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Odùdúwà

 

Um personagem histórico, uma divindade: Duas vias que definem quem é Odùdúwà.

 

Por Gill Sampaio Ominirò

 

Odùdúwà histórico

 

Como dissemos na matéria “Os Yorubá”, Odùdúwà seria, segundo o nigeriano Samuel Johnson, Nimrod, personagem bíblico descrito como o primeiro poderoso na Terra (Gênesis 10-8; Crônicas 1-10). Johnson relata que Nimrod comandou os Yorubá, em guerras, até a Península Arábica.

 

Odùdúwà era, então, filho de Lámúrúdù, um dos reis de Meca, e fora aclamado como líder de seu povo. Mas por divergências religiosas foi expulso. Partiu então com uma legião de seguidores. Durante a longa viagem, alguns destes seguidores, como Gbobiri e Kukawa, que eram seus irmãos, rumaram a oeste dando origem às etnias homônimas. Por outro lado, Odùdúwà foi em direção ao leste fundando Ilé Ifẹ, sendo seu primeiro Ọ́ọ̀ni . Essa jornada teria acontecido por volta de 800 a.C..

 

A expulsão

 

No século V, Meca era o principal centro comercial. Os Yorubá e outros que foram considerados politeístas e foram autorizados a praticar sua religião, sendo milhares os nativos na época. 360 deuses estavam em Ka'aba.

 

Odùdúwà, decidiu guiar seu povo para o culto dos seus antepassados. Ele pregava o culto aos ancestrais, algo que se tornou base da religião Yorubá e se mantém até hoje como seu princípio basilar.

 

Ocorre que, durante o reinado de seu pai, Odùdúwà era muito influente e ele, então, alegou ser o herdeiro do trono de Meca e, assim, atraiu vários seguidores, transformando as mesquitas em templos para a adoração de deuses com a ajuda de um sacerdote chamado Asara.

 

Asara teve um filho, Braima, que foi educado nos princípios do muçulmanismo e se ressentiu da adoração obrigatória de deuses imposta por Odùdúwà.

 

Havia em Meca, por influência de Odùdúwà, uma expedição de caça que durava três dias e agrupava todos os homens da cidade. Eles eram ordenados para a honra e o culto de suas divindades. Numa destas expedições, Braima aproveitou a oportunidade da ausência dos homens, tomou a cidade e destruiu todos os ídolos de deuses deixando um machado no pescoço do ídolo mais importante. Na volta da expedição encontraram o templo destruído e foram atrás de Braima para queimá-lo vivo. Diante do ocorrido, instala-se uma revolta na cidade que desencadeia uma guerra civil.

 

O resultado desta guerra foi a morte de Lámúrúdù e a expulsão de seus filhos de Meca. Odùdúwà e seus seguidores conseguiram escapar com dois ídolos. Ele e seus filhos juraram se vingar. Odùdúwà morreria, tempos depois, sem impetrar sua vingança.

 

A longa viagem

 

Os seguidores de Odùdúwà eram chamados Àwọn Agbàgbà (os antigos). Integraram o grupo: Ọ̀rúnmìlà, Oluorogbo, Ọbamèri, Ọbasin, Ọbàgèdè, Ògún Alágada, Ọbamakin, Oba Winni Ajé, Ẹ̀rìnsilẹ̀, Ẹ̀lẹ́sijẹ, Ọlọ́ṣẹ, Alajọ, Ẹsidálẹ̀, Olókun, Oriṣateko e Sẹtilu, além de seguidores comuns da população.

 

Odùdúwà deixou sete filhos e deles se originaram várias tribos Yorubá. O primeiro dos filhos, uma mulher, era mãe de Olowu, que se tornou rei dos Ẹgbá. O segundo, também mulher,  tornou-se mãe de Alákétu, progenitor dos Kétu; o terceiro, homem, tornou-se rei do povo de Benin; o quarto, Orangun, tornou-se rei de Ila; o quinto, Onísábẹ́, rei de Sábẹ́, e o sexto se tornou rei dos Popo. O sétimo e último foi Okanbi que se tornou progenitor dos Ọ̀yọ. Ele era o mais jovem, mas se tornou o mais rico.

 

De Ilé Ifẹ, os descendentes de Odùdúwà se espalharam por outras zonas da região Yorubá; entre os Estados que fundaram estão Ìléṣà, Ekiti e Ondo a leste; Kétu, Sábẹ́ e Ẹgbádo a oeste; Ọ̀yọ a norte, e Ìjẹ̀bu a sul.

 

Ọ̀yọ veio a ser a mais conhecida das cidades Yorubá em virtude de seu domínio político-militar sobre grande parte do sudoeste da Nigéria e da área que é hoje a República de Benin.

 

O nome

 

Vale ressaltar que há uma corrente de pensamento a fim de dar explicações filosóficas com base linguística a respeito do nome de Odùdúwà. O africanista Eduardo Fonseca Júnior, por exemplo, propõe para o nome Odùdúwà a seguinte análise etimológica:

 

Odù:   recipiente autogerador

Da:     Criador(a)

Iwa:    Existência.

 

Odùdúwà seria, então, O Ser Criador da Existência na Terra.


E o mesmo autor diz ainda que:

 

"(...)presume-se que Odùdúwà teria ido para a África a mando de Olódùmarè (Jeovah), para redimir os descendentes de Caim que, à semelhança de seu ancestral, carregavam o sinal da Besta na testa. (Gênesis. 4-15/16)".

 

“(...)Após o pacto semelhante ao que foi feito entre Deus e Abrahão, Nimrod troca de nome passando a chamar-se Odùdúwà”.


“(...)Odùdúwà (Nimrod), filho de Olódùmarè (Jeovah), parte para a terra prometida. (Gênesis, 12-1/2/3; Gen. 17-4/5/6)”.

 

“(...)Nimrod era descendente de Noé, neto de Cam (Camita) e filho de Cusi (kusi). (Gênesis 10-8/9)”.

 

“(...)Abrahão, descendente de Sem (Semita) e Odùdúwà (ex-Ninrod), descendente de Cam (Camita), eram parentes”.

 

Por outro lado, o historiador e PhD nigeriano Joseph Adebowale Àtàndá informa que Odùdúwà não é o fundador da etnia Yorubá, mas é certo que ele seja o estruturador de diversos grupos existentes que deram origem a esta dinastia, sendo responsável pela importância de Ilé Ifẹ̀ à época.

 

Odùdúwà morreu cego por causa de uma doença nos olhos e após a sua morte passou a ser cultuado como Òrìṣà de grande prestígio entre os Yorubá.

 

 

 

 

Odùdúwà mitológico

 

A presença de Odùdúwà nos mitos da criação do mundo e sua participação histórica na migração após a ascensão islâmica reforçam sua proeza de líder.

 

Não podemos deixar de relatar a teoria mencionada por Verger em seu clássico Orixás, tendo em vista a importância desta obra para o estudo antropológico e etnológico dos cultos afro-brasileiros e para estudo do culto de Òrìṣà em África. Suas pesquisas em território africano são de imensa importância para a antropologia afro-brasileira.

 

Verger relata, por exemplo, as extravagantes teorias do Padre Baudin e dos seus compiladores, encabeçados pelo Tenente-Coronel A. E. Ellis, sobre as relações existentes entre Ọbàtálá e Odùdúwà. Mal informado e dotado de uma imaginação fértil, o padre expôs no seu livro as religiões de Porto Novo (que não é um país Yorubá), com informações erradas.

 

Baudin feminiza Odùdúwà para fazer dele a companheira de Ọbàtálá. Fechou esse casal Ọbàtálá-Odùdúwà (formado por dois machos), numa cabaça e construiu, partindo desta afirmação inexata, um sistema dualista, recuperado com proveito por posteriores estruturalistas, no qual “Ọbàtálá (macho) é tudo o que está em cima e Odùdúwà (pseudofêmea), tudo o que está embaixo; Ọbàtálá é o espiritual, e Odùdúwà a matéria; Ọbàtálá é o firmamento e Odùdúwà é a terra”. Um total disparate.

 

A obra de Baudin, copiada por Ellis, foi o ponto de partida de uma série de livros escritos por autores que se copiaram uns dos outros sem colocar em questão a plausibilidade do que fora escrito por seus predecessores. O Padre Labat constatava já com certa ironia, em 1722, que “certas informações foram dadas por uma quantidade de autores” e acrescentava: “mas talvez seja a opinião daquele que escreveu primeiro e que os outros seguiram copiando sem se inquietarem se elas estavam bem ou mal fundamentadas”.

 

A respeito de Odùdúwà, acumulou-se com o tempo uma vasta documentação escrita, tida como erudita porque é constituída de textos, a única valiosa aos olhos letrados, mesmo que estes textos estejam inspirados por escritos anteriores inexatos e contrários à verdade.

 

Juana Elbein dos Santos, em Os Nagô e a Morte, também repete esta teoria equivocada do casal Ọbàtálá-Odùdúwà, o que lhe rendeu uma crítica severa de Verger à época.

 

Enfim, durante suas pesquisas em África, em diversas regiões onde se fala Yorubá, Verger afirmou que jamais encontrou rastros das lendas de “Baudin-Ellis” nos meios tradicionais.

 

Entretanto, há sim um casal do qual faz parte Ọbàtálá, mas seu par é Yemowo, sua mulher. Ela pode ser vista, sob forma de imagens, no ilésìn do templo de Ọbàtálá, em Ìdèta, Ilé Ifẹ.

 

Yemowo Imagens de Ọbàtálá e Yemowo, sua única esposa, no templo de Ìdèta-Ilé em Ilé Ifẹ.

 

Odùdúwà criador da Terra

 

Há uma variante para o ìtàn (mito) da criação da Terra, no qual Odùdúwà é o enviado do Olódùmarè, pois vários mitos dão a Ọbàtálá o mérito dessa empreitada. Vejam:

 

Ọbàtálá (Ọsáàlá, Òrìṣà Nlá) estava pronto para criar a Terra com as instruções de Olódùmarè, quando se deparou com Èṣù. Este lhe questionou se ele havia lhe feito os sacrifícios necessários para seguir em sua tarefa. Ọbàtálá, pleno de sua autossuficiência, não lhe deu atenção.

 

Quando Ọbàtálá chegou ao local onde seria criada a Terra, Èṣù fez com que ele sentisse muita, mas muita sede e como não havia água, ele também fez com que Ọbàtálá avistasse um igi ọpẹ (dendezeiro), derramando sua seiva, o ẹmu, uma bebida entorpecente. Ọbàtálá, então, bebeu todo o ẹmu que pôde e, embriagado, deitou-se ao pé da palmeira e dormiu profundamente.

 

Olódùmarè, preocupado com a imensa demora de Ọbàtálá em lhe trazer o relatório da tarefa da criação, resolve enviar o guerreiro Odùdúwà para investigar o que estava acontecendo.

 

Ao encontrar Ọbàtálá dormindo e sem conseguir acordá-lo, Odùdúwà retornou a Olódùmarè relatando que nada havia sido feito e que o encarregado de criar a Terra havia falhado.

 

Olódùmarè sabiamente entregou a Odùdúwà os pertences para a criação da Terra e o incumbiu de realizar a tarefa com urgência.

 

Odùdúwà, então, efetivou a criação em apenas um dia e quando Ọbàtálá acordou se viu num mundo que não conhecia, retornou ao Ọ̀run e reivindicou para si o título de criador, mas Olódùmarè ao lhe relatar o ocorrido, proibiu-lhe de utilizar toda e qualquer parte do dendezeiro, como punição, e lhe entregou a tarefa de moldar, em argila, todos os homens e mulheres para a vida na Terra.

 

Ọbàtálá, assim, na condição de Àjàlá, moldou todos os seres humanos para que Olódùmarè lhes desse o sopro da vida.

 

 

 

 

 

Diante disso, Odùdúwà e Ọbàtálá criaram uma rivalidade e esta arenga segue até os dias de hoje entre seus seguidores.

 

Segundo José Beniste, Odùdúwà é tanto aceito como uma divindade masculina como feminina, a depender da região na qual há seu culto. Enquanto em Ilé Ifẹ ele é masculino, em Igbó Ọrà sua imagem é de uma divindade com grandes seios a amamentar uma criança.

 

Então percebemos que há uma questão política que implica imposição de gênero. Pois, nos locais onde Ọbàtálá tem culto mais expressivo e dominante, Odùdúwà é uma divindade feminina, como forma de minimizar sua importância. Por outro lado, em locais onde Odùdúwà foi historicamente um fundador ou pai de algum fundador, ele figura como divindade masculina e de extrema importância e destaque.

 

Segundo Beniste, a afirmativa de que Odùdúwà é uma divindade feminina está associada à tradição das divindades da Terra ligadas à fertilidade. É uma teoria no mínimo questionável, para não dizer, inocente. É muito claro que a questão de gênero em Odùdúwà é de mote político para a governabilidade.

 

Na cidade de Adó, por exemplo, ele é uma divindade feminina e tida como uma das sete crianças divinas, como relata o adúrà (prece) a seguir:

 

Ìyá dákun gbà wá o

Ki o tọ́ mọ

Ọ̀gbẹ̀gí l’Adó

 

Tradução:

 

Oh mãe, nós te suplicamos a nos libertar

Toma-nos conta e de nossas crianças

Você que astutamente se estabelece em Adó

 

Mais uma vez observamos a figura de uma divindade primordial, que historicamente foi responsável pela estruturação da identidade dos Yorubá sendo reduzida ao papel frágil de uma criança. O que deixa nítido a função política deste tipo de associação que, na fragilização do grande guerreiro, poderá colocar outro em seu lugar.

 

Enfim, quem é Odùdúwà de quem falamos em toda essa matéria? É uma pergunta que permanece em aberto. A definição desta personagem histórica ou mesmo da divindade se mantem inconclusiva.

 

No entanto, creio que foi possível demonstrar através do texto acima que Odùdúwà realmente existiu, que ele foi de extrema importância na estruturação da identidade Yorubá e que, após sua morte, tornou-se alvo de culto de milhões de pessoas não somente na yorubalândia, mas também na sua diáspora.

 

 

 

Oriki Odùdúwà

 

Odùdúwà! Ibá!

Bàbá mi a dá ìwa

Odúà, a um ìwa gun

Olóotu Ifẹ

Jagun Jagun, a fí wò oju ọjọ

Bàbá mi jí lòwúrò kùtùkùtù

O be e, yerí yerí

Lóòde Ifẹ

Odúà

A jagun ségun

O gbo gbà ibon lójú ogun, kó saa

Odùdúwà o furu bi oyé lóòké

O Jagun kó ẹrú

Òrìṣà ẹni nwa ire

Alàṣẹ, a wi be se be

A ro be rí be

Ológun gbege

Odùdúwà gbéra nlé ko dìde

ki o dìde owó

Ki o tún dìde olá fún mi o!

 

Tradução:

 

Odùdúwà! Saudações!

Meu pai, que cria o comportamento

Odúà, que faz as pessoas terem boa conduta

O harmonizador da cidade de Ifẹ

O guerreiro que, ao acordar pela manhã anda ativamente por toda cidade de Ifẹ

O benfeitor que não deixa as pessoas passarem fome

O próspero que semeia a prosperidade na vida dos outros

O bom juiz que julga a favor e contra

O senhor do àṣẹ da cidade de Ifẹ

Odúà, o vitorioso que guerreia e vence

Ele ouviu o som da espingarda na guerra e não fugiu

Odùdúwà que aparece no ar com uma nuvem

Ele guerreou e trouxe muitos escravos

Òrìṣà dos que procuram sorte

Tudo que ele fala acontece

O senhor do àṣẹ

Tudo que ele pensa acontece

Aquele que possuiu magia ativa

Odùdúwà, levante da terra

Que você levante com dinheiro e que também com prosperidade para mim

 

 

Hino da Nação Odùdúwà

 

Hino da Nação Oduduwa.

Publicado por Willys Omowale em Sábado, 8 de novembro de 2014

  

 

 

Bibliografia:

 

ABRAHAM, R. C. Dictionary of Modern Yorubá, Londres, 1946.

ÀTÀNDÁ, J. A. An introduction to Yorubá History. Ìbàdàn, Ìbàdàn University Press, 1980.

BENISTE, José. Àwọn Omi Òṣàlá, 2ª ed., Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2003.

___________. Dicionário Yorubá-Português, 2ª ed., Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2014.

___________. Ọ̀run Àiyé, 11ª ed., Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2014.

FONSECA. Eduardo, Dicionário Yorubá (nagô) – Português, 2ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1993.

JOHNSON, S. The History of the Yorubá, Lagos, CSS, 1921.

VERGER, Pierre Fatumbi, Notas sobre o culto aos orixás e voduns, 2ª ed. São Paulo, Edusp, 2000.

___________. Orixás, deuses iorubas na África e no Novo Mundo, 6ª ed. Salvador, Corrupio, 2002

 

 

Comentários

Diego Vartuli em 31/08/2016 16:23:50
Comparação a Nimrod me deixou perplexo pois o mesmo é considerado um rebelde contra as leis divinas...

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