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Ìyáloriṣà

A Nação Ìjẹ̀ṣà no Brasil perde sua matriarca.

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 12/06/2016 às 12h48

Mãe Estelita

 

Mãe Estelita nos deixou ontem, 11 de junho, após uma vida de dedicação aos òrìṣà.

 

Estelita Lima Calmon nasceu em 1919 e foi consagrada aos òrìṣà por Pai Severiano de Logùn Ẹ̀dẹ em 1951. Ela era de Ọya.

 

Siví, como era conhecido o bàbálòrìṣà Severiano Santana, foi iniciado em um terreiro que ficava próximo ao bairro da Ribeira em Salvador – BA. Mais tarde, passou a cultuar os òrìṣà em Bate-estaca, subúrbio de Salvador. Era o início do Ilé Àṣẹ Kalè Bokun, dedicado ao culto de Logùn Ẹ̀dẹ, no ano de 1933.

 

Mãe Estelita era descrita como mulher forte e foi responsável pela consolidação e configuração da casa. Aos 97 anos de idade e à frente do Àṣẹ como uma rainha desde 1994.

 

O bàbálòrìṣà Severiano faleceu em 1970, sendo sucedido, em 1972, pelo seu no àṣẹ, Claudionor dos Santos Pereira, pai Nozinho de Ọ̀ṣun.

 

Com o seu falecimento em 1994, quem assume o Kalè Bokun é outra filha sua, a ìyálàṣẹ Estelita de Ọya. 

 

O Ilé Àṣẹ Kalè Bokun encontra-se em processo de tombamento com base na Lei de Preservação do Patrimônio Cultural do Município de Salvador.

 

A Ìwé Ìmọ̀ – Candomblé sem Segredos, se solidariza com as famílias biológica e espiritual de Mãe Estelita e presta esta singela homenagem a quem merece uma eternidade de reconhecimentos.

 

 

Categoria: Antropologia, Àṣẹ, Ìyáloriṣà, Candomblés Antigos, Cultura, Família de Àṣẹ, História, Transmissão de Conhecimento
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Um projeto social no Terreiro do Gantois

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 18/04/2016 às 19h20

 

 

Por Gill Sampaio Ominirò

 

Sábado ensolarado em Salvador, Bahia. Subo ao Alto do Gantois e, mesmo antes de chegar ao destino, ouço e reconheço o estalar dos àtòrì¹ nos couros dos atabaques.

 

Entro no Terreiro do Gantois, o venerável Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase, e em meio aos quartos dos òrìṣà e às folhas sagradas do quintal da casa me deparo com um círculo de sons liderado por um moço.

 

Pés descalços, olhar acanhado e sorriso fácil. É Iuri Passos. Arregimentador do projeto Rum Alabê, cuja intenção maior é a transmissão de conhecimentos, de informações culturais, não só para perpetuar a cultura negra, mas também para, nesta perspectiva, combater a intolerância religiosa muito alicerçada na ignorância coletiva.

 

 

 

Iuri é rapaz de fino trato e de fácil trato. Um digno ọmọrìṣà, filho de Ọ̀ṣọ́ọ̀sí e Òṣàgiyọ́n. Um orgulho da casa, da raça, da nação. Formado em música em nível superior, é um acadêmico educador. Eu já havia entrevistado Iuri há exatamente um ano atrás, em razão do seu trabalho de arranjador para o CD “Pèrègún e Outras Fabulações da Minha Terra”, de Félix Ayoh’OMIDIRE. Um extraordinário trabalho que rendeu uma matéria de imenso alcance na Ìwé Ìmọ̀ (link no rodapé desta matéria em “Relacionados”).

 

 

Pois bem. É fato que de forma pioneira, há cerca de 20 anos, Iuri, influenciado pelos conselhos de Gamo da Paz, outro filho ilustre do Gantois, desenvolveu uma didática específica para o ensino do toque de atabaques com ritmos do candomblé. “...fui aperfeiçoando essa técnica e nunca vi ninguém dar aula assim”, relata. Trata-se, então, de um ensino sistemático, cuja didática foi desenvolvida pelo próprio Iuri. Foi possível notar que, além de ensinar os toques, Iuri associa determinado toque ao òrìṣà corresponde e, mais além, à nação² deste toque. Esta didática, assim, não só facilita a memorização das frases musicais, como contribui para o não esvaziamento do significado de cada toque, fortalecendo a cultura e demostrando que os toques não são aleatórios.

 

Assistir ao ensaio dá a possibilidade do expectador perceber muito claramente que tocar atabaque não é mesmo que bater tambor. É imprescindível, então, o entendimento de cada toque associado ao òrìṣà correspondente e à nação de origem.

 

É nítido que Iuri aperfeiçoa o toque herdado na tradição, de forma não só a conservá-lo como aperfeiçoá-lo. Assistir à aula deixa muito claro também que o ritmo não pode ser engessado. É como no jazz, no qual há o improviso, mas não é aleatório, gratuito. A variação ocorre dentro de um sistema, uma métrica musical.

 

 

Daí, observando os alunos e vendo homens, mulheres, adolescentes, crianças, idosos, deficientes físicos, negros, brancos e estrangeiros; não resisto não parafrasear Gerônimo e digo que “o mestre que ensina o dom do atabaque não faz distinção de cor e toda a aula é do som.” E ele explica este meu gracejo dizendo:

 

...as mulheres aprendem mais rápido. É incrível como elas fazem frases que para um músico profissional, depende de ele ter um conhecimento muito avançado. Já os meninos, como este é o universo deles, em tese, eles acham que podem fazer as coisas a qualquer hora. Já as crianças eu prefiro deixar para elas o momento da escolha de tocar o atabaque e quando estiverem com vontade, pois elas não são obrigadas a nada, elas têm que se sentir bem em primeiro lugar e, em segundo lugar, têm que ser divertido. A terceira idade é fundamental porque nos traz a consciência de que estamos sempre aprendendo. É claro que tem um limite pra eles, embora essa dificuldade atue como motivação para todos nós.

 

Nesta perspectiva plural, pessoas de várias partes do Brasil e do mundo vêm ao encontro deste dom, vem querendo saber como também reproduzir este som. As redes sociais desempenham um papel fundamental na divulgação do projeto: “sempre tem alguém que viu nossa aula no Facebook e veio de longe só para participar, como agora mesmo tinha uma senhora que é da Suíça e viu nossa aula nas redes sociais e veio pra conhecer de perto.” Relata.

 

 

 

 

Rum Alabê internacional

 

Não há dificuldade em ensinar para pessoas que falem outra língua. Na verdade, eu preciso melhorar meu inglês, mas uma semana antes de você conhecer nossa aula tinha um japonês na turma e foi tudo muito tranquilo.”

 

Ou seja, a linguagem da música atravessa fronteiras culturais e a comunicação não deixa de ser feita, o aprendizado não é prejudicado. Isso porque a música representa atualmente umas das maiores expressões da sociedade moderna, na qual diferentes significantes e significados são demonstrados nos mais diversos setores do cotidiano. Desta forma, também se caracteriza a música por ser uma forma de linguagem.

 

Isto porque o indivíduo desta sociedade é cada vez mais sistematizado e categorizado conforme o ritmo ou estilo musical que aprecia, conforme o histórico-cultural que se estruturou a psique nos símbolos musicais da música que lhe acompanha.

 

Assim, a representação mental é mediada através do uso dos símbolos que têm origem no social através das interações com o meio, sendo, portanto, construídas de fora para dentro.

 

Segundo Dinah Martins de Souza Campos, através da música o homem não apenas codifica ou decodifica a mensagem, mas também busca por ela um próprio direcionamento para seu comportamento, refletindo acerca da realidade (Campos, 2001).

 

Para Noam Chomsky, não apenas o léxico e a gramática exercem influência sobre a língua, mas os signos linguísticos têm forte representação nas estruturas mentais e na visão de mundo do indivíduo (Chomsky, 1998). Ou seja, a música, que é uma representação de símbolos, significados e significantes, exerce forte influência na linguagem do indivíduo que, por sua vez, irá influenciar o seu meio, a sociedade em que vive.

 

 

Pluralidade do projeto

 

Por que ensinar o toque do atabaque dos ritmos do candomblé para qualquer pessoa, incluindo mulheres e estrangeiros? Sabe-se que este "tocar" na religião dos òrìṣà é de exclusividade masculina, por tradição. Não estaria Iuri ferindo uma tradição centenária? Crê-se que não, pois ele não tem a pretensão de formar ọ̀³. Forma pela cultura do atabaque que é muito mais ampla do que tocar: “...sou muito criticado por essa minha atitude de ensinar para quem chegar à minha aula. É como se eu fosse dono de tudo isso. Meu irmão, não somos dono de nada, nem de nossas vidas. Pelo contrário, temos responsabilidades com a perpetuação da nossa cultura. E sei que muitos que aparecem não têm compromisso com nossa religião e muitos nem conhecem, mas veja bem, eu acho que a pergunta é: por que não ensinar?”. Questiona.

 

A pergunta de Iuri é mais que pertinente. A dúvida se dá na possibilidade de uma apropriação cultural. Se observarmos com pragmatismo e dada as experiências históricas, há sim um risco desta apropriação ser levada a cabo. A História demonstra ocorrências graves de apropriação cultural, nas quais, não se absorveu a modalidade cultural original para somá-la à cultura de destino a fim de melhorá-la. Ao contrário, perverteu-se a cultura original dando origem a outra; identificada, então com a cultura de destino e perdendo o statu quo da cultura de origem. Exemplo claro disso é o que os americanos fizeram com o rock, música negra com origens no blues, pervertida e transformada em música de branco.

 

Por outro lado, é fato que a música é um bem universal e não uma propriedade exclusiva de uma cultura ou etnia, ainda que lhe seja referência. Podemos ainda inferir que a música é uma função referencial, pois há predomínio de fatores imbricados de emoções. Sendo que para qualquer comunicação ocorrer é necessário que haja uma primeira pessoa que emita sentires, lembranças, expressões e confissões a uma segunda pessoa a qual será a pessoa apontada como receptor.

 

Samira Chalhub destaca que as canções populares provocam emoção pelo fato de exprimir-se através da subjetividade do indivíduo, através do modo como se fala (Chalhub, 1995).

 

 

Um projeto social filantrópico

 

O Rum Alabê é um projeto social sem custos para os alunos, ou seja, não há nenhum tipo de cobrança pelas aulas. Segundo Iuri: “...Temos a ajuda da nossa Ìyálòrìṣà, Mãe Carmen que, junto com suas duas filhas, nos dão total apoio para o projeto continuar. E desde 2001 estou nessa luta, embora a parte mais difícil seja a de convencer as pessoas de que a educação é importante, então todo dia é uma nova batalha meu irmão.

 

Sabe-se, e não somente através de Iuri, que o Gantois dá total apoio ao projeto. Para saber mais, conversei, via whatsapp,  com a Ìyá Kékeré da casa, Ângela Ferreira que, ao ser questionada sobre o apoio do Terreiro ao projeto e sobre de que maneira poderia ele fomentar a difusão da cultura dos òrìṣà na comunidade em torno do Gantois, me disse: “O Ilé Àṣẹ Gantois sempre foi favorável a projetos que incentivem e promovam a manutenção da cultura. Sempre apoiou as diversas formas de atividades culturais que trouxeram e continuam trazendo um conhecimento cultural a mais para a nossa população específica como a de entorno. O desenvolvimento do projeto de percussão dirigido por Iuri Passos, filho da nossa casa,  difunde entre seus alunos a importância do SOM na religiosidade dos òrìṣà, conhecimento musical; impondo noções de disciplina, compromisso e responsabilidade às crianças, jovens e adultos da nossa casa como da circunvizinhança, além de reforçar nelas o respeito e devoção pela religião dos òrìṣà - o Candomblé.

 

 

Tocar atabaque não é bater tambor

 

É importante ressaltar que o cerne do projeto nasce de algumas características do seu próprio autor ante a música como, por exemplo, o respeito e o amor pelo instrumento musical, pela música afro-brasileira e pela reverência aos ancestrais. Nas palavras de Iuri:

 

“...às avezes me pego tocando no salão e (...) vejo ‘antigos’ dançando junto com os que estão presentes fisicamente. Nem sei como te explicar isso, mas são essas coisas que me deixam cheio de amor. Quando eu toco os atabaques sinto sempre a presença dos nossos Alabês que já se foram, é como se eles estivessem ali para observar como é que está a festa ou quem é que está tocando hoje o rum⁴ para aquele òrìṣà. Enfim, é uma corrente infinita de energia que está em constante rotação.

 

A paixão e dedicação de Iuri são nítidas. Vê-se o brilho nos seus olhos quando fala da música do candomblé. Sua simplicidade e humildade não têm limites quando diz, acanhadamente, após eu perguntar se um ọ̀gá deve se considerar um músico: “meu amigo, acho até engraçada essa pergunta por que, na verdade, eu nem me acho músico.” Para quem não sabe, Iuri tem formação superior em música, toca atabaque no Gantois a vida toda e é percussionista da banda que acompanhada Mariene de Castro há mais de 10 anos. Não se achar músico é de uma humildade rara no meio artístico.

 

Continuando a conversa, o músico volta a falar de seus ancestrais e das referências que alicerçaram seus conhecimentos:

 

Tocar atabaque no terreiro do Gantois, é sim uma grande pressão, pela perfeição. Imagine você que nesses atabaques tocam e já tocaram mestres como Vadinho Boca de Ferramenta, Dudu, Hélio, Ubaldo, Nadinho, Gamo e Gabí Guedes. Sim, com certeza sempre terá uma pressão e isso é bom por que sempre estamos buscando a perfeição e, o mais importante, a preservação da nossa forma de tocar os atabaques, que é uma técnica muito particular.

Eu sempre gostei muito de ver o senhor Erenilton tocar, o Gamo sempre nos levava, eu e Cacau, para as festas da Casa de Oxumarê, embora na verdade, quem eu queria ter visto tocando era o finado Vadinho.  Quando estou ouvindo os discos que ele gravou eu ainda me surpreendo com as coisas que ele fazia no atabaque ao mesmo tempo em que ele cantava. 

 

 

 O mestre

 

Meu amigo, meu mestre é Gamo, foi ele quem me ensinou tudo que sei. Claro que você vai aprendendo com todos os seus mais velhos, na verdade eu sou uma mistura de todos eles, só que nesse papel de grandes mestres eu tive muitas mestras. Na verdade, esse processo de tocar os atabaques devo muito às mulheres, por que sem elas era praticamente impossível você aprender uma dança que só o òrìṣà ia fazer à noite ou em determinada cerimônia. Quantas vezes tia cantava uma música e ali mesmo sentada ela dançava? Tia é Mãe Carmen, minha Ìyálòrìṣà, minha mãe, minha vó e minha comadre. Isso sem se esquecer das outras tias como tia Delza, tia Cidália, tia Danzinha, minha mãe carnal Marcia de Ṣàngó e outas que passaram na minha vida pra minha sorte.

 

 

 

 

 

 

Enfim, o projeto Rum Alabê é uma empreitada corajosa de Iuri Passos que, mesmo sem apoio institucional, tenta alterar a realidade da desinformação sobre a religião do candomblé através da música. Tenta também minimizar os males causados pela nítida e histórica exclusão social e racial, das quais os negros de Salvador são vítimas. É um projeto que tem total apoio da Ìwé Ìmọ̀ justamente por ir ao encontro do objetivo primeiro desta página, deste projeto, que é a libertação através do conhecimento.

Ao projeto e a Iuri, nossos mais sinceros respeitos e agradecimentos.

A dúpẹ́ púpọ̀!

Mo júbà o!

 

Crédito das Fotos: Marcelo Reis - Instituto Casa da Fotografia

 

 

 Notas:

1. Vareta de madeira usada para percutir nos tambores (atabaques) e no agogô. Também conhecido como agdavi.

2. Entende-se por “nação” as ramificações específicas do candomblé, por si só jeje-nago, que concentram um conjunto de significados, linguagens e tradições de acordo com determinada etnia formadora do candomblé. As “nações” mais conhecidas do candomblé são Ketu (yorubá), Jeje (Ewe-fon, Mahin e Savalú) e Angola (banto).

3. Pronuncia-se /ogan/. É um sacerdote masculino que não incorpora. O qual, dentre muitas atribuições, faz parte da orquestra sacra de tocadores.

4. Atabaque maior que marca o toque, do ewe-fon: hun = tambor.

 

Bibliografia:

 

CAMPOS, Dinah Martins de Souza. Psicologia e Desenvolvimento Humano. 2. Ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 2001.

CHALHUB, Samira. Funções da Linguagem. 7. Ed. São Paulo: Ed. Ática, 1995.

CHOMSKY, Noam. Linguagem e mente. Ed. UnB, 1998.

BENISTE, José. Dicionário Yorubá-Português, 2ª ed., Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2014.

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Ìyá Nitinha de Òṣun

Publicado por Gill Sampaio Ominirô em 04/09/2014 às 16h00

 

Areonithe da Conceição Chagas, Ìyá Nitinha de Òṣun, nasceu no dia 12 de setembro de 1928, em Santo amaro de Ipitanga, na Bahia.

 

Filha de Izidora com um espanhol foi criada por Maria da Natividade Pereira, mais conhecida como “Cotinha”, Ògúnjobì, filha de santo da Casa Branca, mais precisamente do terceiro barco de Ìyá Massi, Oìnfunkẹ̀.

Aos quatro anos de idade, Ìyá Nitinha foi iniciada para Òṣun, por Ìyá Massi. Aos quatorze anos casou-se com um filho de Ògún do Jeje de Cachoeira - BA, conhecido como “Seu Benzinho”. Ele era Oluwò, ou seja, jogava os búzios para a Casa Branca, além de outras casas importantes. Desta União nasceram dois filhos, ambos Ogà da Casa Branca: Areelson (Ogà Léo) e Arehigino (Ogà Gininho), confirmados por Ìyá Massi.

 



Durante esta união Ìyá Nitinha galgou conhecimento sobre a nação Jeje, pois Seu Benzinho era um grande e respeitado Olùwò.
Tempos depois, ela passou a trabalhar nas profissões nas quais era formada, a saber, parteira e professora primária, na Comunidade do Portão - BA.

Mais tarde, um terceiro filho, Antônio Luís (Ogà Julinho).
No Ilé Àṣẹ Ìyá Nasó Oká - Casa Branca, recebeu os postos de Ìyátebeṣé, Ojúodé e Ìyákekeré. Também recebeu o posto de Ìyágà no Ilê Agboulá no bairro das Amoreiras em Itaparica - BA, sendo o maior posto dado a uma mulher no culto de Bàbá Egùn.


Fundou sua primeira casa de Candomblé em 1960, no Município de Santo Amaro do Ipitanga em Pitangueiras - BA.

 



E assim Ìyá Nitinha não parou e em 23 de abril de 1972 fundou a Sociedade Nossa Senhora das Candeias (Aṣè Ìyá Nassô Oká Ilê Òṣun) na Cidade de Nova Iguaçu - RJ, mais precisamente no bairro de Miguel Couto, na Baixada Fluminense.

Neste foram iniciados mais de 500 filhos de santo, Ogà e Ekèje.
Sempre correta em suas atitudes e dedicada aos seus trabalhos como Ìyáloriṣá, Ìyá Nitinha era um exemplo de respeito e cumplicidade para com os Òrìṣà, aos quais dedicou toda a sua vida.

Conheceu o Presidente Lula no Rio de Janeiro há dez anos e depois, em 2005, foi convidada pelo próprio Presidente para fazer parte da Comitiva Religiosa que participaria do funeral do Papa João Paulo II. Ao ser perguntada sobre o atraso que a fez perder o voo, Ìyá dizia: “O santo mandou ficar”.

Em 2007 foi condecorada com a Comenda da Ordem do Rio Branco, também pelo Presidente Lula em Brasília, maior condecoração que um civil pode receber no Brasil.


Ìyá Nitinha recebendo do presidente Lula a medalha da Ordem do Rio Branco, maior condecoração que pode ser recebida por um civil no Brasil.

 

Ìyá Nitinha era animada, exuberante e graciosa, mas também enérgica quando preciso. Conhecida nacional e internacionalmente, tinha filhos espalhados pelo Brasil, Argentina, França, Portugal, Itália, EUA dentre outros países. Conquistou sua fama por conta de seus conhecimentos e sapiência no Candomblé em suas diferentes Nações e também pela seriedade e leveza com que conduzia a religião e a Casa. 

 

 

 

Ìyá Nitinha não era apenas um exemplo de Ìyáloriṣá, tinha poder nas decisões e a magia no olhar, foi incontestavelmente uma das maiores lideranças religiosas na Bahia e no Rio de Janeiro.


Dia 04 de fevereiro é uma data inesquecível para o Candomblé do Brasil e principalmente para os filhos e descendentes da Casa Branca do Engenho Velho. Veio a falecer no Hospital Evangélico, em Brotas, onde estava internada há 12 dias, vítima de insuficiência respiratória. Foi sepultada dia 05 de fevereiro 2008, às 14h, no Cemitério Jardim da Saudade, também em Salvador - Bahia.

 

No terreiro da Casa Branca iniciaram-se no dia seguinte os rituais de Ajèjè, que tem duração de vários dias. O Ajèjè em Miguel Couto teve início em 12 de março de 2008, sob a direção do Bàbálòrìṣà Air José, do Terreiro Pilão de Prata e Pai Valdemar Ogunssy do Ilê Axé Alarabedê.

Fonte: http://www.maenitinha.com.br/ (com alterações no yorubá).

 

Uma Ìyáloriṣá importante para a cultura brasileira e mais ainda para a religião do Candomblé.

A Flor do Velho Engenho

Artista - Lucio Sanfilippo
Participação - Lucinha Pessoa
Direção - Rafael Eiras

 

Ìyá (poema)

Gill Sampaio Ominirò

 

Ìyá

Minúscula palavra do idioma yorubá

Lingüisticamente insignificante, monossilábica

Essa pequena palavra incorpora um sentido incalculável

Incorpora a força de todo um povo que se mantém regido pela feminilidade

Sob a égide do amor

E toda essa feminilidade se condensa numa pequena grande mulher...

 

Quem é essa mulher?

 

Quem é essa que traz um brilho intenso nos olhos rasgados?

Olhos doces, olhos de fogo!

O sorriso plácido... O olhar audaz!

 

Uma mulher...

Ou mais que uma mulher, uma geradora

Uma genitora de ventre cheio

 

Água doce do rio calmo, mas do rio fundo

Águas profundas: Ominíbú

 

Quem é essa mulher?

De onde vem tanta resistência?

Quem é essa mulher que me arranca do pesadelo?

Que visita meus sonhos?

 

Onde está quem lhe criou?

Que deusa lhe construiu?

Que guerreiro lhe semeou?

Que mulher é essa que me mostra o caminho e é a palmatória para meus erros?

 

Senhora de tão alta nobreza!

Ela é a própria divindade...

Ela é a Deusa

 

Mal lhe conheço

Mas me basta o brilho em seus olhos para eu saber quem ela é

Esse brilho doce de água em ebulição

Esse olhar de nobre baiana que põe um país inteiro aos seus pés

 

Quem é essa mulher que pode?

Que tudo pode?

De certo, nem ela mesma sabe como é grande e importante

 

É a grande mãe

Deusa da maternidade!

 

Ela é ela...

A que salva do abandono aqueles que se encontram sem dono

A que nos trás ao seu ventre

A que dispõe sempre um colo

 

Ela é a que não dança:       Flutua

Que não fala:                      Canta

Que não aconselha:           Reza

Que não acaricia:               Abençoa

 

Ìyá: pequena palavra que traduz uma gigante

A pequena gigante que tudo vence

Que ama

E que se encontrará eternamente cravada no escaninho mais sublime da minha alma

 

E que nome traz essa mulher?

Ìyá Nitinha

Tranquilamente poderia se chamar Ìyá Rainha

 

“Rainha Negra da Voz. Mãe de Todos Nós”

 

E ao mundo eu grito sem resistir:

Somente o fato de ser amado por ela e fazer parte de sua família...

Tornam válido o fato de eu existir



"Escrevi este poema em 2004 e tive o prazer de dizê-lo a ela, à Ìyá Nitinha, na cozinha de nossa casa de Candomblé em Miguel Couto, ela o ouviu e emocionada me aplaudiu."

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Mãe Stella será homenageada na Flica 2014

Publicado por Gill Sampaio Ominirô em 11/08/2014 às 19h19

Mãe Stella de Oxóssi será homenageada no Festival Literário de Cachoeira.

 

 

Liderança de destaque no Candomblé, a Ialorixá de 89 anos também é enfermeira e escritora. Referência nas ações de valorização das tradições de matriz africana, ela é a primeira Mãe de Santo a ocupar cadeira em uma Academia de Letras no Brasil

Mãe de Santo, enfermeira, escritora, primeira Ialorixá a ocupar cadeira em uma Academia de Letras do Brasil, Maria Stella de Azevedo Santos, a conhecida Mãe Stella de Oxóssi, será também a homenageada do Festival Literário de Cachoeira (Flica 2014), no recôncavo da Bahia. Em sua quarta edição, a atividade acontecerá entre os dias 29 de outubro e 2 de novembro, com debates, programação musical, infantil e pockets shows.

 

 

Uma das novidades deste ano é que o Flica passa a homenagear um autor e a primeira será Mãe Stella, liderança de destaque no Candomblé baiano e nacional. Com legado inestimável, a líder religiosa é referência nas ações de valorização das tradições de matriz africana. Mãe Stella é colunista do Jornal A Tarde da Bahia, e autora dos livros “E Daí Aconteceu o Encanto” (em parceria com Cléo Martins), “Meu Tempo é Agora”, “Òsósi – O Caçador de Alegrias”, “Owé”, “Epé Laiyé - terra viva”, “Ofún”, e “Opinião – artigos publicados em A Tarde”.

Na Academia de Letras da Bahia, a líder religiosa ocupa a cadeira 33, cujo patrono é Castro Alves. Devido às inestimáveis contribuições acadêmicas e culturais, a Ialorixá recebeu ainda o título de Doutora Honoris Causa da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em 2009.

 

 

Este ano, além do Flica, ela foi homenageada com o livro “Mãe Stella de Oxóssi – Estrela nossa, a mais singela!”, obra organizada pelo escritor Marcos Santana. Conforme destaca a sinopse, a publicação resgata o perfil biográfico e traz um resgate histórico e cultural por meio de poesias, depoimentos, resenhas e análises de produções intelectuais da Ialorixá, feitas por autores como Edivaldo Boaventura, Muniz Sodré, Antônio Olinto, Jorge Amado, Fernando Coelho, Padre Arnaldo Lima, Dorival Caymmi, Jorge Portugal, Menininha do Gantois, Detinha de Xangô, Marco Santana e da própria Mãe de Santo.

 

 

Nascida no dia 2 de maio de 1925, em Salvador-BA, Mãe Stella foi iniciada no Candomblé aos 14 anos, por Mãe Senhora. Em 1976, foi escolhida para assumir a liderança do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, no qual permanece. A casa fica no bairro de São Gonçalo do Retiro, na capital baiana. Com formação em enfermagem pela Escola de Enfermagem e Saúde Pública da Universidade Federal da Bahia, a Ialorixá chegou a exercer também essa profissão por 30 anos.

 

 

Fonte: http://www.portaldaigualdade.gov.br/noticias/ultimas_noticias/2014/07/mae-stella-de-oxossi-sera-a-primeira-autora-homenageada-do-festival-literario-de-cachoeira

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