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Ọ̀sányìn

osanyin

 

Ọ̀sányìn é o Òrìṣà que cura as doenças do corpo e da alma

 

Por Gill Sampaio Ominirò

 

É ele quem rege a energia das folhas, o encantamento físico e metafísico que elas possuem e é o detentor de um àṣẹ imprescindível, do qual dependem todas as divindades. Ele conhece especialmente as folhas medicinais e litúrgicas.

 

Este àṣẹ é o poder mágico que está nas folhas e são os cânticos sagrados no ritual da Sasányìn, do qual falaremos em outra matéria, os quais despertarão os poderes de cada uma delas. São folhas colhidas com cuidado e respeito na floresta onde nascem naturalmente, ou seja, por tradição, não podem ser cultivadas em jardins. Adiante voltaremos a falar sobre isso.

 

Importante destacar que quando um sacerdote de Ọ̀sányìn, o ọ̀lọ́ọ̀sányìn, vai colher as folhas litúrgicas, ele deve evitar relações sexuais no dia anterior para que suas energias não estejam instáveis. Durante esta colheita não deve falar com ninguém que encontrar no caminho e quando chegar ao local da captação deve deixar uma oferta à divindade.

 

Assim, somente pessoas preparadas podem liberar o poder das plantas de Ọ̀sányìn; ele somente permite que elas emanem seu àṣẹ mediante saudação ritualística, a qual somente alguns conhecem.

 

Um mito de Ifá narra que Ọ̀sányìn tem um pássaro muito poderoso, o Òpeèré, o qual, voando por toda parte, lhe traz informações sobre tudo que se passa no mundo. O Òpeèré é o símbolo que descansa em cima de sua cabeça. Não por acaso, sua representação de culto é uma árvore de ferro com galhos para cima, tendo na haste central um pássaro, o qual possui também estreita ligação com as Ìyàmi, as feiticeiras, as mulheres conhecedoras da magia chamadas “as proprietárias do poder do pássaro”, as Ẹlẹ́iyẹ.

 

Não existe Ọ̀sányìn sem o Òpeèré e o cântico a seguir relata a estreita ligação:

 

Òpeèré Òsányìn ìn s’ibú

Kúrú ìde akàkà

Òpeèré Òsányìn ìn s’ibú, Bàbá

Kúrú ìde akàkà

 

Tradução:

 

Òpeèré de Ọ̀sányìn voa profundo

O pequeno não muda a natureza

Òpeèré de Ọ̀sányìn voa profundo, Pai

O pequeno não muda a natureza

 

 

 O Òpeèré

 

Ìtàn

 

Ọ̀sányìn recebeu de Olódùmarè o segredo e o poder das folhas e era muito zeloso delas; queria esse poder somente para si e se recusava terminantemente em repartir com os outros.

Porém, um dia Ṣàngó julgou que todos os Òrìṣà deveriam possuir suas folhas particulares e não depender do poder de Ọ̀sányìn.

 

Dessa forma, sentenciou que Ọ̀sányìn dividisse as folhas com os outros Òrìṣà, mas ele se negou. Diante disso, Ṣàngó então ordenou que Ọya com uma ventania trouxesse ao seu palácio todas as folhas sagradas de Ọ̀sányìn para que fossem distribuídas aos Òrìṣà de Ọ̀yọ́. Ọya, então, gerou um furacão que derrubou as folhas e as arrastou pelo ar em direção ao palácio de Ṣàngó. Ọ̀sányìn percebeu o que estava acontecendo e gritou: Ewé ó! Ou seja, Oh! As folhas!

 

Ọ̀sányìn neste momento ordenou as folhas que voltassem às matas e elas obedeceram. Quase todas as folhas retornaram para ele. As que já estavam em poder de Ṣàngó perderam o àṣẹ, perderam o poder da cura. Diante do ocorrido, Ṣàngó admitiu a vitória de Ọ̀sányìn e entendeu que o poder das folhas devia ser exclusivo dele. Ọ̀sányìn, contudo, deu algumas folhas para cada Òrìṣà. No entanto, permaneceria com ele a capacidade de encantar tais folhas para a liturgia e para a cura. Encantamento este que se daria no ritual da Sasányìn, sem o qual as folhas não funcionam.

 

 

olosanyin

 

 

 

Quem é ele?

 

Ọ̀sányìn é um mistério, é enigmático e pouco conhecido. Mesmo em terras yorubá seu culto está praticamente extinto. É conhecido por diversos epítetos, como Àgbénigi (aquele que vive na árvore), ou por seu nome tradicional entre os yorubá: Èlésìjẹ (rei de Ésìjẹ), um povo ao norte do território yorubá, no Estado de Kwara, Nigéria. Mas é originário da cidade de Ìràwò, perto da fronteira com o antigo Dahomey, atual República do Benin.

 

 

 

No mapa de satélite acima, a localização exata da cidade de Ìràwò. Abaixo, o mapa político da Nigéria e em destaque o Estado de Kwara, no qual estão as cidades de Ésìjẹ e Ìràwò.

 

 

kwara

 

 

Contam que esta divindade não teve pai ou mãe, não nasceu de ninguém. Simplesmente apareceu, surgiu das entranhas da terra, assim como a vegetação. Aqueles que são vítimas de feitiçaria, encontram neste Òrìṣà um fiel protetor, uma arma potencial para a destruição dos inimigos ocultos ou declarados.

 

Ọ̀sányìn não fala. Fala por ele Àrọ̀nì, seu companheiro. Trata-se de uma entidade com cabeça e cauda de cachorro e corcunda (abuké). É temido até pelos Òrìṣà por causa do seu conhecimento sobre magia e também pelo seu aspecto. Quando alguém entra floresta sem apresentar os donativos corretos, Àrọ̀nì os engole. É ele quem fuma um cachimbo feito com a casca do ìgbín, o qual usa para potencializar os atributos das folhas e encantar as pessoas e é ele quem tem uma perna só (ẹlésẹkan), e por isso é confundido com Ọ̀sányìn. O nome Àrọ̀nì significa, em tradução livre: “aquele que tem os membros estropiados”. 

 

Ọ̀sányìn e Ọ̀ṣọ́ọ̀sí

 

Ọ̀sányìn também tem grande ligação com Ọ̀ṣọ́ọ̀sí. Ambos são residentes das florestas e este, no contato com Òsányìn, aprendeu o uso terapêutico das folhas, tornando-se um bàbá ewé. Em Kétou, por exemplo, o guardião do templo de Ọ̀ṣọ́ọ̀sí é um ọ̀lọ́ọ̀sányìn, o que deixa claro a ligação entre eles.

 

Há um ìtàn que descreve esse contato entre Ọ̀ṣọ́ọ̀sí e Òsányìn. Porém, tamanha foi a deturpação deste mito na diáspora, que não nos foi possível recolhê-lo de fonte segura. Permanece a Ìwé Ìmọ em dívida sobre esta questão.

 

Ọ̀sányìn e Ọ̀rúnmìlà

 

Por outro lado, há uma rivalidade entre os seguidores de Ọ̀sányìn e os de Ọ̀rúnmìlà, a divindade do oráculo de Ifá. Assim, dá-se uma antiga disputa entre os Oníìsegùn, mestres em medicina natural que dominam o poder das folhas, e os Bàbáláwo, sacerdotes versados nos profundos mistérios do oráculo e do destino, os pais do segredo.

 

Ìtàn 1

 

Ifá foi consultado por Ọ̀rúnmìlà que estava partindo do Àiyé (dimensão física), para o Ọ̀run (dimensão abstrata, espiritual), e que iria apanhar todas as folhas lá. Quando Ọ̀rúnmìlà chegou ao Ọ̀run, Olódùmarè disse, "Eis todas as folhas que queria pegar. O que fará com elas?". Ọ̀rúnmìlà respondeu que iria usá-las para benefício dos seres humanos. Todas as folhas que Ọ̀rúnmìlà estava pegando ele as levaria ao Àiyé. Quando chegou à Àgbàsaláààrin Àiyé L’Ọ̀run (pedra que se encontra no meio do caminho entre o céu e a terra), Ọ̀rúnmìlà encontrou Ọ̀sányìn e o indagou: " Ọ̀sányìn, onde está indo?" Ọ̀sányìn respondeu: "Vou ao Ọ̀run buscar folhas". Ọ̀rúnmìlà disse: “Mas eu já fui buscar as folhas, veja todas elas aqui". Ao vê-las, Ọ̀sányìn tentou tomá-las, mas não poderia fazer remédios com elas sem saber seus nomes e como encantá-las. Foi então que Ọ̀rúnmìlà disse a ele o nome de todas as folhas e como deveria despertar o àṣẹ nelas. Ele disse: "Iremos para o Àiyé juntos". Foi assim que Ọ̀sányìn passou a ser dono do poder das folhas.

 

Ìtàn 2

 

Ọ̀sányìn era agricultor de Ọ̀rúnmìlà e recusava-se a cortar as folhas que teriam serventias na manutenção da saúde das pessoas. Dizia ele: “não posso arrancar essa folha porque ela cura a dor de estômago”, mais à frente dizia: “não posso cortar essa árvore, pois suas folhas curam a febre”. Ao saber, Ọ̀rúnmìlà quis ver quais eram as ervas de valor terapêutico.  Ọ̀sányìn lhe explica que todas as folhas têm poder, basta que se saiba como despertar este poder nelas. Assim, convencido do conhecimento de Ọ̀sányìn, Ọ̀rúnmìlà percebeu que ele lhe seria muito útil nas consultas ao oráculo de Ifá e o manteve ao seu lado como conselheiro. 

 

osanyin

Escultura de Ọ̀sányìn em Ekiti, Nigéria, década de 1950

 

 

Ọ̀sányìn e Èṣù:

 

Èṣù, como sabemos, é um orisa que está em praticamente todos os rituais do candomblé, ou pelo menos nos mais importantes, desde o Ipàdé (ritual no qual se invoca divindades para a proteção dos festejos), até o Ọjọ́ Kẹta (ritual do terceiro dia). Neste caso, é no Ọjọ́ Kẹta que se faz uma Sasányìn após três dias dos sacrifícios rituais. Ali, Èṣù Òdàrà é o Òrìṣà que conduz o àṣẹ invocado por Ọ̀sányìn ao final do ritual, como diz a cantiga a seguir:

 

Ọ̀run a f’Èṣù Òdàrà

Kọ́ ba l’ayo

Ọ̀run a f’Èṣù Òdàrà

Kọ́ ba l’

 

Tradução:

 

O que vai ao outro mundo entregamos a Èṣù Òdàrà

Que ele o transporte com alegria

O que vai ao outro mundo entregamos a Èṣù Òdàrà

Que ele o leve

 

 

Oriki Ọ̀sányìn ati Èṣù:

 

Ọ̀sányìn, ó jé òrìṣà pàtàkì nínú àwọn òrìṣà tí wọn jo wá sí Àiyé

Odù, Ifá tí ó rò wá sí ay Àiyé é ni Òsé-eníwo

Èṣù Ọ̀sányìn yí n là n pè ní Èṣù Ìlàré.

Èṣù Ìlàré yí ni Èṣù ó bá Ọ̀sányìn wa sí òde ìsálayé tó si jẹ  wí pé n ní mòòò ló, tí ó bá  rúbò ní ọdún

Èṣù Ìlàré ni yíò gbé ẹbọ ré dé esé Olódùmarè ní bùda-ẹbọ

Ọ̀sányìn ni òrìṣà tí ó jẹ, ẹni tò jẹ olóríi Ajáwé-wagbò soògùn

Ó si jẹ Imalẹ̀ tó se pé gbogbo òun tí àwọn Imalẹ̀

Yòó kú mò se fún ọmọ wọn àti aràiyé gbogbo n lòun náà mòo se

Èṣù Ìlàré ni Èṣù Ọ̀sányìn

 

Tradução:

 

Ọ̀sányìn é um importante orixá dentre aqueles que vieram juntos ao mundo

O odù de Ifá que o acompanhou ao mundo é Òsé-eníwo

O Èṣù de Ọ̀sányìn é Èṣù Ìlàré

Quando Ọ̀sányìn está fazendo as oferendas, ele precisa da ajuda de seu Èṣù

Èṣù Ìlàré carrega suas oferendas até Olódùmarè, no lugar apropriado, onde as oferendas são aceitas

Ọ̀sányìn é a cabeça de Ajáwé-wagbò soògùn, o herbalista entre os òrìṣà

Ele é um Imalẹ̀ cuja conduta é semelhante à dos outros Imalẹ̀

Ele concede seu auxílio às criaturas e aos povos do mundo

Èṣù Ìlàré é o Èṣù de Ọ̀sányìn

 

 

Voltando à questão da colheita das folhas sagradas, é preciso dizer que, apesar da obrigatoriedade da presença das folhas em todos os rituais importantes de culto, pois kosí ewé, kosí òrìṣà, literalmente, sem folha, sem òrìṣà; a coleta vem sendo feita há décadas no âmbito doméstico, nas imediações geográficas dos terreiros ou sendo compradas através de erveiros. Isso se dá pela urbanização das cidades e também pelas redefinições dos papéis na organização dos terreiros.

 

O transe

 

Segundo Pierre Verger, não há transe deste òrìṣà nos locais em que ele fez sua pesquisa de campo (1981:123). Por outro lado, Simpson conta que em Ibadan os sacerdotes de Ọ̀sányìn, os ọ̀lọ́ọ̀sányìn, entram em transe de possessão durante seu festival anual (1980:42). Por outro lado, na diáspora yorubá nas Américas, o único país no qual há transe desta divindade é o Brasil. Em Cuba, na Santeria, diz-se que nenhum ser humano seria capaz de suportar tamanha energia emanada por Ọ̀sányìn. 

 

Oriki Ọ̀sányìn:

 

Àgbénigi, òròmọdìẹ abìdi ṣónṣó

Eṣinṣin abẹdọ kínníkínni

Kòògo egbòrò irín

Aképè nigbà ọ̀ràn kò sunwọ̀n

Tíotio tin, ó gbà aṣo òkùnrùn ta gìẹ̀gìẹ̀

Eléṣẹ̀ kan jù ẹléṣẹ̀ méjì lọ

Ewé gbogbo kíki oògùn

Àgbénigi, èsìsì kosùn

Agogo nlá ṣe erpe agbára

Ó gbà wọ́n là tán, wọ́n dúpẹ́ tẹ́nitẹ́ni

Àrònì já si kòtò di oògùn máyà

Eléṣẹ̀ kan ti ó lé eléṣẹ̀ méjì sáré

 

Tradução:

 

Àgbénigi, aquele que vive nas árvores e que tem um rabo pontudo como estaca

Aquele que tem o fígado transparente como o da mosca

Aquele que é tão forte quanto uma barra de ferro

Aquele que é invocado quando as coisas não estão bem

O esbelto que quando recebe a roupa da doença se move como se fosse cair

O que tem uma só perna e é mais poderoso que os que têm duas

Todas as folhas têm viscosidade que se tornam remédio

Àgbénigi, o deus que usa palha

O grande sino de ferro que soa poderosamente

A quem as pessoas agradecem sem reservas depois que ele humilha as doenças

Àrònì que pula no poço com talismãs em seu peito

O homem de uma perna que incita os de duas pernas para correr

 

 

 

 A seguir uma galeria de fotos de vários Ọ̀pá Ọ̀sányìn (cetro de Ọ̀sányìn):

 

 

 

Bibliografia:

ABRAHAM, R. C. Dictionary of Modern Yorubá, Londres, 1946.

BENISTE, José. Dicionário Yorubá-Português, 2ª ed., Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2014.

SIMPSON, G. E., Yoruba Religion and Medicine. Nigéria: Ibadan University Press

VERGER, Pierre Fatumbi, Orixás, deuses iorubas na África e no Novo Mundo, 6ª ed. Salvador, Corrupio, 2002.

 

 

Comentários

Alan em 09/07/2016 10:37:58
Amei...muito obrigado por dividir conhecimento...👏👏👏😍
Rejane em 08/07/2016 23:43:19
Emocionada com as histórias muito esclarecedor Ewe Ewe o!!!amo meu pai respeito e muito carinho .
Lenna em 06/07/2016 22:04:57
amei esse texto muito produtivo para nois do axe.belo conhecimento adorei
Esmeralda Fernandes em 06/07/2016 17:55:32
Muito bom, Esclarecedor sem ser tendencioso... Axé
Alexandre em 06/07/2016 10:37:16
Adorei gostei muito sou iniciado de ossanyn que saber muito mais sobre meu pai porém sei muito pouco faço várias pesquisas pra saber quem realmente ele é e foi muito esclarecedor se tiver mais coisas e puder manda no meu e-mail eu agradeço muito obrigado
nancy aparecida heleno em 13/10/2015 21:54:11
Muito esclarecedor...adorei.Muito obrigada.
Eliane em 22/07/2015 11:32:53
amei, otimas informações. obrigada

jose carlos heraclito do rego em 28/03/2015 10:54:02
muito bons incinamentos asé oooooooooo

maria da gloria em 18/11/2014 18:50:43
adorei.pela primeira vez li uma publicação deste site confesso que gostei muitíssimo.Motumba

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