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Fundação do Candomblé

O Candomblé no Brasil se dá na expectativa de se recriar uma nova família.

 

 

 

 

Com o advento da escravidão, cerca de 11 milhões de africanos foram à força para as Américas na condição de escravizados entre os séculos XVI e XIX. Este número não inclui aqueles que morreram durante os violentos processos de apresamento e de embarque na África, nem aqueles que não sobreviveriam à travessia do Atlântico. Destes, mais de um terço, ou cerca de 4 milhões foram trazidos para o Brasil. O que evidencia o alto grau de comprometimento dos brasileiros com o tráfico de escravizados.

Quando o navio negreiro aportava, eram embarcados no porão em grupos de 300 a 500 indivíduos, em uma viagem que poderia durar de 30 a 50 dias. Para que coubessem mais pessoas, os suprimentos eram diminuídos. Desembarcados no Brasil, nos portos de Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Vicente, os africanos escravizados eram distribuídos para as diferentes localidades para realizar todo tipo de trabalho. Começaram trabalhando no litoral, no corte do pau-brasil e, posteriormente, no trabalho nos engenhos de cana-de-açúcar. Depois, foram levados para o interior do território e regiões longínquas para trabalhar na mineração, na criação de gado, no cultivo de cacau, dentre outros.

Assim, africanos que já haviam sido separados de suas famílias no momento da captura, embarque ou mesmo desembarque, eram terminantemente separados para trabalharem em locais diferentes Brasil a fora. E qual a maior consequência disso para a estrutura dos grupos? A dissolução total do conceito de família.

Diante disso, surge a necessidade não só passional, mas muito por questão de sobrevivência de se reestruturar uma família e, nesta perspectiva, surge a Ìdílé Òrìṣà “família de santo”.

 

 

Resumidamente, vamos tentar expor como se deu essa estruturação e fundação do candomblé no Brasil.

Segundo Renato da Silveira, o advento da irmandade negra brasileira tem sido interpretado por muitos estudiosos  influentes como instrumento de conservação da ordem escravista, mero recurso de enquadramento da massa escrava pela política estatal e eclesiástica. Na década de 1940 pesquisadores prestigiosos criaram e nas décadas seguintes outros tantos caucionaram a versão ainda predominante: as irmandades afro-brasileiras teriam assumido um caráter étnico porque assim foram organizadas pela Igreja para facilitar a catequese e pelo Governo para aplicar uma máxima maquiavélica: dividir para reinar.

Os colonialistas portugueses teriam sido, além do mais, beneficiados pela ingenuidade política dos africanos escravizados, entretendo-os com solenidades pomposas e cargos fictícios em associações lançadas em competição umas contra as outras, impedindo a possibilidade de sua união contra a ordem escravista e assegurando a dominação da população branca minoritária: esta é a paupérrima interpretação oficial de uma riquíssima parte da nossa história.

Ora, tais irmandades eram integradas pelos “leigos”, pelos civis, diríamos hoje. Brancos, negros e mestiços, nobres e plebeus, todos tinham suas irmandades particulares; ao todo, no início do século XIX a cidade da Bahia contava com uma centena de irmandades, sendo trinta e seis integradas exclusivamente por negros, africanos e crioulos, escravos e libertos.

Entretanto, nas três últimas décadas uma reação vem sendo esboçada contra tal caricatura, bons pesquisadores de diversas origens têm trazido fartas contribuições para o conhecimento da sociedade escravista brasileira em todos os seus níveis. Assim, teorias mais avançadas reconhecem que, ao entrar em uma irmandade, o africano estava integrando-se a uma organização oficial talhada para a plebe negra discriminada, participando sem dúvida de modo subalterno da vida política da colônia, porém enquanto sujeito ativo, podendo tornar-se dirigente de uma organização capaz de tomar iniciativas imprevisíveis, deixando, portanto essa sua participação de ser interpretada como prova incontestável de apatia e subserviência.

 

 

É possível remontar a fundação do candomblé do Brasil a partir do culto de duas divindades, a saber, Àirá Intilẹ̀ e Ọdẹ Ọni Pòpò:

Durante o governo do Alákétu, Akebiohu, entre 1780 e 1795, vieram para o Brasil alguns integrantes da família real Aro (arô), aprisionados pelos daomeanos na cidade de Ìwòyè, junto com um grupo de cerca de 200 escravos. Entre eles, estavam duas gêmeas, com cerca de 9 anos de idade. Eram netas do Alákétu. Otampe Ojaro (ôtampê ôdjarô), que recebeu o nome cristão de Maria do Rosário Francisca Régis e Ìyá Obòkò Miṣòbí (ôbôcô mixôbí). Otampe Ojaro foi alforriada aos dezessete anos e retornou à África casando-se com Bàbá Làjí de nome cristão João Porfírio Régis, retornando ao Brasil tempos depois. O casal teve uma filha cujo nome era Akọ́bíọdẹ (aquele que nasceu em primeiro lugar). A expressão “Ọdẹ” aparece, pois se dá ao primeiro filho de um chefe caçador.

Tanto o culto a Àirá Intilẹ̀, quando o de Ọdẹ Ọni Pòpò são provenientes da região fronteiriça entre Kétu e Ṣàbẹ́ e seus assentamentos no Brasil foram concomitantes, ou seja, se deram ao mesmo tempo. Ambos foram trazidos pelos membros da família real Aro. Porém, apenas um deles se tornou o onílẹ̀ (Senhor da Terra). Por quê? E qual deles?

Ọdẹ Ọni Pòpò é uma divindade da caça dos Pòpò e já era cultuado na região, antes da fundação de Kétu e Ṣàbẹ́. Também era o patrono da linhagem real dos Aro, (daí a saudação Oke Aro), e das demais linhagens reais de Kétu.

Àirá Intilẹ̀ por sua vez é a divindade da justiça, dos trovoes e dos raios da fronteira de Kétu e Ṣàbẹ́.

No entanto, Ọdẹ Ọni Pòpò, que já era o onílẹ̀ em terras africanas e ancestral mítico dos Aro, foi consagrado aqui também como onílẹ̀ em um culto doméstico, sendo esta a primeira versão do candomblé baiano em 1798. Por outro lado, Àirá Intilẹ̀ foi intitulado o onílé (senhor da casa).

Quando do retorno de Otampe Ojaro da África, os cultos de Àirá Intilẹ̀ e de Òṣùmàrè (Òrìṣà de Ojaro), estraram em competição na Barroquinha e como não houve consenso sobre qual Òrìṣà seria o patrono da futura casa (não tendo o “patrono” nada a ver com o “onílẹ̀”, pois este título era inquestionavelmente de Ọdẹ Ọni Pòpò), a família Régis mudou-se para Matatu de Brotas em Salvador, fundando um candomblé de culto específico a Òṣùmàrè, havendo, então, a primeira cisão no candomblé da Bahia. Por outro lado, os demais permaneceram na Barroquinha onde arrendaram um terreno e fundaram em 1807 um candomblé de culto a Àirá, o Ilé Àṣẹ Àirá Intilẹ̀. Em ambas as casas, Ọdẹ Ọni Pòpò permaneceu como o onílẹ̀.

 

 

Especificamente em que local se deu esse candomblé da Barroquinha de culto a Àirá Intilẹ̀?

É muito difícil precisar, porém, documentos apontam para a Rua da Lama e o assentamento de Àirá Intilẹ̀ se localizava dentro de uma arvore oca que ficava no terreno e que fora atingida por um raio. Àirá é um Òrìṣà dos raios e “tocou” a referida árvore sinalizando o local do seu culto. Dentro dessa árvore queimada estava dissimulado um túnel amplo e seguro para o culto.

Ìyá Adetá, Ìyá Akálà e Ìyá Naso. Quem foram elas e quando figuraram na história do candomblé da Barroquinha?

Conforme Silveira, Ìyá Adetá teria sido a sacerdotisa da linhagem Aro a fundar a primeira versão do candomblé baiano a Ọdẹ Ọni Pòpò por volta de 1798. Ela seria a responsável pela guarda das gêmeas Otampe Ojaro e Ìyá Obòkò Miṣòbí, tendo sido sequestrada junto com elas pelos daomeanos. Ìyá Adetá, portanto, teria sido a primeira sacerdotisa fundadora de àṣẹ na Bahia.

Em seguida, Ìyá Akálà foi quem plantou o àṣẹ de Àirá, fundando o Ilé Àṣẹ Àirá Intilẹ̀ na Barroquinha, em 1807 como dissemos, sendo ela a segunda ìyálòrìṣà yorubá na Bahia. Apesar de Àirá Intilẹ̀ ser o onílé (ônilê: senhor da casa – não confundir com onílẹ̀ (onilé): senhor da Terra), outras formas de Àirá também eram cultuadas na Bahia, como Ìgbónán e Ajaosi.

Ìyá Naso, por sua vez, era uma figura nobre do império de Ọ̀yọ́, responsável pelo culto de Ṣàngó, mas é provável que ela tenha chegado às terras baianas somente mais tarde, em meados da década de 1830, com a missão de comandar a união das diversas divindades africanas em um único templo religioso. Ìyá Naso chamava-se Francisca da Silva, era africana yorubá, casada com José Pedro Autran, também africano. O casal residia na Ladeira do Carmo e era possuidor de um bom número de escravos, o que era muito comum à época e servia muito para de proteção para amigos e parentes, sendo estes escravos, “de faixada” para estarem juntos aos seus e não sofrerem com o trabalho e as penalidades dos senhores brancos.

Foi Ìyá Naso quem introduziu no Brasil o culto de Ṣàngó e demais divindades guerreiras que chegando aqui foram associadas a ele, como Ògòdò, Aganjú e Igbaru.

 

 

Falaremos mais de Ìyá Naso em uma matéria específica sobre ela e suas sucessoras, entre elas, Marcelina Ọbatosi. Falaremos também em outra matéria, sobre a importância dos homens na fundação destes àṣẹ acima mencionados, pois sem eles nada teria se concretizado.

 

 

Texto escrito por Gill Sampaio Ominirô sobre ensaios de Renato da Silveira, doutor em antropologia e professor da UFBA; Lisa Earl Castilho, doutora pelo Instituto de Letras da UFBA e Luis Nicolau Parés, professor de antropologia da Universidade Federal da Bahia.

Comentários

wellerson em 09/09/2015 12:48:39
Muito bom sempre tem algo a mais quê possamos saber...
Edson Alves da Silva em 30/03/2015 15:44:17
Adorei.
FREDDY ASSIS RIBEIRO em 30/03/2015 15:24:17
muito bom o texto
renato em 27/03/2015 23:33:07
Linnnnnnnnnnnnnnnnnnndo
maisa em 25/03/2015 06:52:57
Simplesmente perfeito
fácil leitura
facil entendimento
prazeroso de ler
fico feliz em poder esta desfrutando deste rico material
Parabéns.

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