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O Sacrifício de Animais no Candomblé

Parte II - O Aspecto Antropológico

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 14/07/2016 às 04h07

 

sacrifício de animais

 

 

O aspecto antropológico  

Por Gill Sampaio Ominirò

 

Na segunda parte da série O Sacrifício de Animais no Candomblé, vamos abordar o pensamento antropológico de alguns cientistas importantes que se debruçaram sobre o tema “sacrifício”. Nesta perspectiva, a Ìwé Ìmọ̀ irá, na medida do possível relacionar as teorias apresentadas em contextos gerais com a especificidade do sacrifício nos rituais das religiões afro-brasileiras que o praticam, com ênfase, é claro, no candomblé, religião alvo do nosso site.

 

A tal da Antropologia

 

Apesar dos estudiosos que ao longo da História observavam os povos de vários lugares mundo a fora, fazendo-o do conforto de seus locais de trabalho, somente em meados do século XVIII é que a Antropologia começa a aparecer como ciência. Ela é a ciência que estuda as culturas humanas e investiga as origens, o desenvolvimento e as semelhanças das sociedades assim como as diferenças entre elas.

 

A palavra

 

O termo sacrifício vem do latim, sacrificium, composto de sacer e ficium, palavras aparentadas ao contexto das antigas celebrações ritualísticas da cultura indo-europeia, significando exatamente o "ato de fazer o sagrado", ou seja, o ato de passar da esfera do profano para a esfera do sagrado. Daí o erro crasso de se chamar a morte de animais em estado de terminal de sacrifício.

 

sacrifício de animais

O sacrifício na Grécia Antiga era de origem alimentar, envolvendo um animal doméstico como os que hoje nos servem de alimento. 

 

Mitologia e sacrifício

 

Em uma entrevista, fizeram a Claude Lévi-Strauss a seguinte pergunta: "O que é um mito?". E o antropólogo assim respondeu: "Se você perguntasse a um índio americano, é muito provável que ele respondesse: é uma história do tempo em que os homens e os animais ainda não se distinguiam. Esta definição me parece muito profunda”.

 

É importante destacar, assim, o papel dos mitos no fomento da prática do sacrifício. É o mito que, em geral, relaciona a sorte, a bem-aventurança com os sacrifícios necessários e pertinentes. Observem abaixo o cântico ao òrìṣà Ògún, o qual faz referência a um sacrifício necessário para a continuação de sua jornada:

 

Ògún àjó ẹ mọ̀riwò

Alàkóró àjó ẹ mọ̀riwò

Ògún pa lépa’nọ̀n

Ògún àjó ẹ mọ̀riwò

Ẹ máa tu ẹiyẹ

 Tradução:

Ògún que viaja vestido com o mọ̀riwò (folhas novas do dendezeiro desfiadas)

O Senhor do Àkóró viaja vestido com o mọ̀riwò

Ògún limpa os caminhos

Ògún que viaja vestido com o mọ̀riwò

 E faz o sacrifício com o pássaro

 

A mitologia, de uma forma geral, elabora representações do divino, mas não o faz a partir de dados arbitrários. Os mitos conservam o vestígio de sua origem: um sacrifício forma o episódio central da vida legendária das divindades que provêm de um sacrifício. No mito do Àdàbà (streptopelia semitorquata), por exemplo, o qual alicerça o èèwọ (interdito), em relação aos sacrifícios de ẹiyẹlé (pomba) para Ọ̀ṣun, fica muito evidente a relação do mito com a prática de um ritual ad eternum. Ou seja, o mito proíbe, eternamente, que haja sacrifícios de pomba para Ọ̀ṣun, por causa de sua gratidão ao animal que lhe ajudou a se liberar do cárcere privado no qual ela se encontrava. Portanto, esse episódio determinou a forma do ritual de sacrifício à divindade. Observem o cântico que encerra a proibição estabelecida no mito: 

 

Àdàbà orò ma fẹ

     Ò fẹ́ lẹ (ẹiyẹlé) ó

Tradução: 

É Àdàbà que ela quer para o sacrifício

Ela não quer pomba

  

Noutro mito, de imensa popularidade, a mãe de Ọ̀ṣọ́tokanṣoṣó (Ọ̀ṣọ́ọ̀sí), temendo pela vida do filho, foi a um bàbáláwo (sacerdote do oráculo de Ifá),  e este recomendou que ela fizesse um ẹbọ (oferenda), para agradar as àjẹ́ (feiticeiras divinas), as quais enviaram um terrível mostro para aterrorizar a cidade de Ifẹ e ele teria de matá-lo ou seria condenado à morte pelo Ọ́ọ̀ni (rei da cidade). A mãe de Ọ̀ṣọ́tokanṣoṣó sacrificou, então, uma adì (galinha) para as àjẹ́ e seu filho conseguiu matar o monstro. Aqui, observamos a necessidade do sacrifício animal com o intuito de abrandar uma fúria divina que reclamava de uma injustiça, pois as àjẹ́ se rebelaram por não terem sido convidadas para a grande festa da cidade, elas que são as mães primordiais.

 

É fato que o sacrifício precisa se repetir periodicamente porque o ritmo da natureza exige essa periodicidade. Portanto, o mito faz a divindade viva sair da prova para submetê-la novamente a ela, de modo que constitui sua vida como uma cadeia ininterrupta de paixões e ressurreições.

 

Sacrifício védico (hindu) de um cavalo - asvamedha.

 

O sacrifício no culto afro-brasileiro

 

Sacrifício é a prática de oferecer alimento ou a vida de animais às divindades como forma de culto. Ele não é sinônimo de matar. Apesar da linha tênue que os separa, o sacrifício está fundamentado na troca.

 

O sacrifício de animais nas religiões afro-brasileiras é milenar, tendo em vista terem herdado esta prática das antigas religiões africanas de culto aos òrìṣà, voodoo e nkisi. Ele é um uma modalidade de cultura que não separa o divino, o humano e o natural nem mesmo no sofrimento. Neste sacrifício, há uma única pessoalidade em metamorfose e renascimento. Por estarem o divino, o humano e o natural congregados numa unidade, o sacrifício perfaz um momento especial de fusão de destinos e renascimentos em uma unidade, simultaneamente animal, humana e divina. Ele só ocorre quando não há a recusa destas três partes que se entregam ao acontecimento cósmico.

 

Ademais, as apuradas sensibilidades desenvolvidas nestas religiões para o cuidado do animal não podem ser substituídas por técnicas veterinárias, porque aquelas são de tradições religiosas antigas, mais sensíveis, sofisticadas e, sobretudo, abertas a insondáveis dimensões cósmicas.

 

Entendo que o sacrífico de animais, diferentemente do sacrifício de vegetais, restabelece o poder energético do sacrificante, equilibrando estas energias metafísicas para que se alcance a plenitude espiritual. Traduzindo para o plano afro-religioso, trata-se da consecução e estabilidade do àṣẹ. Por outro lado, o ẹ̀jẹ̀ ewé, o “sangue das folhas”, ou seja, a clorofila na seiva elaborada, não tem esse poder, pois é frio e desprovido de vida ao ser a folha, seu receptáculo, retirada da planta. No entanto, é o ẹ̀jẹ̀ ewé pós sasányìn (ritual de encantamento das folhas), que dá condições para que esta estabilidade do àṣẹ aconteça.

 

O àṣẹ é, inequivocamente, o intuito primaz das religiões que cultuam òrìṣà, voodoo ou nkisi, seja em África ou na diáspora. Assim, o restabelecimento e o equilíbrio pleno do àṣẹ é o momento sublime do encontro com a divindade suprema destes cultos, com Olódùmarè, Mawu ou Nzambi Mpungu (Deus, nas diferentes línguas rituais de cada culto mencionado acima, respectivamente).

 

candomblé

Momento em que um adepto do candomblé estabelece, através de um cumprimento ritual, a troca de cabeça.  

 

Os pensadores e o sacrifício

 

Segundo o antropólogo inglês Edward Burnett Tylor “o sacrifício é originalmente uma dádiva que o selvagem faz aos deuses, aos quais é conveniente a ele se ligar”. Tylor diz que estes mesmos deuses começam a se afastar dos homens e para que isto não aconteça, criam-se os ritos sacrificiais os quais têm como objetivo fazer chegar aos seres espirituais as coisas sagradas, mantendo assim um contato entre eles. No entanto, apesar de a teoria de Tylor descreve bem as fases do desenvolvimento moral do fenômeno, ela não explica o seu mecanismo, o qual os antropólogos franceses Marcel Mauss e Henri Hubert julgavam necessário fazê-lo. E vão muito além, fazendo uma profunda análise do sacrifício.

 

Eles definem, então, o sacrifício como um “ato religioso que, mediante a consagração de uma vítima, modifica o estado da pessoa moral que o efetua”. Esta modificação sacraliza o ato que se autojustifica pela purificação que executa. Os autores apontam a “natureza e função social do sacrifício”. Que há nele uma força motriz que provoca a comunhão, além de ter uma finalidade na sociedade na qual ele se realiza. Segundo eles, há que se destacar a presença de um esquema para a realização do sacrifício que ocorre com poucas variações, em muitos povos.

 

Mauss e Hubert propõem-se alcançar o núcleo da questão, ou seja, a natureza e a função de fenômenos diversos classificados sob o rótulo “sacrifício”. Eles se concentram em dois exemplos da Antiguidade, anunciados como “típicos”: o judaísmo e hinduísmo. Para tanto, valem-se das informações contidas nos livros sagrados, como o Pentateuco Judaico e os textos Védicos Hindus. Se o monoteísmo judaico supõe uma divindade única e transcendente, o panteísmo védico concebe uma relação de imanência entre a divindade e o mundo.

 

Se seguirmos a filosofia religiosa yorubá, o candomblé, que dela descende, é uma religião monoteísta, pois cultua os òrìṣà a fim de se chegar a Olódùmarè (Deus Supremo) e, portando, o exemplo judaico nos contemplaria. Por outro lado, os que entendem que o candomblé é uma religião politeísta, o exemplo hindu, por sua vez, contemplaria essa forma de visão.

 

E. B. Tylor

O antropólogo Edward Burnett Tylor (Londres, 2 de outubro de 1832 - Wellington, 2 de janeiro de 1917). 

 

De volta aos autores, observamos que eles concordam parcialmente com Tylor, no momento em que entendiam que o sacrifício constituía uma forma de dádiva (alimento) do fiel à sua divindade, conferindo àquele algum direito sobre esta. Além disso, eles entendiam que o sacrifício era uma forma de consagração, uma espécie de passagem do domínio comum ao domínio religioso. Mais que uma oferenda, o objeto do sacrifício é total ou parcialmente consumido, igualmente como é no caso do candomblé.

 

Mauss e Hubert explicam um aspecto muito particular do sacrifício religioso. Eles argumentam que no sacrifício há um ato de abnegação, já que o sacrificante se priva e dá. E geralmente essa abnegação lhe é mesmo imposta como um dever, pois o sacrifício nem sempre é facultativo. As divindades o exigem em benefício da cura. De natureza igual, sabe-se que no candomblé os sacrifícios regulares são chamados popularmente de “obrigações” e não à toa. Estes rituais temporais são obrigatórios para o restabelecimento do vínculo com a divindade, dentre outras coisas.

 

Mas essa abnegação e essa submissão não suprimem o interesse quanto ao retorno: o sacrificante dá algo de si e é em parte para receber e quando recebe, ele serve novamente às divindades. O sacrifício se apresenta, assim, sob as leis da dádiva. É uma forma de contrato: as partes envolvidas trocam seus serviços e cada uma tem a sua parte, pois as divindades também têm necessidade dos humanos.

 

Mauss e Hubert, aparentemente, veem o sacrifício externo aos vínculos sociais, mas através de uma concepção mítica e religiosa por estar relacionado a motivações sobrenaturais, sendo ele “considerado a própria condição da existência divina. É ele quem fornece a matéria imortal de que vivem as divindades. Assim, não só é no sacrifício que algumas divindades nascem, mas é ainda pelo sacrifício que todos mantêm sua existência”.


Mauss, estudando as trocas entre os homens e divindades, observa que um dos primeiros grupos de seres com os quais os homens tiveram que contratar e que, por definição, ali estavam para contratar com eles foi, antes de tudo, o dos espíritos dos mortos e das divindades. Com efeito, são eles os verdadeiros proprietários das coisas e dos bens do mundo. Era com eles que era mais necessário trocar e mais perigoso não trocar. Inversamente, porém, era com eles que era mais fácil e mais seguro trocar. O sacrifício tem precisamente uma finalidade de doação que é necessariamente retribuída.

 

Ele estabelece um contrato entre o homem e a divindade, obrigando esta a retribuir, através de determinados atos em troca dos sacrifícios. E jamais simplesmente por amor ou boa vontade. As divindades estendem aos fiéis sua proteção na permuta do sacrifício. Não existe uma vontade divina livre de “doar”, pois só existe a “doação” à medida que existe o sacrifício.

 

Para Mauss e Hubert, “se o sacrificante dá alguma coisa de si, ele não se dá; ele se reserva prudentemente. O sacrifício se apresenta, portanto, sob duplo aspecto: É um ato útil e é uma obrigação. O desinteresse se mistura aí com o interesse. As duas partes em presença trocam serviços e cada uma tem aí sua conta”. Notem que os autores, apesar de desconhecerem as religiões afro-brasileiras, exprimem o cerne do sacrifício ritual nestes cultos: sacrificar um animal em troca de si: 

Orí ẹran ẹ gbà e máṣe gbà orí mi.

Receba a cabeça do animal, deixe a minha.

 

Marcel Mauss

O antropólogo Marcel Mauss (Épinal, 10 de Maio de 1872 — Paris, 10 de Fevereiro de 1950).

 

É fato que um sacrifício sempre implica numa consagração, que modifica o estado das coisas. Passa-se do domínio do profano para o do sagrado. O inverso também ocorre; basicamente, o sacrifício é um processo de sacralização e dessacralização de algo. Importante destacar que, após o sacrifício, os contatos com o sagrado não são rompidos. É necessário, portanto, uma série de procedimentos a fim de que os envolvidos no ritual possam voltar ao âmbito do profano. Mais uma vez as teorias contemplam o candomblé, se lembrarmos de que no paná (metaforicamente “o fim do sofrimento”), ritual pelo qual o ìyawó (iniciado), passa no término de sua iniciação, ocorrem procedimentos a fim de que ele possa se reintegrar ao espaço profano, ou seja, à vida comum fora do sagrado.

 

Cabe ressaltar que, segundo Mauss e Hubert, todo sistema sacrificial pode ser reduzido a quatro elementos: sacrificante, vítima, divindade e sacrificador. O sacrificante é, antes de tudo, aquele que se submete aos efeitos e colhe os benefícios do sacrifício. Ele pode ser um só indivíduo, toda uma coletividade ou mesmo um objeto.

 

Isso se deve, segundo Claude Lévi-Strauss que volta a esse tema em “O pensamento selvagem”, à possibilidade de substituição dos termos postulados pelos sistemas sacrificiais. A vítima, em suma, deve ser um intermediário, um elo entre o sacrificante e a divindade referida na mitologia. Já o sacrificador ou sacerdote é simplesmente aquele que propicia essa intermediação.

 

Claude Levi-Strauss

O antropólogo Claude Lévi-Strauss (Bruxelas, 28 de novembro de 1908 — Paris, 30 de outubro de 2009).

 

Em linhas gerais, Mauss e Hubert sugerem que todo sacrifício propicia a comunicação e a produção de uma continuidade entre os homens e o mundo divino. E isso ocorre mediante a presença do ser vivente que se submete a um processo de sacralização, ou seja, de contato com uma realidade separada ou sobre-humana. O aniquilamento de esse ser vivente significa a liberação de uma espécie de substância sagrada, que é transferida ao sacrificante. Nesse sentido, os ritos sacrificiais devem findar com atos de purificação, pois o que foi unido deve ser novamente separado.

 

Mauss e Hubert finalizam sua obra nos mostrando que se tomássemos o sacrifício como algo pertencente apenas à esfera imaginária e que tudo isto é um jogo de imagens, ficaríamos cegos para o fato de que todos estes ritos são realidades verídicas. Pois as noções religiosas, por serem objetos de crença, existem objetivamente como fatos sociais. As coisas sagradas são coisas sociais. Assim, compreendemos que a função social do sacrifício está nos símbolos sociais que o crente exprime para si mesmo.

 

Estas teorias não estabelecem um fim à discussão, ao debate, mas nos dá algumas dimensões bastante concretas. Uma delas é que, qualquer que seja a diversidade do ato, o sacrifício remete sempre à representação e à introjeção da morte na constituição de um sistema social e simbólico na manutenção da vida. Vida e morte, então, estão estreitamente interligadas no ritual do sacrifício.

 

É preciso ressaltar que a obra de Mauss e Hubert deixa evidente, no que diz respeito ao candomblé, que este deve ser avaliado com base na manifestação de uma cultura legítima, a qual não se estrutura nem se legitima na tortura ou nos maus-tratos aos animais, pretextos pelos quais ele é sistematicamente difamado.

 

Enfim, repito que o sacrifício é a ação que sacraliza este ato e que se autojustifica pela purificação que executa.

 

 

Bibliografia 

 

LÉVI-STRAUSS, Claude & Eribon, Didier. De perto e de longe – entrevista com Claude Lévi-Strauss. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988;

LÉVI-STRAUSS, Claude. O pensamento selvagem. Campinas. Papirus, 1990;

MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva, in Sociologia e Antropologia. São Paulo. Cosac Naify.  2003;

MAUSS, Marcel e HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia, in Sociologia e Antropologia. São Paulo. Cosac Naify.  2003;

MAUSS, Marcel e HUBERT, Henri. Sobre o sacrifício. São Paulo. Cosac Naify. 2005;

TYLOR, Edward Burnett. La Civilisation Primitive. Paris. 1876.

 

 

Capa do livro "Sobre o sacrifício", originalmente publicado em 1899 sob o título “Essai sur la nature et la fonction du sacrifice”.

 

 

Categoria: Antropologia, Àṣẹ, Cultura, Rituais, Sacrifício de animais, Transmissão de Conhecimento
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Parte I - O Aspecto Religioso

Publicado por Gill Sampaio Ominirò em 10/06/2016 às 18h00

 

 

 

O aspecto religioso

 Por Gill Sampaio Ominirò

 

De início, é importante esclarecer que o sacrifício de animais não é uma prática exclusiva das Religiões Afro-brasileiras. Ela é adotada, por exemplo, por parte dos muçulmanos quando se finda o período chamado de Ramadã, no qual um cordeiro é degolado, e na religião judaica existe o kosher, um ritual de abate para a preparação de alimentos. O termo hebraico kosher significa “bom” e “próprio”, sendo utilizado para designar alimentos preparados de acordo com as leis judaicas de alimentação. A Torá exige que bovinos e frangos sejam abatidos de acordo com essas Leis, num ritual chamado Shechita. Apenas uma pessoa treinada, denominada Shochet, é apta a realizar esse ritual. Antes do Shechita é realizada uma oração especial chamada Beracha.

 

O objetivo do ritual é proporcionar a eliminação máxima de sangue possível no sacrifício do animal, sem que este sofra. Isso é obtido pela degola do animal de forma a conferir uma rápida inconsciência e insensibilidade. A degola é feita pelo corte das artérias carótidas e veias jugulares, sem, no entanto, atingir as vertebras cervicais.

 

Encontram-se ainda notícias de sacrifício de animais por toda a bíblia, embora os Cristãos não se utilizem mais dessa prática depois da morte de Cristo. Os Incas e os Astecas, em honra ao deus Sol, sacrificavam humanos no topo de pirâmides, como forma de oferendas, pois pensavam que, assim, aplacariam sua ira e evitariam calamidades. Atualmente, encontra-se o sacrifício de animais no Hinduísmo, no Islamismo, como já dito, e nas religiões afro-brasileiras, como o Candomblé da Bahia, o Xangô do Recife, o Batuque do Rio Grande do Sul e, em geral, na Umbanda.

 

A turba da ignorância

 

Pretendo me ater à prática do sacrifício para o candomblé, pois é o foco central deste site. Assim, nele, de uma forma geral, o sacrifício em destaque é o de ordem animal, apesar de também ocorrer na ordem vegetal (oferenda de frutas, verduras, legumes, grãos etc.).

 

Mas é no sacrifício de ordem animal que se encontra a polêmica no seu ritual, por parte de não integrantes desta religião, os quais, julgam que o sacrifício sagrado se dá num ato de crueldade e tortura com os animais. Este argumento, baseado na ignorância, no desconhecimento da prática do ritual, é um dos alicerces da falácia daqueles que, na verdade, pretendem alicerçar sua intolerância religiosa contra as religiões negras.

 

Vale destacar que neste seguimento religioso brasileiro cujas divindades, os Òrìṣà, são de origem yorubá, animais são mortos de forma muito diferenciada. São imolados. O sacrifício não é um simples extermínio do animal sem a preocupação com seu sofrimento. Pelo contrário, o animal não pode nem deve sofrer. De tal modo, antes de ser sacrificado ele deve estar limpo e alimentado, além de ser saudável, adulto e bem cuidado até o momento da imolação.

 

O estanque da dor

 

É fato que os animais, ao serem preparados para o sacrifício, são devidamente manuseados sem que haja qualquer forma de tortura e, ao serem sacrificados, têm a cabeça separada do corpo de imediato. Neste momento, seu cérebro, o qual recebe informações sensoriais, como o medo, é desativado. Assim, o sistema nervoso central, agora sem ação, não permite que haja a sensação da dor. Inversamente, o sistema nervoso autônomo, este que envia impulsos nervosos dos órgãos viscerais para o sistema nervoso central também é interrompido e, portanto, não permite que o animal sofra nenhuma aflição.

 

Além disso, os cuidados com o sangue e o corpo do animal são absolutamente observados. Essencialmente, ambos foram sacralizados e, como tal, não podem entrar em contato com o profano. Mesmo morto, o animal é respeitado, limpo, cozido e servirá de alimento para toda a comunidade religiosa. As vísceras, igualmente sagradas, serão limpas e preparadas como oferenda aos Òrìṣà.

 

O sacrificador

 

Importante ressaltar que a pessoa que fará o sacrifício deve estar preparada para tal finalidade. Em geral é um sacerdote consagrado a Ògún, o àṣògún, que organiza, gerencia e efetiva o sacrifício. Trata-se de uma pessoa instrumentalizada para o sacrifício e observará com muito cuidado o animal e seu corpo. O processo se dá em clima de fé, concentração e disciplina.

 

Outro dado importante é o local do sacrifício. Para ocorrer, sem que haja contaminação com o profano, o sacrifício deve ser realizado em local específico e em horários determinados. Se a cerimônia for realizada fora do local estabelecido, a imolação não é mais do que uma eliminação da vida, o que desvincula completamente o sacrifício do sagrado. O lugar onde se sacrificam os animais é parte do esquema sagrado e é de extrema importância, pois não se pode sacrificar em qualquer lugar, ou ainda, utilizar instrumentos que não estejam devidamente purificados para a realização da cerimônia.

 

O que diz Mãe Stella?

 

Em artigo de 2013, Mãe Stella de Ọ̀ṣọ́ọ̀sí, sacerdotisa do Ilé Àṣẹ Opò Àfonjá, Salvador – Bahia, diz o seguinte sobre o sacrifício de animais:

 

Oferecemos aos deuses¹ tudo aquilo que nos mantém vivos e alegres: alimentos, flores, perfumes, água limpa e fresca. Tranquilizo os leitores dizendo que no dia em que os homens deixarem de ter na mesa galinha, galo, carneiro, porco, boi… naturalmente esses animais deixarão de ser ofertados aos deuses. Se um dia o sacrifício humano existiu foi porque as tribos se alimentavam de seus semelhantes. Se a desculpa para crítica de sacrifício de animais se deve ao fato de eles serem seres vivos, gostaria de lembrar que laranja, alface, couve também são seres vivos.²

 

Não há desordem

 

Destaca-se que os animais que serão usados variam e dependem do Òrìṣà a quem a oferta é feita. Enquanto algumas espécies podem ser sacrificadas em honra de mais de uma divindade, outras são específicas a determinadas divindades. Algumas têm funções específicas como de limpeza, são oferecidas aos Òrìṣà como parte de um ritual de cura ou são usados para o bọrí, por exemplo, um ritual de oferenda à cabeça espiritual da pessoa.

 

Por outro lado, o candomblé tradicional não admite o sacrifício de animais domésticos, como cães, gatos e de animais silvestres, tendo em vista as proibições legais. Esta questão do uso e proibição de espécies animais ficará mais clara na Parte III deste assunto, quando abordarei o aspecto jurídico-legal do sacrifício de animais nas religiões afro-brasileiras.

 

O sacrifício e a encruzilhada

 

Ao descrever o sacrifício de forma tão asseada de mistificações com o objetivo de minimizar preconceitos, muitos irão se perguntar: “e os animais mortos nas ruas e encruzilhadas urbanas?”. Uma pergunta muito complexa, mas necessária, pertinente.

 

Em primeiro lugar é preciso esclarecer que não faz parte do ritual do candomblé tradicional o ẹbọ (sacrifício, oferenda), nas ruas urbanas, feitos em geral para entidades catiças ou até para Èṣù. Pois, Èṣù nas casas de candomblé tradicionais recebe seus sacrifícios dentro do espaço do terreiro, numa casa específica para ele, o Ilé Èṣù, a casa de Èṣù. É fato que há um caminho de Èṣù que rege, domina o espaço da encruzilha, mas não necessariamente ele precisa receber sacrifícios animais nela. A encruzilhada, em yorubá ìkóríta, é o local físico no qual se encontram duas dimensões abstratas, a saber, o Ọ̀run e o Àiyé. Nesta perspectiva, o Èṣù específico denominado para cuidar deste portal é o Ìkóríta Mẹ́tà. Portanto, se faz necessário lhe agradar sempre, saudá-lo, mas não necessariamente com sacrifícios no espaço urbano. Tanto podem ser feitos no espaço interno sagrado dos terreiros, como também em espaço não urbanos, em encruzilhadas de terra, mais distantes, desde que o local seja sacralizado antes do ato.

 

A importância do sangue

 

A vida do animal está essencialmente no sangue e, portanto, oferecê-lo é oferecer vida, com o fim de promovê-la e preservá-la, estabelecendo um vínculo de união com a divindade. O sangue é o elemento mais importante do sacrifício e, assim, não se imola nenhum animal diretamente na cabeça de uma pessoa. O sangue é recolhido num vasilhame sacralizado para somente depois de misturado com outros elementos igualmente sacralizados, ser colocado sobre os símbolos das divindades.

 

O animal e o seu sangue são oferecidos em troca da vida da pessoa que os oferta, tendo em vista que os sacrifícios humanos foram abolidos há séculos. No sacrifício se estabelece, então, uma troca, uma dádiva, algo que será explanado do ponto de vista da antropologia na Parte II desta trilogia sobre o sacrifício de animais.

 

Assim, existe uma noção de manutenção do equilíbrio das forças que permeiam toda a relação dos adeptos com a natureza. Nesse sentido, ao se realizar uma oferenda, entende-se como um pagamento a algo que o Òrìṣà deu e precisa ser devolvido.

 

O provérbio yorubá a seguir define este processo de troca:

  

Orí ẹran ẹ gbà e máṣe gbà orí mi.

“Receba a cabeça do animal, deixe a minha.”

 

 

Enfim, o sacrifício no candomblé, e por extensão nas religiões afro-brasileiras, não se trata de uma carnificina sem sentido. Nele, o animal é mais observado em seu direito do que num abatedouro que o mata sem que haja a preocupação, em nenhum momento, com seu sofrimento.

 

Fica o questionamento, a dúvida de saber se os que condenam o sacrifício de animais em rituais religiosos dispensam a carne do boi ou porco abatidos com crueldade ou a do frango que foi morto de cabeça para baixo num aviário.

 

 

Notas: 

1. Não utilizamos a expressão “deuses” para nos referirmos aos Òrìṣà nessa página e em nosso site. Utilizamos a expressão “divindades” por compreender a religião dos Òrìṣà como monoteísta.

2. Santos. Maria Stella de Azevedo. Balaio de Ideias: Ritual e Sacrifício, 31 de agosto de 2013. Link: http://mundoafro.atarde.uol.com.br/balaio-de-ideias-ritual-e-sacrificio/

 

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