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Parte I - O Aspecto Religioso

Publicado por em 10/06/2016 às 18h00

 

 

 

O aspecto religioso

 Por Gill Sampaio Ominirò

 

De início, é importante esclarecer que o sacrifício de animais não é uma prática exclusiva das Religiões Afro-brasileiras. Ela é adotada, por exemplo, por parte dos muçulmanos quando se finda o período chamado de Ramadã, no qual um cordeiro é degolado, e na religião judaica existe o kosher, um ritual de abate para a preparação de alimentos. O termo hebraico kosher significa “bom” e “próprio”, sendo utilizado para designar alimentos preparados de acordo com as leis judaicas de alimentação. A Torá exige que bovinos e frangos sejam abatidos de acordo com essas Leis, num ritual chamado Shechita. Apenas uma pessoa treinada, denominada Shochet, é apta a realizar esse ritual. Antes do Shechita é realizada uma oração especial chamada Beracha.

 

O objetivo do ritual é proporcionar a eliminação máxima de sangue possível no sacrifício do animal, sem que este sofra. Isso é obtido pela degola do animal de forma a conferir uma rápida inconsciência e insensibilidade. A degola é feita pelo corte das artérias carótidas e veias jugulares, sem, no entanto, atingir as vertebras cervicais.

 

Encontram-se ainda notícias de sacrifício de animais por toda a bíblia, embora os Cristãos não se utilizem mais dessa prática depois da morte de Cristo. Os Incas e os Astecas, em honra ao deus Sol, sacrificavam humanos no topo de pirâmides, como forma de oferendas, pois pensavam que, assim, aplacariam sua ira e evitariam calamidades. Atualmente, encontra-se o sacrifício de animais no Hinduísmo, no Islamismo, como já dito, e nas religiões afro-brasileiras, como o Candomblé da Bahia, o Xangô do Recife, o Batuque do Rio Grande do Sul e, em geral, na Umbanda.

 

A turba da ignorância

 

Pretendo me ater à prática do sacrifício para o candomblé, pois é o foco central deste site. Assim, nele, de uma forma geral, o sacrifício em destaque é o de ordem animal, apesar de também ocorrer na ordem vegetal (oferenda de frutas, verduras, legumes, grãos etc.).

 

Mas é no sacrifício de ordem animal que se encontra a polêmica no seu ritual, por parte de não integrantes desta religião, os quais, julgam que o sacrifício sagrado se dá num ato de crueldade e tortura com os animais. Este argumento, baseado na ignorância, no desconhecimento da prática do ritual, é um dos alicerces da falácia daqueles que, na verdade, pretendem alicerçar sua intolerância religiosa contra as religiões negras.

 

Vale destacar que neste seguimento religioso brasileiro cujas divindades, os Òrìṣà, são de origem yorubá, animais são mortos de forma muito diferenciada. São imolados. O sacrifício não é um simples extermínio do animal sem a preocupação com seu sofrimento. Pelo contrário, o animal não pode nem deve sofrer. De tal modo, antes de ser sacrificado ele deve estar limpo e alimentado, além de ser saudável, adulto e bem cuidado até o momento da imolação.

 

O estanque da dor

 

É fato que os animais, ao serem preparados para o sacrifício, são devidamente manuseados sem que haja qualquer forma de tortura e, ao serem sacrificados, têm a cabeça separada do corpo de imediato. Neste momento, seu cérebro, o qual recebe informações sensoriais, como o medo, é desativado. Assim, o sistema nervoso central, agora sem ação, não permite que haja a sensação da dor. Inversamente, o sistema nervoso autônomo, este que envia impulsos nervosos dos órgãos viscerais para o sistema nervoso central também é interrompido e, portanto, não permite que o animal sofra nenhuma aflição.

 

Além disso, os cuidados com o sangue e o corpo do animal são absolutamente observados. Essencialmente, ambos foram sacralizados e, como tal, não podem entrar em contato com o profano. Mesmo morto, o animal é respeitado, limpo, cozido e servirá de alimento para toda a comunidade religiosa. As vísceras, igualmente sagradas, serão limpas e preparadas como oferenda aos Òrìṣà.

 

O sacrificador

 

Importante ressaltar que a pessoa que fará o sacrifício deve estar preparada para tal finalidade. Em geral é um sacerdote consagrado a Ògún, o àṣògún, que organiza, gerencia e efetiva o sacrifício. Trata-se de uma pessoa instrumentalizada para o sacrifício e observará com muito cuidado o animal e seu corpo. O processo se dá em clima de fé, concentração e disciplina.

 

Outro dado importante é o local do sacrifício. Para ocorrer, sem que haja contaminação com o profano, o sacrifício deve ser realizado em local específico e em horários determinados. Se a cerimônia for realizada fora do local estabelecido, a imolação não é mais do que uma eliminação da vida, o que desvincula completamente o sacrifício do sagrado. O lugar onde se sacrificam os animais é parte do esquema sagrado e é de extrema importância, pois não se pode sacrificar em qualquer lugar, ou ainda, utilizar instrumentos que não estejam devidamente purificados para a realização da cerimônia.

 

O que diz Mãe Stella?

 

Em artigo de 2013, Mãe Stella de Ọ̀ṣọ́ọ̀sí, sacerdotisa do Ilé Àṣẹ Opò Àfonjá, Salvador – Bahia, diz o seguinte sobre o sacrifício de animais:

 

Oferecemos aos deuses¹ tudo aquilo que nos mantém vivos e alegres: alimentos, flores, perfumes, água limpa e fresca. Tranquilizo os leitores dizendo que no dia em que os homens deixarem de ter na mesa galinha, galo, carneiro, porco, boi… naturalmente esses animais deixarão de ser ofertados aos deuses. Se um dia o sacrifício humano existiu foi porque as tribos se alimentavam de seus semelhantes. Se a desculpa para crítica de sacrifício de animais se deve ao fato de eles serem seres vivos, gostaria de lembrar que laranja, alface, couve também são seres vivos.²

 

Não há desordem

 

Destaca-se que os animais que serão usados variam e dependem do Òrìṣà a quem a oferta é feita. Enquanto algumas espécies podem ser sacrificadas em honra de mais de uma divindade, outras são específicas a determinadas divindades. Algumas têm funções específicas como de limpeza, são oferecidas aos Òrìṣà como parte de um ritual de cura ou são usados para o bọrí, por exemplo, um ritual de oferenda à cabeça espiritual da pessoa.

 

Por outro lado, o candomblé tradicional não admite o sacrifício de animais domésticos, como cães, gatos e de animais silvestres, tendo em vista as proibições legais. Esta questão do uso e proibição de espécies animais ficará mais clara na Parte III deste assunto, quando abordarei o aspecto jurídico-legal do sacrifício de animais nas religiões afro-brasileiras.

 

O sacrifício e a encruzilhada

 

Ao descrever o sacrifício de forma tão asseada de mistificações com o objetivo de minimizar preconceitos, muitos irão se perguntar: “e os animais mortos nas ruas e encruzilhadas urbanas?”. Uma pergunta muito complexa, mas necessária, pertinente.

 

Em primeiro lugar é preciso esclarecer que não faz parte do ritual do candomblé tradicional o ẹbọ (sacrifício, oferenda), nas ruas urbanas, feitos em geral para entidades catiças ou até para Èṣù. Pois, Èṣù nas casas de candomblé tradicionais recebe seus sacrifícios dentro do espaço do terreiro, numa casa específica para ele, o Ilé Èṣù, a casa de Èṣù. É fato que há um caminho de Èṣù que rege, domina o espaço da encruzilha, mas não necessariamente ele precisa receber sacrifícios animais nela. A encruzilhada, em yorubá ìkóríta, é o local físico no qual se encontram duas dimensões abstratas, a saber, o Ọ̀run e o Àiyé. Nesta perspectiva, o Èṣù específico denominado para cuidar deste portal é o Ìkóríta Mẹ́tà. Portanto, se faz necessário lhe agradar sempre, saudá-lo, mas não necessariamente com sacrifícios no espaço urbano. Tanto podem ser feitos no espaço interno sagrado dos terreiros, como também em espaço não urbanos, em encruzilhadas de terra, mais distantes, desde que o local seja sacralizado antes do ato.

 

A importância do sangue

 

A vida do animal está essencialmente no sangue e, portanto, oferecê-lo é oferecer vida, com o fim de promovê-la e preservá-la, estabelecendo um vínculo de união com a divindade. O sangue é o elemento mais importante do sacrifício e, assim, não se imola nenhum animal diretamente na cabeça de uma pessoa. O sangue é recolhido num vasilhame sacralizado para somente depois de misturado com outros elementos igualmente sacralizados, ser colocado sobre os símbolos das divindades.

 

O animal e o seu sangue são oferecidos em troca da vida da pessoa que os oferta, tendo em vista que os sacrifícios humanos foram abolidos há séculos. No sacrifício se estabelece, então, uma troca, uma dádiva, algo que será explanado do ponto de vista da antropologia na Parte II desta trilogia sobre o sacrifício de animais.

 

Assim, existe uma noção de manutenção do equilíbrio das forças que permeiam toda a relação dos adeptos com a natureza. Nesse sentido, ao se realizar uma oferenda, entende-se como um pagamento a algo que o Òrìṣà deu e precisa ser devolvido.

 

O provérbio yorubá a seguir define este processo de troca:

  

Orí ẹran ẹ gbà e máṣe gbà orí mi.

“Receba a cabeça do animal, deixe a minha.”

 

 

Enfim, o sacrifício no candomblé, e por extensão nas religiões afro-brasileiras, não se trata de uma carnificina sem sentido. Nele, o animal é mais observado em seu direito do que num abatedouro que o mata sem que haja a preocupação, em nenhum momento, com seu sofrimento.

 

Fica o questionamento, a dúvida de saber se os que condenam o sacrifício de animais em rituais religiosos dispensam a carne do boi ou porco abatidos com crueldade ou a do frango que foi morto de cabeça para baixo num aviário.

 

 

Notas: 

1. Não utilizamos a expressão “deuses” para nos referirmos aos Òrìṣà nessa página e em nosso site. Utilizamos a expressão “divindades” por compreender a religião dos Òrìṣà como monoteísta.

2. Santos. Maria Stella de Azevedo. Balaio de Ideias: Ritual e Sacrifício, 31 de agosto de 2013. Link: http://mundoafro.atarde.uol.com.br/balaio-de-ideias-ritual-e-sacrificio/

 

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Categoria: Antropologia, Àṣẹ, Cultura, Rituais, Sacrifício de animais, Transmissão de Conhecimento
Tags: axé, Brasil, Candomblé, cultura afro, mãe de santo, nagô, orixás, pai de santo, raça, sacrifício de animais, sagrado, yorubá

Comentários

Marcelo em 16/10/2017 11:58:22
As informações, aqui, brilhantemente expostas, são de extrema importância. Uma pena que pessoas se deixam levar pela total ignorância dizem/fazem coisas com o sentido de denigrir cada vez mais a religião.
msms em 17/06/2016 14:33:44
Sabedoria de Axé
Helio em 17/06/2016 00:01:30
Boa noite, este artigo é de uma excelente para abrilhantar nos conhecimentos e corroborar nos ensinamentos de nossos novos iniciados para orisa ... a sim ressaltando a sensibilização de seus cognitivos .
Josélia Pereira de sousa em 16/06/2016 21:11:10
É louvável abordagem de um assunto de suma relevância para toda sociedade de uma forma geral. Parabens
babá Itaumide em 13/06/2016 21:02:59
O sacrifício dos animais em nossa religião nada mais é que um ritual e alem disso comemos a carne com toda a comunidade, antigamente nossas avós matavam galinhas e outros animais no sitio ou na cidade ( criavam para isso ) e aí também seriam punidos?

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