè

A mó péré sè

 

Tradução:

 

A chuva de Aira,
Limpa, mas faz barulho como um tambor
Ela limpa, mas faz barulho como um tambor

 

Ọba a níwà àwúnre

Ọba a àwúnre níwà

Ọba a níwà àwúnre

Ọba a àwúnre níwà

Ọba lugbẹ́ ọba l’adó

Ọba l’adó ri ṣọ́

Ọba l’àiyé

Ọba l’adó ri ṣọ́

Ọba l’àiyé

 

Tradução:

 

Rei, nós temos a existência e a boa sorte

Rei, nós temos a boa sorte e a existência

Rei, nós temos a existência e a boa sorte

Rei, nós temos a boa sorte e a existência

O rei afastou os maus, o rei do pilão

O rei do pilão olha e arremessa

 

Olówó

Kó mà bò, mà bò

E kó mà bò

Olówó

Kó mà bò, mà bò

Aláàfin Òrìṣà

 

Tradução:

 

Abastado Senhor

Aquele que dá proteção, dá proteção

Aquele que dá proteção

Abastado Senhor

Aquele que dá proteção, dá proteção

Òrìṣà, rei de Ọ̀yọ́

 

Ọmọ àsìkó Bẹ̀rẹ̀

Èkó inọ́n, èkó inọ́n

Ọmọ àsìkó Bẹ̀rẹ̀ èkó inọ́n

Lòóde roko

Ọmọ àsìkó Bẹ̀rẹ̀

Èkó inọ́n, èkó inọ́n

Ọmọ àsìkó Bẹ̀rẹ̀ èkó inọ́n

Èrù njẹ́jẹ́

 

Tradução:

 

Os filhos, com o tempo, iniciaram o culto do

Fogo de Èkó (cidade de Lagos), o fogo de Èkó
Os filhos, com o tempo, iniciaram o culto do

Fogo de Èkó ao redor das plantações

Os filhos, com o tempo, iniciaram o culto do

Fogo de Èkó (cidade de Lagos), o fogo de Èkó
Os filhos, com o tempo, iniciaram o culto do

Fogo de Èkó com medo extremo

 

Xango

 

 

xango

 

 

xango

 

 

xango

 

 

ose sango

 

 

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Ìkódídẹ

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 02/10/2016 às 22h22

 

ikodide

 Por Gill Sampaio Ominirò

 

O ìkódídẹ é pena vermelha da cauda do papagaio africano conhecido por papagaio-cinzento ou papagaio-do-Gabão (psittacus erithacus). Entre os yorubá é chamado Odídẹ. Símbolo da fecundação, da gestação, mas também da menstruação. Representa o nascimento, mas também é utilizado em ritual de morte.

Ele é o símbolo do poder feminino e está intimamente ligado à Ọ̀ṣun. Quando posto à frente da cabeça do iniciante, representa o processo e confirma os ritos de iniciação do ìyàwó. É que dá a vida e traz para a vida o novo consagrado, daí a importância do uso do ìkódídẹ apenas em momentos específicos.

 

ikodide

Região africana na qual o Odídẹ é nativo.

 

Nunca se deve usar o ìkódídẹ aleatoriamente. Observem que, se seu uso é para os rituais de iniciação e passagem, se for usado em outro momento, poderá causar danos irreversíveis. A energia da conexão entre a pena e as divindades invocadas para lhe atribuir poder, tem finalidade, não é apenas para simbolizar o sagrado, é, antes de tudo, para abrir ou fechar as postas para a dimensão do Ọ̀run

É preciso cautela com o uso do ìkódídẹ, ele não é um mero ornamento, ao contrário, é um símbolo sagrado e de poder de vida e morte. Usar o ìkódídẹ como ornamento ou mera ostentação é subjugar o poder de Ọ̀ṣun e de das Àjẹ́, as Ìyàmi Òṣọ̀rọ̀ngà.

 

ikodide

O papagaio cinzento é extremamente popular em quase todo o planeta e muito criado em cativeiro como animal doméstico.

 

 

Ojúure lògbólógbòó Odídẹrẹ́ fi í w’Iwó

Ìkódídẹ àṣẹ kun be aràiyé.

Tradução:

O grande e velho papagaio olha com bondade para Iwó (cidade)

O poder do ìkódídẹ enche de súplicas os seres deste mundo.

 

Diz um ìtàn que Òṣàálá anunciou que faria uma visita à Ọ̀ṣun. Èṣù, ao espalhar a notícia, avisou primeiramente à própria Ọ̀ṣun que o grande Òrìṣà Funfun estava a caminho de sua cidade. Era preciso organizar uma grande festa, pois a visita era muito importante. Ọ̀ṣun se apressou com os preparatórios, ordenando a limpeza de todas as casas e lugares públicos da aldeia e que todos os enfeites utilizados fossem brancos em respeito a Òṣàálá.

Tudo tinha que estar perfeito, à altura dele. Ọ̀ṣun, no entanto, se esqueceu de convidar as Ìyàmi para a grande festa e as feiticeiras não perdoaram esta desfeita e resolveram se vingar. No dia da chegada de Òṣàálá à cidade, Òṣọ̀rọ̀ngà entrou disfarçada no palácio para colocar no trono de Ọ̀ṣun um preparo mágico.  O palácio de Ọ̀ṣun, que fora caprichosamente preparado, tinha seus móveis e utensílios cobertos por tecidos brancos. Branca também seria a cor das roupas utilizadas na cerimônia.

Òṣàálá finalmente chegou, sendo respeitosamente reverenciado numa grande demonstração de admiração. Ọ̀ṣun esperava a entrada dele, pois iria oferecer-lhe seu próprio trono. Mas, ao tentar levantar-se, percebeu que estava presa em sua cadeira e, por mais força que fizesse, não conseguia se soltar. O esforço que empreendeu foi tão grande, que sua pele ficou grudada na cadeira, mas, mesmo ferida, conseguiu ficar em pé e uma poça de sangue havia manchado suas roupas e a cadeira.

Quando Òṣàálá viu todo aquele sangue no trono em que se sentaria, ficou tão contrariado que saiu do ambiente, sentindo-se muito ofendido. Ọ̀ṣun, envergonhada com o acontecido e escondendo-se de todos, foi consultar o oráculo de Ifá para entender o que aconteceu. Ifá, então, lhe revelou que Òṣọ̀rọ̀ngà havia colocado um feitiço em seu trono por não ter sido convidada. Èṣù, a pedido de Ọ̀ṣun, foi em busca do grande pai, para relatar-lhe o ocorrido. Òṣàálá então retornou ao palácio e Ọ̀ṣun estava sentada de cabeça baixa, muito constrangida.

Quando ela o viu, começou a abanar seu abẹ̀bẹ̀ e transformou o sangue que sujava suas roupas em penas vermelhas, em penas do pássaro Odidẹ, as quais, ao flutuarem, caíram sobre as cabeças de todos que ali estavam, inclusive do próprio Òṣàálá.

Assim, diante da exposição do poder de Ọ̀ṣun que transformou o sangue em penas sagradas para homenageá-lo, Òṣàálá aceitou a pena vermelha em sua cabeça, dizendo que esta seria a única cor que aceitaria por toda a existência por causa do poder do ìkódídẹ.

Neste instante, ele se prostra aos pés de Ọ̀ṣun, fazendo o dòbálẹ, em sinal de agradecimento e reverência à mais poderosa dos Òrìṣà.

Sabemos que Òṣàálá no candomblé é uma divindade que somente usa e aceita o branco. O vermelho que ele admite não foi incorporado aos rituais nem ao costume do uso em roupas ou contas, apenas o uso do ìkódídẹ é permitido. No entanto, como podem observar nas imagens abaixo, no festival de Ọbàtálá, em terras yorubá, o uso do vermelho em determinadas cerimônias lembra seu vínculo com o ìkódídẹ.

 

ikodide

 

 

ikodide

 

Na iniciação do ìyàwó, o ìkódídẹ é reverenciado: 

Ìkódídẹ adupẹ́ ìyàwó

O fẹ́ rẹ jẹ́

Tradução:

Agradecemos ao ìkódídẹ por ter guardado a cabeça do ìyàwó

 

 

ikodide

 

 

   

ikodide

A pena!

 

 

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Iniciação religiosa de crianças requer precauções!

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 17/08/2016 às 20h50

 

 
Por: Dr. Hédio Silva
 
A iniciação religiosa de bebês e crianças divide opiniões entre as confissões religiosas, incluindo as cristãs.
 
Igreja Batista, Menonnitas, Amishes e alguns segmentos pentecostais são exemplos de confissões religiosas que não iniciam bebês e crianças.
 
O anabatismo, movimento doutrinário contrário à iniciação/batismo de bebês e crianças (pedobatismo), acredita que o batismo pressupõe consciência da conversão, razão pela qual somente pode ser ministrado em adultos.
 
Entre as Religiões Afro-brasileiras não existe posição única a respeito do assunto, mas é certo que o Candomblé prescreve o ikomojade, cerimônia na qual se dá nome ao recém-nascido e que deve ser realizada a partir do 7º dia do nascimento.
 
O ikomojade é uma cerimônia relativamente simples, não-iniciática, cuja função principal é apresentar o recém-nascido à comunidade, ao passo que a iniciação exige uma sequência de liturgias e por isso requer cuidados.
 
A legislação brasileira, inclusive o Estatuto da Criança e do Adolescente garante aos pais o direito de transmissão familiar da crença, o direito de escolherem livremente a educação religiosa dos filhos.
 
Não obstante, recentemente a Justiça da capital paulista foi acionada porque uma Sacerdotisa iniciou o filho biológico, sendo que o autor da denúncia foi o próprio pai do adolescente.
Para evitar ou minimizar a ocorrência de problemas, sobretudo resultantes da intolerância religiosa, os Sacerdotes/Sacerdotisas devem estar atentos para os aspectos legais que disciplinam a proteção da criança e do adolescente.
 
O primeiro cuidado diz respeito à legalização do templo, bem como a habilitação legal do Sacerdote/Sacerdotisa, o que deve ser feito por meio do estatuto e ata devidamente registrados em cartório.
A criança não deve presenciar liturgias ou rituais que possam causar-lhe impacto ou desconforto emocional, incluindo o abate religioso de animais.
 
Do mesmo modo, impõe-se todo cuidado nos procedimentos de escarificação religiosa (curas/ìlà), mesmo considerando-se que são limitados à pele, têm tamanho ínfimo, são feitos em regiões do corpo protegidas pela roupa e não provocam nenhum dano estético. Ademais, são bem menos invasivos do que o furo na orelha de bebês ou a circuncisão, a título de exemplos.
 
É essencial que o pai e a mãe da criança assinem conjuntamente um termo de declaração (modelo anexo, atualizado), com firma reconhecida de ambos, declaração esta que deve ficar arquivada no Templo por pelo menos cinco anos.
 
É verdade que uma declaração assinada pelos pais pode não ser suficiente para livrar o Sacerdote/Sacerdotisa da intolerância religiosa, mas sem dúvida pode evitar muitos dos problemas, inclusive criminais, como os que acompanhamos ao longo dos anos.
 
Uma simples "folha de papel" poderia ter evitado que Sacerdotes e Sacerdotisas fossem presos e condenados sob acusação de cárcere privado, maus tratos contra crianças, entre outras acusações.
 
Em breve divulgaremos modelo atualizado de recolhimento de adolescentes (12 aos 18 anos) e adultos, lembrando que tais declarações devem ser assinadas toda vez que a pessoa pernoitar pelo menos um dia no templo religioso.
 
 
Marcelo Reis
 
 
No link abaixo você encontra o modelo elaborado pelo Dr. Hédio do Termo de Declaração para iniciação religiosa de crianças>>
 
 
Foto 1: Roger Cipó © - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved
Foto 2: Marcelo Reis © - Bembé do Mercado, Santo Amaro da Purificação - BA - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved
 
 
Categoria: Àṣẹ, Família de Àṣẹ, Questões Jurídicas, Rituais, Sacrifício de animais, Tradição Escrita, Transmissão de Conhecimento
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O Ṣàṣàrà

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 06/08/2016 às 00h15

 

xaxará

 

Por Gill Sampaio Ominirò

 

O Ṣàṣàrà é o cetro sagrado de Ọbalúwàiyé, Òrìṣà Rei e Senhor da Terra cujo nome verdadeiro, Ṣànpọ̀nná (Xápãnã), não deve ser jamais pronunciado.

 

Assim, este instrumento não deve ser simplesmente adquirido em uma loja de artigos religiosos como se fosse um mero ornamento. Vendido em lojas, o ṣàṣàrà é fabricado sem nenhum preceito religioso e não tem, portanto, nenhum poder.

 

Ao contrário, o ṣàṣàrà só pode ser confeccionado dentro de uma casa de candomblé, por um graduado sacerdote do culto, de preferência um da casa de Ọbalúwàiyé como o Asọ́gbá, por exemplo, o qual deve estar qualificado e preparado para manipular e confeccionar os ingredientes tão poderosos deste objeto sagrado. 

  

A confecção do ṣàṣàrà segue rituais específicos, com rezas, silêncio e  concentração. Basicamente, ele é feito das nervuras das folhas do dendezeiro, do mọ̀riwò, revestido de ìko (palha da costa) e cravado de búzios (cauris) e pequenas cabaças, àdó, as quais são os recipientes de seus remédios.

 

Dentro do ṣàṣàrà há um enigma. Ali se encontra o segredo da vida e da morte, da cura ou da proliferação das doenças. Os feixes das nervuras do mọ̀riwò dentro do corpo do Ṣàṣàrà representam, coletivamente, os ancestrais, os mortos da Terra. Ele tem a finalidade de controlar os espíritos e eliminar as energias negativas da comunidade, sobretudo as doenças. Além disso, ervas, favas, sementes, pós e até sacrifícios podem ser feitos para potencializar o cetro da vida e da morte. Esse conjunto de ingredientes e rituais transformam palha em pura energia.

 

Mas o ṣàṣàrà também é o “martelo do juiz”. É com ele que Ọbalúwàiyé aplica a punição, a ìjẹníyà. E esta punição pode ser a pior possível, a doença que mata. Se alguém morre vítima de qualquer uma das aflições emanadas pelo ṣàṣàrà, diz-se que “Ọba gbé e l”, que quer dizer: “O rei o levou embora”. Portanto, todo respeito deve ser dispensado a este instrumento, este cetro de Àṣẹ.

 

As doenças que podem ser liberadas do ṣàṣàrà pela vontade deste Òrìṣà, também tem a finalidade de punir uma comunidade inteira para a renovação da vida ou para reafirmação da disciplina e respeito. É o caso das pestes que se espalham por uma cidade ou lugarejo ou mesmo dentro de uma comunidade de Àṣẹ. 

  

O ṣàṣàrà não pode ser deixado em qualquer lugar nem deve ser tocado por qualquer pessoa, sob pena de seus poderes mágicos se dissiparem. Deve ser manuseado, após sua consagração, preferencialmente pelo próprio òrìṣà e pelo seu ẹlẹ́gùn.

 

Ao dançar com o ṣàṣàrà, Ọbalúwàiyé “varre” as doenças da casa, do local, sendo este ato de profundo significado e merecedor de respeito. Vejam: 

 

Yorubá:

 

Ṣàṣàrà gbá lẹ̀ fún awo

Gbá lẹ̀, gbá lẹ̀

Ṣàṣàrà gbá lẹ̀ fún awo

Gbá lẹ̀, gbá lẹ̀

 

Tradução

 

Com o ṣàṣàrà ele pega (toca) a terra em segredo

Toca a terra, toca a terra

Com o ṣàṣàrà ele pega (toca) a terra em segredo

Toca a terra, toca a terra

 

Para entender melhor o cerne do cântico que se apresenta em metáforas, o ato de “tocar a terra” significa varrer (as doenças) para debaixo desta terra com o ṣàṣàrà. Este cetro, portanto, tem o poder de recolher as doenças e enterrá-las.

 

Assim, o ṣàṣàrà é um elemento sagrado de culto a Ọbalúwàiyé e jamais deve ser confundido com um adereço.

Atóto! 

 

 

   

 

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Por que Ọ̀ṣun não come pomba, só o Àdàbà?

Publicado por Gill Sampaio Ominirô em 11/06/2015 às 14h10

 

Ìtan (mito):

 

Ọ̀ṣun, enquanto esposa de Ṣàngó, sofria com sua indiferença e sua infidelidade. O Ọba sempre a deixava sozinha, o que provocava na esposa ódio e tristeza.

 

Após uma grande briga entre os dois, Ṣàngó prendeu Ọ̀ṣun num quarto do palácio real cuja janela tinha barras de ferro e, como sempre, foi às festas que lhe aprazia.

 

Neste dia, Èṣù que é grande aliado Ọ̀ṣun, viu-a aos gritos de socorro pela janela do quarto e lhe perguntou o que acontecera.

 

Ela lhe contou a história e Èṣù, na sua habilidade não só de criar problemas, mas também de resolvê-los, recorreu a Ọ̀rúnmìlà, pedindo-lhe que ajudasse a ìyálòóde.

 

Este, por sua vez, preparou uma mistura de folhas e sementes dando origem a um pó, um àṣẹ, e deu a Èṣù dizendo que ele deveria soprá-lo em.

 

Quando voltou ao palácio do rei Èṣù soprou o pó Ọ̀ṣun e ela se transformou numa linda pomba, podendo assim fugir do cárcere imposto pelo Aláàfin.

 

Deste ocorrido em diante, em respeito à pomba, Ọ̀ṣun recusa que ela lhe seja sacrificada, sendo este animal substituído pelo Àdàbà (streptopelia semitorquata, na foto acima), em terras africanas.

 

No Brasil, como este pássaro não existe, ele é substituído pela juriti (leptotila verreauxi, na foto abaixo), a qual é bastante semelhante ao Àdàbà.

 

A Juriti

 

Observem o cântico que deixa claro que não se deve sacrificar pomba a Ọ̀ṣun:

 

Yorubá:

 

Àdàbà orò ma fẹ.

Ò fẹ́ lẹ (ẹiyẹlé) ó

               

Pronúncia:

 

Adabá ôrô mã fé

Ọ̀ fé lé (éiélé) ô

 

Tradução:

 

É Àdàbà que ela quer para o sacrifício

Ela não quer pomba

 

Àṣẹ!

Categoria: Antropologia, Àṣẹ, Cultura, Música, Mitologia, Rituais, Sacrifício de animais, Tradição Escrita, Tradução, Transmissão de Conhecimento
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