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Tradição Oral e Escrita

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 28/11/2016 às 20h42

Quais os rumos do candomblé na transmissão de conhecimentos?

Por Gill Sampaio Ominirò

 

A tradição oral foi nossa grande aliada na perpetuação das regras, preceitos e ritos do candomblé. Sem ela, sequer esta religião teria se estruturado e, consequentemente, existido. No entanto, a modernidade com seus meios de comunicação digital nos impele à necessidade de se criar uma tradição escrita, sob pena desta tradição se tornar apenas um reflexo na memória das “melhores cabeças” e não um compêndio de informações estáveis para a posteridade.

 

Sem a escrita, o registro, a religião poderá desaparecer, já que os antigos sacerdotes, em geral, não transmitiram (muitos continuam ainda não transmitindo), boa parte do que sabiam aos mais novos. E estes antigos, obviamente, tinham suas razões. É fato que a perseguição aos que cultuam Òrìṣà no Brasil era tamanha nos séculos passados que o segredo se tornou demasiadamente importante e, nesta perspectiva, a oralidade se tornou o meio mais confiável para transmissão de ensinamentos, repetindo uma tradição yorubá de educação. Bem por isso, ganhou a relevância que possui no candomblé, tornando uma instituição.

 

No entanto, este “segredo” hoje é parte do que mais destitui o candomblé de seus ritos ancestrais. Ele é o gerador de dúvidas, principalmente entre os não adeptos e, estas dúvidas que permeiam o inconsciente coletivo da sociedade brasileira fazem com que o candomblé, ou mesmo as religiões afro-brasileiras como um todo, se torne uma religião macabra, obscura e temerária, principalmente porque somete um aspecto desta religião é apresentado à sociedade pelos inimigos da liberdade religiosa e de forma deturpada.

 

A tradição escrita precisa ganhar espaço no candomblé de maneira consciente e sistemática. Os sacerdotes precisam transmitir informações também pelo uso de apostilas, livros e demais canais de informação aos seus ìyawó, para que não aconteçam as distorções e deformações dos ritos, algo que se tem visto com mais frequência. Por outro lado, os adeptos que não são instruídos sobre sua religião também são abarcados pela mesma ignorância que acomete os não adeptos, perfazendo um conjunto de leigos que independe do grau de proximidade com a religião em questão. Assim, muitos iniciados novos (e alguns já velhos), não sabem o básico do yorubá, não sabem cantar as cantigas corretamente ou mesmo rezar. E quando sabem, não têm a menor ideia do que elas querem dizer, minando a fé que se torna frágil de ante do desconhecido.

Não sabem sequer o que é o candomblé enquanto religião institucionalizada, sua história e origem.

 

Vale ressaltar que se condicionou, ou melhor, virou uma espécie de moda generalizada dizer que o candomblé é uma religião de “matriz africana” como se isto explicasse tudo e, mesmo assim, não se transmite a informação mais pertinente do que é ser de matriz africana, do que é ter uma matriz e do que é uma matriz propriamente dita. Assim, esta gama de desinformações somente fragiliza a estadia dos iniciados na religião e, consequentemente, facilita que eles sejam cooptados por outras religiões, nitidamente “pescadoras” de fiéis.

 

Os antigos repudiavam (alguns ainda repudiam), os livros sobre candomblé, mas hoje até mesmo os livros deixaram de ser nossos aliados mais profícuos de transmissão de conhecimentos, tornando-se, porém, importantes veículos para o registro destes conhecimentos. A Internet, no entanto, poderia se tornar nossa maior aliada. Porém a ineficiência de muitos sites e blogs, muitas vezes, mais deturpa o conhecimento do que ameniza as dúvidas. É raro um canal de informação na Internet no qual se possa confiar e isto muito se deve justamente às consequências da transmissão oral do conhecimento. Outro canal que poderia ser demasiado importante, mas não o é, são as redes sociais, principalmente o Facebook. Esta rede que está hoje na maioria das casas e celulares dos brasileiros desperdiça informações, gera debates inúteis e cria e sedimenta desinformações, desserviços na ânsia de muitos que pretendem criar tradições à força, alicerçadas unicamente na sua ignorância sobre o àṣẹ!

 

Importante destacar também que a tradição oral não é um traço pejorativo quando comparada às tradições que possuem escrita. Há entre elas apenas uma diferença quanto ao modo de transmissão de conhecimentos. Uma sociedade oral distingue o discurso não apenas como um meio de comunicação diária, mas também como um meio de preservação da sabedoria dos antepassados. A tradição pode ser assim determinada como um depoimento transmitido verbalmente de uma geração para outra. A grande questão que se apresenta é a perda significativa de informações que ou são transmitidas de maneira limitada ou sequer são transmitidas e os sacerdotes mais jovens que nascem com o dom e a missão de cuidar das cabeças alheias precisam efetuar as práticas rituais. E, caso não possuam o conjunto de informações suficientes para executar estas práticas, eles irão complementar o rito de acordo com sua consciência, ou seja, eles vão “inventar” novas tradições, novos ritos.

 

Diante disso, as casas e adeptos mais tradicionais irão depreciar imensamente esta prática de “inventar” novas tradições. Porém, em geral, estas invencionices são o resultado, são a reação à falta de transmissão de conhecimentos que produz os chamados vulgarmente de “marmoteiros”, e não uma ação aleatória ou de má fé. Ao menos, em geral.

 

Portanto, é preciso uma nova postura dos integrantes do candomblé, não só na aceitação e escolha dos meios de transmissão de conhecimento como também na postura em relação ao conteúdo a ser transmitido, tanto quantitativamente como qualitativamente. É necessário uma reflexão sobre o que ensinar, quando ensinar e o porquê de não se ensinar as práticas, os ritos, os cânticos e rezas, as danças e, principalmente, a história da consolidação da religião no Brasil.

 

“Ọmọ ni yíò jogún ẹwa lọ́dọ̀ wa”

É a criança que herdará nossa beleza.

 

Categoria: Antropologia, Cultura, Livros, Tradição Escrita, Transmissão de Conhecimento
Tags: Candomblé, orixás, sagrado, yorubá

Comentários

cleidimar dos santos em 01/06/2015 19:42:00
ensinamentos sbre ofos e folhas aprendizado de suma importancia me indicaria um livro para me aprofundar no assunto sinto essa necessidade de aprender mais obre o dialeto yoruba

Dulce de Almeida Velasco em 26/04/2015 12:44:27
Adorei a matéria e tudo que eu penso e acho sem trocar uma linha.Tenho nove anos de santo já dei obrigação de sete, não aprendi nada, as pessoas não transmitem nada, perdi o interesse vou sair e ficar em casa e pensar em Deus na minha casa e bem melhor. O candomblé sera extinto se não houver uma mudança radical Beijos!!!
teresa maria m pimenta em 07/03/2015 15:50:31
gostei muito da matéria pois dá um enfoque um pouco diferente daquele que dei na minha monografia de conclusão do curso de história.

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